Posts escritos por: Beatriz Kollenz

Resenhas 30set • 2017

O Sorriso da Hiena, por Gustavo Ávila

O Sorriso da Hiena é um livro de literatura policial escrito pelo brasileiro Gustavo Ávila. Primeiramente lançado de forma independente, Gustavo conseguiu alcançar o público chamando atenção da editora Record, suas vendas e a críticas lhe renderam uma republicação em 2017 sob o selo Verus. Centrado em uma série de assassinatos envolvendo crianças, o livro é uma viagem pelas questões de ética profissional e a moral humana.

“A mulher encarou o filho, tentando fazê-lo se acalmar, aquele olhar materno com efeito sedativo, tranquilizador, quase como um abraço. Piscou com força para fazer cessar as lágrimas, como quem tenta dizer que vai ficar tudo bem, que vai acabar logo. E foi assim que os olhos de sua mãe, que sempre conseguiram dizer tudo sem precisar de uma palavra sequer, silenciaram para sempre ao som de uma arma de brinquedo.”

Eu simplesmente adorei a leitura de O Sorriso da Hiena, a trama criada pelo Gustavo conseguiu ser eletrizante do início ao fim, os cliffhangers deixados ao final dos capítulos me levaram a não querer largar o livro. A ambientação foi o que eu mais gostei. A descrição das cenas foi extremamente vívida, era como se eu fosse transportada para dentro do livro, alguns lugares me lembravam minha cidade, andando na rua eu sentia que podia cruzar com o Artur ou o William a qualquer segundo. Toda a trama que cerca David, e o motivo para ele cometer tais assassinatos, possui uma profundidade muito boa para quem quiser explorar, o maior mérito do livro em minha opinião.

“E a dor, Sr. William, ela é contagiosa feito uma doença. Lá dentro a única coisa que eu aprendi foi a passar a minha pra frente, na esperança de que ela sumisse de vez. Mas ela não sumiu. E, não importava quantas vezes eu machucasse alguém, a minha dor continuava em mim.”

A moralidade é posta em prova durante toda a leitura. David tem um objetivo ‘nobre’ para realizar os assassinatos, ele precisa saber qual a origem do mal. Até que ponto a dor empregada na infância faz com que a criança se torne um agente da violência mantendo esse ciclo sem fim? Para descobrir a resposta ele entra em contato com um prestigioso psicólogo, William, seu doutorado analisava casos reais de crianças que passaram por situações violentas na infância, levantando perguntas sobre a relevância de eventos violentos no desenvolvimento de traumas e na moldação do caráter. David comete os assassinatos e encaminha as crianças para o psicólogo na busca de entender se ele é um monstro insensível por conta do que passou na infância, ou se o é por natureza.

Todas as famílias são diferentes, o ritual é sempre o mesmo e as vítimas são os pais. As crianças, amarradas em uma cadeira, se vêem obrigadas a assistir a morte dos pais. William é um exemplo de profissional e de cidadão, é atencioso com os pacientes, realiza trabalhos voluntários, é amado pela noiva e amigos, e tudo isso começa a ruir quando ele vê a chance de realizar o seu estudo, mesmo que os caminhos que o levaram a essa chance sejam sujos de sangue.

– Por que fica escuro de noite?

–  Por que você acha que fica escuro à noite, Luiza?

–  Eu perguntei primeiro.

Então eu expliquei, inclusive com desenhos, que era quando o sol estava do outro lado da Terra. Que ele dava a volta para iluminar o outro lado.

Ela me chamou de mentiroso.

Eu perguntei por quê.

Ela me disse que Felipe, um dos seus pais, tinha lhe dito outra coisa.

Em suas palavras:

–   A noite é escura porque é quando as cores dormem.”

Gustavo também soube trazer a narrativa policial para a realidade do nosso país. A dificuldade que a polícia encontra durante a investigação, a falta de intercambio entre as polícias de zonas afastadas e os interesses econômicos interferindo no processo, são exemplos de como a história cabia em nossa realidade. Em tempos onde muitos escritores vivem tendo a literatura americana como base, saber adaptar o gênero para a nossa cultura é essencial. O livro também é corajoso em matar personagens e descrever cenas mais sangrentas, senti o nervoso da situação na pele em diversos trechos.

A minha única crítica negativa é que o autor foi um pouco explicativo demais em algumas partes, o autismo do detetive Artur é um exemplo. Caberia deixar subentendido ao leitor, o escritor já havia deixado pistas o suficiente, uma coisa ínfima perto da qualidade do livro. Se você é fã do gênero, ou está a fim de se aventurar nesse tipo de literatura, O Sorriso da Hiena é uma ótima pedida. Você vai se deparar com um livro excelente, e o melhor de tudo? É literatura nacional.

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Resenhas 18set • 2017

O Conto da Aia, por Margaret Atwood

“Nolite te bastardes carborundorum”

 Esse ano fui agraciada com chance de conhecer O Conto da Aia, livro escrito pela escritora canadense Margaret Atwood, vencedora de vários prêmios como o Booker Prize  e o Arthur C. Clarke. Margaret é conhecida principalmente por The Handmaid’s Tale,  um livro feminista que mostra um futuro distópico onde as mulheres perderam todos os direitos.  Na República de Gilead, país que era o antigo Estados Unidos, as mulheres são divididas em castas que definem suas posições na sociedade. Temos as Esposas, mulheres dos comandantes, as Marthas, responsáveis pela limpeza e cuidados nas casas dos membros altos do regime, as Esposas Econômicas, posse de homens mais baixos que cumprem todas as funções na casa, as Tias que treinam e controlam as Aias, e por fim as Aias, mulheres férteis que tem a função de gerar filhos para a república.

A opressão mostrada pela autora é angustiante. Mulheres não podem ler ou escrever, ficar na presença de outros homens, não podem trabalhar ou possuir bens. Em castas mais baixas as restrições são ainda piores. Aias não podem ser vaidosas, não podem comer o que querem, não podem ter amizade muito menos um nome. Nossa protagonista é denominada Offred, algo como “do Fred”, um patronímico que demonstra como ela é vista aos olhos do regime, um “útero com pernas”.

“Conto, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, de todo modo, escrever é proibido. Mas se for uma história, mesmo em minha cabeça, devo estar contando-a a alguém. Você não conta uma história apenas para si mesma. Sempre existe alguma outra pessoa. Mesmo quando não há ninguém. Uma história é como uma carta.”

Para entender esse regime precisamos voltar para sua formação. Por não ser uma narrativa linear, Offred nos revela o mundo anterior através de lembranças contidas, nossa parte nessa história é juntar as peças para compreender melhor esse quebra-cabeça. No mundo do “Antes”, as mulheres perderam a capacidade de gerar filhos, provavelmente por causa da poluição, guerras e afins. A baixa fertilidade acaba gerando grupos religiosos extremistas que tomam o poder com a retórica de salvar a humanidade. Offred perde o emprego, seu dinheiro, sua filha e seu marido aos poucos, a tomada de poder é gradual assim como o tolhimento dos diretos civis das mulheres.

No início há protestos e revoltas, essas ficam cada vez mais violentas até serem completamente suprimidas. A mãe de Offred, uma militante feminista, questiona a apatia e o medo das mulheres da nova geração na hora de lutar pelos seus deveres, é dela a visão negativa de que mesmo conquistados, os direitos podem muito bem serem suspensos. O que antes parecia impossível se torna real.

“Era assim que vivíamos então? Mas vivíamos como de costume. Todo mundo vive, a maior parte do tempo. Qualquer coisa que esteja acontecendo é de costume. Mesmo isto é de costume agora. Vivíamos, como de costume, por ignorar. Ignorar não é a mesma coisa que ignorância, você tem de se esforçar para fazê-lo. Nada muda instantaneamente: numa banheira que se aquece gradualmente você seria fervida até a morte antes de se dar conta. Havia matérias nos jornais, é claro. Corpos encontrados em valas ou na floresta, mortas a cacetadas ou mutilados, que haviam sido submetidos a degradações, como costumavam dizer, mas essas matérias eram a respeito de outras mulheres, e os homens que faziam aquele tipo de coisas eram outros homens.”

Margaret Atwood não inventou a roda, cada uma das situações retratadas no livro tem fundamentação histórica. Isso é o que nos causa mais medo. As vestimentas, a gravidez forçada, a culpabilização das mulheres pela infertilidade ou pelo estupro, o regime totalitário, tudo isso foi visto diversas vezes ao longo da nossa história. Quer mais? Isso existe em nosso mundo, hoje. O regime de Gilead se fundamenta muito na bíblia, o ritual para a concepção de filhos por qual as Aias são obrigadas a passar é baseado história bíblica de Raquel, contada em Gênesis 30:1-5: “Vendo Raquel que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã, e disse a Jacó: Dá-me filhos,se não morro. Então se acendeu a ira de Jacó contra Raquel, e disse: Estou eu no lugar de Deus, que te impediu o fruto de teu ventre? E ela disse: Eis aqui minha serva Bila; coabita com ela, para que dê à luz sobre meus joelhos, e eu assim receba filhos por ela. Assim lhe deu a Bila, sua serva, por mulher; e Jacó a possuiu. E concebeu Bila, e deu a Jacó um filho”.

O que mais me admira nesse livro é ver o trabalho e a minúcia que a autora colocou em sua pesquisa. Para montar esse cenário, Margaret viajou fundo, cada pecinha do livro se encaixa perfeitamente, o mundo que antes parecia absurdo se torna tangível, quase real, em tempos de tanto extremismo o livro nos deixa em alerta.

“ – Mas o que significava? – digo.

–  Qual delas? – diz ele. – Ah. Significava: “Não permita que os bastardos reduzam você a cinzas.” Creio que imaginássemos que fossemos muito espertos naquela época.

Eu forço um sorriso, mas está tudo diante de mim agora. Posso ver por que ela escreveu aquilo na parede do armário, mas também vejo que deve ter aprendido aqui, neste aposento. Com ele, durante algum período anterior de recordações de infância, de confidencias trocadas. Não fui a primeira então.”

O Conto da Aia se tornou uma das minhas distopias favoritas. Mesmo assim não foi uma leitura fácil. O livro é repleto de cenas fortes, ler sobre o estupro que Offred é obrigada a passar, ou ver a violência empregada contra Janine e as outras Aias é estarrecedor. Uma das cenas que mais me cortou o coração foi ver Offred descrevendo o quarto e ressaltando que o mesmo não tinha um ventilador de teto para que as Aias não pudessem se enforcar. O suicídio é uma resolução freqüente para muitas dessas mulheres. Mesmo a Moira, exemplo de uma mulher forte que não se deixa submeter, se mostra impotente perante todo o regime no final.

A construção desse livro é primorosa, em alguns momentos vemos uma luz no fim do túnel, só para chegar mais uma pecinha do painel e destruir nossas esperanças. A única coisa que me impede de dar cinco estrelas para o livro é o epílogo. Achei essa parte meio desnecessária, a explicação dói demais e seria melhor deixar o futuro subentendido. Se você é fã de distopias adolescentes ou clássicas, você precisa muito ler esse livro. Só digo para ir com cuidado, além disso é importante se preparar para o terror, mesmo que no fim  sofra do mesmo jeito.

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Resenhas 25ago • 2017

O Perfume da Folha de Chá, por Dinah Jefferies

O Perfume da Folha de Chá é o segundo livro da autora Dinah Jefferies e foi publicado no Brasil em 2017 pela editora Paralela. O Romance se passa entre as décadas de 20 e 30 no Ceilão e narra à vida de Gwendolyn, uma jovem de 19 anos que se casa com um dono de uma fazenda de chá. Antes de começar a minha resenha, preciso deixar bem claro que não gostei nenhum um pouco do livro. Pretendo ser o mais parcial o possível, pois impressões de leitura são diferentes e, no geral, vi muitas avaliações boas deste livro.

O Perfume da Folha de Chá é um romance de época que se passa na década de 20, após a primeira guerra mundial em uma colônia inglesa que hoje faz parte do Sri Lanka.  Durante o período narrado na história tivemos movimentos de independência na Índia, guiados por Mahatma Gandhi, busca por melhores direitos dos colonos, propagação dos movimentos de extrema direita na Alemanha e a crise de 29.

Acho importante frisar o período histórico, pois um dos motivos de não gostar do livro foi à forma como tais acontecimentos pouco influenciavam na vida dos personagens. As revoltas tão importantes que aconteciam no Ceilão eram citadas en passant, Gwen tinha lá seus problemas, mas não se importava com nada fora do seu mundo privilegiado e restrito.

“Sabia muito bem que a culpa era capaz de consumir uma pessoa por dentro, e que era uma presença persistente, invisível a princípio, mas que ia crescendo até ganhar vida própria.”

Não me apeguei a nenhum personagem do livro. A protagonista se mostrou uma menina mimada e sem nenhum crescimento ao longo da história. O seu par romântico era ainda menos interessante. As coadjuvantes não passavam de clichês ambulantes se tornando previsíveis e fracas. No final do livro, tive a impressão de que todos os problemas se resolveriam com uma boa conversa após o casamento. A autora tinha na mão um excelente corte histórico, uma fazenda de chá inglesa e resolveu contar a história de uma jovem rica que, se casa e vai morar em outro país sem a mudança afetar sua vida.

De vez em quando a autora soltava que Gwen sentia falta da família, mas em nenhum momento demonstrava isso nas atitudes da personagem. Aqui temos outro ponto que me impediu de apreciar o livro, Dinah não aplicou bem o show don’t tell. Um exemplo claro é Laurence. Ele é descrito como um homem duro e ao mesmo tempo vi o esposo de Gwen chorar diversas vezes. Como um homem que não chora acaba chorando tanto em 400 páginas? Isso torna todos no livro sem credibilidade.

Resolvi ler porque a sinopse me lembrava Jane Eyre, um dos meus livros favoritos. Tratava-se de uma jovem que se envolvia com um homem mais velho e ia morar em um lugar distante e sem conhecidos. Claro que isso tudo caiu por terra logo após o prólogo, quando o ar de mistério que o enredo propunha acabou sendo esquecido. No final, a história da outra esposa de Laurence serviu apenas para justificar a facilidade com que ele encarou o segredo da esposa.

“Nada teria sido capaz de prepará-la para o choque do calor do Ceilão, nem para as cores marcantes, nem para o contraste entre a fortíssima luz do sol e a escuridão profunda das sombras.”

O livro pode ser bom se você relevar vários pontos. A autora tenta discutir depressão, abuso, alcoolismo, depressão pós-parto e uma infinidade de assuntos, infelizmente nenhum é trabalhado com afinco e serve apenas de muleta para o enredo. Tive meus momentos de fúria ao acreditar que um estupro serviria de plot device, pode ser que aí o começo do meu desgosto. Contudo é um livro fácil de ler, se você gosta de romance de época e quer ver a história de um casal apaixonada enfrentando as dificuldades da vida sem muito esforço, pode gostar do livro. Ele foi um bestseller internacional e vendeu muito bem na Inglaterra, pode ser só uma grande implicância minha. Quem sabe?

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Resenhas 14ago • 2017

Aqui Estou, por Jonathan Safran Foer

Aqui Estou marca a volta de Jonathan Safran Foer à literatura depois de um jejum de onze anos. Publicado no Brasil em 2017, Aqui Estou conta a vida de uma família judia em Washington. Considerado um dos melhores livros de 2016 pela crítica americana, o livro é um retrato dos tempos modernos e uma crítica a forma como nós vivemos.

“Todas as manhãs felizes se parecem, assim como todas as manhãs infelizes, e no fundo é isso que as torna tão profundamente infelizes: a sensação de que essa infelicidade já aconteceu antes, de que qualquer esforço para evitá-la só vai, na melhor das hipóteses, reforçá-la, e provavelmente até exacerbá-la, que o universo está, por uma razão inconcebível, desnecessária e injusta qualquer, conspirando contra a seqüência inocente formada por roupas, café da manhã, dentes e tufos de cabelo rebeldes, mochilas, sapatos, casacos, tchau.”

A história de Aqui Estou se inicia quando Sam, o filho mais novo de Jacob e Julia, é pego escrevendo palavras de cunho racista na escola hebraica. Tal acontecimento, às vésperas do bar-mitzvá, acaba trazendo à tona vários dos problemas do casal. Jacob e Julia estão em crise, só que ao contrário do censo comum, escolhem mentir e fingir que tudo vai muito bem, obrigado. Após o incidente com Sam, Julia encontra um celular de Jacob escondido atrás do vaso sanitário. O casamente que se esforçava em parecer perfeito começa a ruir.

Os três filhos do casal também têm seus problemas. Sam enfrenta as crises típicas dos jovens de treze anos e prefere passar seu dia jogando Other Life. Max é o único preocupado com o cachorro Argos que, apesar da negação de Jacob, está próximo da morte. Benjy é jovem demais e cheio de questionamentos. Se não bastasse toda esse caos, o avô de Jacob enfrenta uma forte depressão. Com a proximidade do bar-mitzvá de Sam, Jacob tem que lidar com mais membros complicados da família: seu pai extremamente preconceituoso e seu primo Israelense egocêntrico.

“Qual o problema de querer e precisar? Nenhum. E a distância escancarada entre onde você está e aquilo que sempre imaginou não precisar ser uma sugestão de fracasso. Uma decepção não precisa ser decepcionante. O querer, o precisar, a distância, a decepção: crescer, saber, se comprometer, envelhecer ao lado de alguém. Podemos viver sozinhos perfeitamente. Mas não será uma vida.”

Se não bastasse todos os problemas que a família enfrenta, um acontecimento extraordinário vem questionar o que é ser judeu e o que significa o estado de Israel. Um terremoto de proporções astronômicas destrói toda a terra santa e coloca a região em estado de guerra. Tal acontecimento não é impossível visto que, segundo estudos israelenses, cerca de doze grandes terremotos causaram enormes danos em cidades da região nos últimos mil anos. Israel está em guerra contra os países árabes desde de sua fundação. Os países de origem muçulmana consideram a existência de Israel e a presença de judeus em sua terra santa uma afronta que deve ser combatida até o extermínio.

O que o terremoto de Jonathan faz é apenas colocar uma centelha no barril de pólvora que é o oriente médio. O povo judeu foi perseguido em toda história, fosse por egípcios, romanos, católicos ou nazistas. A diáspora espalhou todo os judeus ao redor do mundo e, quando a guerra se inicia, o primeiro ministro de Israel clama ao povo que volte para sua terra natal a fim de defender sua existência.  O grande problema é que muitos judeus não possuem ligação com Israel, muito menos consideram o estado sua pátria. O sionismo também é controverso, as atitudes de Israel ao longo da história causam questionamento em muitos dos judeus jovens espalhados pelo globo.

“Meu avô ouvia os gritos dos seus irmãos mortos. Era o som do tempo dele.

Meu pai ouvia ataques.

Julia ouvia as vozes dos meninos.

Eu ouvia silêncios.

Sam ouvia traições e sons de produtos da Apple sendo ligados.

Max ouvia os choros do Argos.

Benjy era o único ainda jovem o suficiente para ouvir o lar.”

O título do livro é uma referência bíblica. Deus chama Abraão, ao que ele responde ‘Aqui estou’. Mesmo quando Deus pede a Abraão que sacrifique seu primogênito sua resposta é a mesma. O livro também conta com referências modernas, um exemplo disso é que Jacob é roteirista de uma série de TV da HBO super premiada que possuiu dragões. A narrativa de Jonathan Foer é de uma maestria imprescindível. Ele não só tem domínio total sobre os personagens como também constrói diálogos tão verossímeis que você sabe quem está falando o quê, quase como se eles existissem e estivessem na sua frente. Isso torna o livro muito dinâmico, apesar de suas mais de quinhentas páginas, Aqui Estou flui muito rápido.

Jonathan consegue conduzir do humor para uma angústia profunda em poucos parágrafos, algumas piadas de humor negro colorem ainda mais a narrativa. A única razão de não dar cinco estrelas para o livro, é o fato de acreditar que ele poderia ser mais conciso. Entendo perfeitamente a intenção do autor e todos os seus experimentalismos, contudo alguns cortes deixariam a obra ainda mais dinâmica. Entre os fãs do autor Aqui Estou é controverso, não posso opinar já que essa é a minha primeira experiência com Foer. Saí de Aqui Estou louca para começar a ler Extremamente Alto e Incrivelmente Perto e recomendando sua leitura para todo mundo.

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Lista 04ago • 2017

5 motivos para ler Só os Animais Salvam

Como uma resenha não é bastante pra honrar um livro bom, resolvi listar cinco motivos para você ler Só os Animais Salvam. Respire fundo e prepara-se porque vou fazer de tudo para te levar nessa viagem!

Você vai conhecer outros escritores

Em Só os Animais Salvam temos uma montanha de escritores famosos figurando entre os personagens ou servindo de espelho para a narrativa. Alguns dos meus autores favoritos aparecem nesse livro, veja só a lista: Tolstói, Kafka, Virgínia Woolf, Sylvia Plath, Jack Kerouac. O capítulo mais eficiente em instigar uma leitura, em minha opinião, é o do mexilhão. A Ceridwen simula muito bem a narrativa de On The Road, nesse caso Jack Kerouac não aparece na história, mas serve de inspiração na hora de contar sobre o mexilhão que representa muito bem os ideais Beatniks. O mesmo se repete na fábula do chimpanzé, o ar kafkiano permeia toda a história que é uma das minhas favoritas!

Você pode aprender mais sobre história

Apesar de não se aprofundar muito, alguns momentos importantes da história servem de pano de fundo para a narrativa. Partindo da colonização da Austrália até a guerra do Iraque, não há um momento de paz durante a leitura. Temos as duas grandes guerras mundiais presentes em várias fábulas. Vemos o terror que sofrem não só os combatentes, mas também as pessoas comuns afetadas pela violência e a fome. O mesmo se estende pela guerra da Bósnia, de Moçambique, do Iraque que são alguns dos conflitos presentes no livro. Durante a Guerra Fria, vemos o uso dos animais na batalha espacial travada entre os EUA e a União Soviética. Golfinhos vão lutar no Vietnã, um mundo de horrores criado pelos humanos e visto sobre a ótica dos animais nos leva a questionar a razão de tanta violência. Fiquei curiosa em várias fábulas e fui correndo entrar na internet para pesquisar sobre vários assuntos. O livro me deixou cheia de curiosidade, terminei uma leitura incrível e de quebra aprendi mais sobre a história do mundo.

Cada fábula é livre

Uma das coisas mais divertidas em se ler contos é que cada narrativa é independente. Você pode ler fora da ordem, pular algum que não goste, ler intercalando com outras leituras. Sempre tenho um livro de contos na minha cabeceira para ler antes de dormir. Só os Animais Salvam não é diferente, apesar de nessa vez engolir o livro numa tacada só. Se você não tem muito tempo para ler, essa é uma boa pedida. Você pode ler um conto sempre que estiver à toa, não vai ter que se lembrar de onde parou nem do que aconteceu antes de partir para outra história, você pode ler na fila do banco, no ônibus, no intervalo da escola, toda hora é hora.

Você vai fazer muitas marcações

Se você é fã de post-its como eu sou vai gastar um bloquinho inteiro lendo esse livro. Deparei-me com parágrafos inteiros tão espetaculares que tinha vontade de emoldurar e colocar na parede do quarto. Não vivi só de citações, marquei o nome de alguns escritores que não conhecia, alguns dados que resolvi checar, fiz anotações de história, meu livro ficou colorido de tanto post-it. Se você gosta de fazer anotações e marcações nas suas leituras, vai precisar de um bom material e de tempo livre pra aproveitar o livro. Para mim nada é mais bonito que um livro repleto de conteúdo!

As edições da Darkside são lindas

Quem é fã de livros e não conhece essa editora vai se apaixonar pela edição caprichada que a Darkside preparou. A capa e as folhas de guarda são belíssimas, o livro tem ilustrações antes de cada fábula também lindas. A diagramação e o cuidado na hora de criar esse livro mostram muito bem o esmero que a editora tem. Depois de ler Só os Animais Salvam você pode ir correndo atrás de outros livros da editora, o livro faz parte do selo Darklove dedicado a publicar autoras, mais um motivo para conhecer essa empresa que valoriza as mulheres.

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Regulamento do Sorteio

– A promoção é válida até 14/08/2017, tendo seus ganhadores anunciados na fanpage dos blogs;
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Gostou de Só Os Animais Salvam? Você também pode conferir a resenha do livro clicando aqui.

Promoções Resenhas 28jul • 2017

Só os Animais Salvam, por Ceridwen Dovey

Só os Animais Salvam é um lançamento da Darkside, escrito pela Ceridwen Dovey e parte do selo Darklove. O livro é uma coletânea de dez fábulas modernas contadas por animais que conviveram com escritores famosos, viveram os horrores da guerra e sofreram com o egoísmo humano. Tentei ao máximo conter minha euforia com esse livro, não quis criar muita expectativa em cima da obra, mas creio que isso vai ser difícil.

“Mas para quê? Carreguei aquela coisa de beleza todo o caminho em meu dorso, com as cordas cortando até os ossos, para que alguém fizesse tinir as notas no bar da Alice, para bêbados no meio do dia. Era aquilo que partia o coração de Zeriph. Que a música do piano não significasse nada sem o falso profeta da bebida.”

Cada fábula possui seu estilo, seja emulando algum escritor, como é o caso do Mexilhão que evoca Jack Kerouac em seu excelente On The Road, seja pelo momento. Temos animais narrando sua história da África, da Polônia, da França e até do espaço. Cada um tem a sua voz na hora de contar sobre a vida e a sua visão do mundo.

Confira: “Empatia e Imaginação: O que os animais podem nos ensinar”

Não sei para vocês, mas para mim é muito difícil falar de um livro quando eu gosto muito da história, provavelmente a dificuldade vem do fato de eu ficar tão animada que passo o tempo todo pulando e abraçando o livro ao invés de expressar o meu amor de uma maneira mais clara. Quem gosta de literatura, quem ama ler, não tem como não gostar desse livro. A felicidade que temos quando entendemos quem a autora está tentando emular, quando compreendemos as referências ou deparamos com algum escritor favorito figurando de coadjuvante é indescritível. Claro que se você não entender de onde vem a referência pode consultar no final as fontes utilizadas pela a autora.

“Virgínia acompanhava nos jornais a perversão que era o comércio de tartarugas: milhões de nós importadas a cada ano do norte da África, chegando com patas e cascos fraturados por terem sido encaixotadas umas em cima das outras; mil tartarugas gregas descobertas mortas na praia de Barking. Dificilmente alguma sobrevivente da jornada conseguiu resistir ao primeiro inverno inglês.”

Outro ponto muito positivo é como a autora usa os animais para criticar a nossa hipocrisia e mesquinhez humana. Isso fica mais forte nos cenários de guerra. Era comum durante a primeira guerra animais habitarem as trincheiras, eles caçavam os ratos e serviam de companhia aos soldados. Os animais sofriam ainda mais fora dos campos de batalha. Cidades sitiadas pereciam com a falta de alimento e a população chegava ao ponto de caçar ratos, gatos e pombos em busca de comida.

Os ricos eram um caso a parte, graças ao seu poder aquisitivo e influências chegavam ao ponto de comer carnes dos animais ‘exóticos’ do zoológico quando todos os pombos já tinham se extinguido. O preço era caro, mas isso não era um problema. Humanos não hesitaram em abandonar seus animais de estimação na hora de escapar, muito menos se preocuparam com a destruição as florestas e com as famílias dos animais. Há uma fábula em que essa questão se inverte, temos humanos incrivelmente preocupados com a situação dos bichos, o que seria excelente se as pessoas em questão não fossem nazistas e tivessem convertido a energia em exterminar membros da própria espécie.

“Encarcere-se outra vez, negue-se qualquer coisa que deseje, até que o prazer venha da negação mesma, não da consumação do desejo. Apenas assim será verdadeiramente livre, e próxima do humano.”

No meio de tantas fábulas fica difícil encontrar a minha favorita. Talvez as que mais fizeram meus olhinhos brilharem foram as vozes da Gata, do Chimpanzé e da Tartaruga. Eu chorei como se não houvesse amanhã lendo esse livro. Me via profundamente tocada pelo amor inocente e pelo coração dessas criaturas ao ponto de precisar parar a leitura e refletir sobre o que tinha acontecido. Todos nós somos culpados de alguma forma. Fazemos parte deste planeta, contribuímos com a poluição, com o desmatamento e com tantas outras coisas egoístas. A fauna e a flora perecem a cada dia, deixamos que governos e empresas se afastem da sua responsabilidade em troca de lucro.

Recentemente tivemos todo o problema com o Acordo de Paris e a recusa de alguns governos em cumprir as metas estabelecidas, a justificativa é o progresso, mas até que ponto podemos permitir isso? O aquecimento global não afeta só os animais, nós sofremos com as conseqüências e como seres pensantes nos dedicamos a outras tarefas ao invés de proteger nosso planeta. Todo mundo já deve ter visto imagens das calotas polares derretendo e os ursos polares sofrendo com a escassez de alimento. Por que isso não causa empatia nos que estão no poder?

“Amor tem cheiro de morte, era nisso que eu pensava estando enterrada nas ruínas.”

É claro que o livro caminha muito longe da militância, tudo isso são pensamentos que desenvolvi percorrendo as páginas. Você não vai se sentir atacado em nenhum momento, os animais são melhores do que nós até nisso. Talvez suas conclusões ao final da leitura sejam diferentes, quem sabe? A narrativa da Ceridwen é gostosa e ela é muito talentosa, espero que a Darkside traga outros livros da autora porque eu quero ler muito mais. Se você ainda não se sentiu motivado a embarcar nessa leitura eu não sei mais o que fazer, só posso te pedir que leia o livro. Deixo aqui também um protesto para meu labrador, Luke, por não querer posar em nenhuma foto e por tentar comer o livro.

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Resenhas 20jul • 2017

A Aventura do Estilo, por Henry James e Robert Louis Stevenson

A Aventura do Estilo é um livro da coleção Marginália, publicada pela Rocco que busca trazer para o público textos que muitas vezes são renegados no universo literário. Repleto de ensaios e correspondências trocadas entre Henry James e Robert Louis Stevenson, dois gênios da literatura inglesa, A Aventura do Estilo é um livro cheio de insights para quem é fã dos autores.

Henry James nasceu em Nova Iorque em 1843 e foi naturalizado britânico. Henry não era o único talentoso da família, seu pai era um grande teólogo e seu irmão foi um dos fundadores da psicologia. Sua obra literária conta com vários livros, entre eles A Volta do Parafuso, Daisy Miller e Retrato de uma Senhora. Já Robert Louis Stevenson nasceu em 1850 na Escócia. Sempre possuiu uma saúde frágil, o que impediu de seguir as vontades do pai de estudar engenharia.

Cursou direito como a maioria dos escritores da época (Henry James seguiu o mesmo caminho), e iniciou a carreira que o consagraria como um dos maiores escritores britânicos. Robert foi uma espécie de best-seller do seu tempo, suas obras eram publicadas em diversos países, chegou a sofrer com a pirataria de seus romances nos Estados Unidos e teve de lidar com uma fama que não lhe agradava. Foi o autor dos celebres O Médico e o Monstro, A Ilha do Tesouro e As Aventuras de David Balfour. Ambos cultivaram uma amizade longeva que só cessou com a morte de Robert em 1894.

A correspondência entre os dois se iniciou em por volta de 1884 graças aos dois ensaios que abrem o livro. Henry James publicou o ensaio A Arte da Ficção e causou um grande burburinho na roda literária da época. No ensaio, James discorre sobre a importância da literatura como arte e no dever do escritor. O autor expõe suas opiniões sobre a importância das narrativas centradas no psicológico do personagem, na profundidade dos livros e cita diversos autores, entre os nomes citados figurava o de Robert Louis Stevenson.

Logo após a publicação de A Arte da Ficção, Robert Louis publicou um ensaio resposta na mesma revista refutando alguns apontamentos feitos por Henry James. Robert não desacreditava da arte da escrita, mas via a importância dela também em entreter e fomentar a imaginação e a vida dos leitores. Ambos eram escritores conhecidos e respeitados na época, porem de formas completamente distintas. James era um escritor considerado culto enquanto Robert era muitas vezes renegado ao posto de autor de entretenimento. Tais diferenças artísticas serviram para aproximar os escritores, que iniciaram sua correspondência para discutir sobre sua profissão.

O livro é um pouco cansativo se você não é familiarizado com os autores. Como leitora de um único livro de cada escritor, me senti um pouco perdida no mar de recomendações e citações literárias. Ambos os escritores mandavam manuscritos e pediam a opinião do outro, discutiam e indicavam livros de outros escritores e conversavam sobre a vida. Algumas cartas são mais interessantes que outras. Robert era apaixonado pelo trabalho de Henry James e a premissa era recíproca. Em algumas cartas um se ocupa de exaltar o último trabalho do outro, em outras, James se preocupa com a saúde frágil do amigo.

O que eu mais pensei durante a leitura foi sobre o futuro dos livros de correspondência. Será que teremos compilado de mensagens do Whatsapp e do Twitter entre outros autores? Quem pensa em se tornar escritor também vai achar o livro interessante. Apesar de ser exaustivo, o livro me trouxe uma porção de histórias boas sobre dois grandes escritores. Os ensaios também nos levam a pensar sobre a importância da literatura e sobre a distinção entre os romances experimentais e artísticos, e os romances de gênero e entretenimento. A edição da Rocco conta com um trabalho gráfico bem bacana na capa, se você está procurando um livro de não ficção para passar o tempo recomendo A Aventura do Estilo, mas antes é bom ler alguma obra dos escritores para saber bem onde você está se aventurando. Ambos são excelentes e você não vai se arrepender.

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Resenhas 29jun • 2017

A Casa no Lago, por Thomas Harging

A Casa No Lago é um livro escrito por Thomas Harding, escritor e jornalista britânico. Finalista de prêmios de como o Costa Biography Award e o Orwell Prize, o livro é um lançamento da Rocco. Antes de qualquer coisa, é importante frisar de que o livro não se trata de um romance, mas sim de jornalismo literário. A história começa quando o autor é instigado pela avó a buscar a história da família, e o mais importante, a história da casa onde eles passavam as férias de verão. Localizada em Groß Glienicke, a casa foi testemunha de toda a história da Alemanha, passando pela primeira guerra, o holocausto, o muro de Berlin até os dias de hoje.

Durante todo livro, Thomas busca remontar a história da propriedade que começa em 1890, com Otto Wollank. Foi só em 1927 que a família Alexander adquiriu terras para construir sua casa de férias. Groß Glienicke era considerada um refúgio, mesmo sendo próxima a Berlin. Com seus bosques, fauna e o grande lago, a paisagem paradisíaca atraia novos e velhos ricos, dispostos a ter uma casa de verão. A família Alexander, de origem judaica, prosperava nos negócios, e Alfred, patriarca da família, era um médico de prestígio. Atendia atores, cantores, poetas e diversas personalidades como, por exemplo, Albert Einstein. Muitos destes amigos eram convidados a passar o fim de semana na Casa do Lago, proporcionando bons encontros e festas.

A Alemanha passava por uma boa fase, finalmente se recuperando da primeira guerra e vendo a economia florescer. Neste cenário as artes prosperavam, teatros e óperas eram sempre lotados por um público culto e ávido por entretenimento. A vida da família Alexander era prospera, até que a Grande Crise chegou em 1929, com a queda da bolsa de Nova York.

Com a economia ruindo, os partidos conservadores alemães começaram a despontar, dentre eles o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, um partido conservador de direita mais conhecido por nós como o Partido Nazista. É importante levar em conta que o antissemitismo e o nacionalismo encontrado nestes partidos eram uma raridade na Alemanha de 1929. A perseguição dos judeus fazia parte do passado, as leis de 1871 emancipavam o povo judeu e a primeira Constituição Alemã reforçava o direito destas comunidades. Muitos judeus tinham cargos importantes e foram condecorados durante a primeira guerra, inclusive Alfred Alexander.

A história da família Alexander na propriedade veio a se complicar com a morte de Otto. A propriedade passou para o comando de Robert Von Schultz, membro do Stahlhelm, o maior grupo paramilitar da Alemanha, conservador e também atissemita. Com a crise, o povo alemão se voltou contra as minorias. Cartazes como “Alemanha para os alemães” e “Estrangeiros e judeus só tem direitos de visitantes” se espalhavam. Em meio à perseguição e ao caos, a família Alexander só conseguiu fugir por ser rica e ter bons contatos. A propriedade então passava para as mãos da família Meisel.

A Casa do Lago ainda foi o lar de mais duas famílias: Fuhrmann e Kühne; também testemunhou toda a grande guerra, a ocupação, a divisão entre a Alemanha Ocidental e Oriental, a queda do muro e a restauração do país. Todos os fatos foram retratados ao longo do livro de forma magnífica. O conteúdo não é só um retrato da Alemanha, mas também um documento histórico e a prova de como situações extremas podem levar a violência e ao caos.  A família Alexander demorou até 1936 para escapar do país, acreditando que o povo se revoltaria com as medidas do Partido Nazista. Junto deles, diversos alemães recusaram escapar e pereceram nos campos de concentração.

O radicalismo é um ciclo na história na humanidade, se torna presente sempre que crises humanitárias ou econômicas despontam. Ligando a TV não é difícil encontrar algum político usando discursos perigosos. Somos nós que damos ouvido a essas pessoas e as colocamos no poder. É importante olhar a fundo a história, buscando evitar cair nos mesmos erros. Livros como A Casa no Lago são importantes para nos manter alertas.  A crueldade dos governos é um reflexo do seu povo? Fica a dúvida.

O livro não é chato, arrastado nem nada do gênero. O autor tem uma forma de nos contar a história das famílias e da casa de uma forma fluida e acessível. O livro também contém mapas, árvores genealógicas, referências bibliográficas e uma porção de notas para facilitar a leitura. Se você se interessa por história, pela segunda guerra mundial ou quer diferenciar a suas leituras, esse livro é uma boa pedida.

Durante a leitura, fui instigada a estudar e pesquisar mais sobre o assunto, fiz diversas marcações e mergulhei na história da casa. O livro não só foi uma boa companhia como também me fez questionar muito sobre os nossos dias atuais. Comecei a ver os noticiários com outros olhos, talvez seja um caminho sem volta. Isso só o tempo vai dizer. Fica aqui a minha mais do que devida recomendação. Se você leu Resistência ou outro romance que se passe durante o período, melhor ainda.

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Mangás & Animes 11jun • 2017

Livros que viraram mangás

Você sabia que muitos mangas são na verdade adaptações de livros? Depois da leitura de Nossas Horas Felizes, resolvi trazer mais dicas de mangás baseados em livros que você pode encontrar por aqui no Brasil.

Battle royale

Battle Royale foi uma série de bastante sucesso. Teve anime, filme, mangá e tudo isso foi derivado do livro de Koushun Takami. A história se passa em um futuro distópico, onde um governo totalitarista sorteia uma turma de alunos do 9º ano para batalharem até a morte. O governo utiliza dessa tática para controlar a revolta da população, bem parecido com uma outra série não é?!

Na época de Jogos Vorazes, surgiram boatos e acusações de plágio por todos os lados, mas as histórias são diferentes. Não há televisão nem exploração midiática em Battle Roayle. As crianças saem para uma excursão e descobrem no meio do passeio que vão ter que lutar até a morte. Por meio de sorteio cada um recebe uma bolsa que pode ou não conter armas e mantimentos, os alunos também possuem uma coleira que explodirá caso tentem fugir ou se rebelar.

O mangá saiu no Brasil pela Conrad e o livro foi lançado pela Editora Globo. Adoro os dois, indico pra quem gosta de terror, suspense e de distopias. Lembrando que a pegada aqui é mais violenta e menos revolucionária que Jogos Vorazes. O mangá possui bastante gore e não é recomendado para menores de 18 anos.

1 litro de lágrimas

1 litro de lágrimas é um outro case de sucesso no Japão. O livro virou dorama, filme e mangá, ganhou o mundo e fez muita gente chorar. A história do livro é na verdade a transcrição do diário de Aya Kito, uma menina de quinze anos que descobre ter uma doença degenerativa incurável.

O nome não é por acaso, Aya foi diagnosticada com Degeneração Espinocerebelar, uma doença lenta e degenerativa que tira os movimentos do corpo até a totalidade sem tirar a consciência. Aya viu seu corpo se degenerar e foi perdendo seus movimentos até ser sepultada em uma cama, para sempre. A mãe de Aya incentivou a menina a escrever um diário quando ela foi diagnosticada, graças a esse gesto o mundo ganhou essa linda história.  As últimas palavras no diário são: “O fato de eu estar viva é uma coisa tão encantadora e maravilhosa que me faz querer viver mais e mais”.

Tanto o mangá como o livro saíram no Brasil pela Editora NewPop e você pode adquirir através da loja online da editora. Infelizmente eu só li o mangá. Quero ler o livro, mas ainda não tive coragem.

Um grito de amor do centro do mundo

Um grito de amor do centro do mundo é um livro escrito por Kyoichi Katayama e lançado no Brasil pela Alfaguara. Nas primeiras páginas o protagonista nos conta que a menina que ele amava morreu. Daí em diante conhecemos a história de um casal de adolescentes comum que tem que confrontar com a dureza da vida.

O romance deles se desenvolve de uma maneira bem bonitinha, é crível e garante suspiros e choros aos corações românticos. A vida deixa de ser cor de rosa quando Aki é diagnosticada com câncer. É um romance bonito e triste. Quem gostou de A culpa é Das Estrelas vai curtir.

Prefiro o mangá ao livro, mas é só implicância minha já que não gosto muito de histórias de sick-lit. Para mim o mangá é mais efetivo para passar o drama, quem gosta desse tipo de literatura pode ler o livro sem problemas. Ele é muito bem escrito e tem referências a mangás, anime e ao estúdio Ghibli. O mangá saiu no Brasil pela editora JBC com o nome Socrates in Love, ele se encontra disponível em livrarias de lojas especializadas.

Resenhas 26maio • 2017

Nossas Horas Felizes, por Gong Ji-Young

Nossas Horas Felizes é um livro escrito pela Gong Ji-Young, autora sul coreana. A história se passa na década de 80 e é narrada por dois personagens: Yujeong que é uma jovem de família rica e que tentou o suicídio várias vezes, e Yunsu um jovem presidiário no corredor da morte. Ambos se cruzam graças à tia de Yujeong, uma freira voluntária na prisão de Seul.  A partir daí a vida dos dois começa a mudar.  O livro é um bestseller coreano e já conquistou diversos prêmios, entre eles o Korean Novel Prize.

Conheci Nossas Horas Felizes pela adaptação em mangá, Watashitashi No Shiawase Na Jikan, que é um quadrinho muito conhecido e bem avaliado no Mangaupdates. Como a pessoa lenta que sou, não me liguei que o livro do qual o mangá se baseava era o que eu tinha em mãos. Quando percebi fiquei muito feliz e tratei de começar a leitura o mais rápido o possível.

Vejo que a obra tem três temas principais: o primeiro seria a questão da pena de morte, o segundo o suicídio e o terceiro a violência. Este último não é só discutido em cima de Yunsu, mas também é tratado em Yujeong que foi abusada aos quinze anos. Aqui vale parabenizar a autora que tratou muito bem a culpabilização da vítima e o quanto isso é destrutivo.  O maior mérito do livro, na minha opinião, é discutir o assunto da pena capital. Notamos o quão doloroso é para os presos, os guardas e até para os condenadores. Num certo momento temos a reflexão: “Será que pagar um crime com a morte do assassino é a melhor solução?”, não estaríamos cometendo assassinato do mesmo jeito? Por que uma pessoa que faz justiça com as próprias mãos é condenada e o Estado não? Durante a leitura, citações de diversos autores e personalidades aumentam ao debate. Essas se encontram nos capítulos narrados por Yunsu, onde ele nos conta a sua história.

No primeiro momento achei meio clichê o passado do protagonista – pobre, abandonado pela mãe, sofre abuso do pai, obrigado a roubar para sustentar o irmão – mas a autora tem um objetivo com isso. Muito mais do que mostrar o papel do Estado na formação dos jovens, ela quer deixar bem claro que violência só gera mais violência. Crianças criadas sem afeto são mais propensas a virarem delinquentes e mais tarde criminosos. O tio de Yujeong, médico psiquiatra, discorre sobre o assunto e mostra a presença do abuso físico e moral em todas as classes, enfatizando o quanto isso é maléfico na formação do indivíduo. Mal sabe ele o quanto a sobrinha sofreu. Yujeong não só precisa aceitar o que ocorreu com ela, como também deve aprender a perdoar a mãe que era abusiva. Na busca para fugir da dor ela acaba vivendo uma vida precária, abusando do álcool e recorrendo ao suicídio, o qual ela tenta três vezes.

A tia Mônica, freira e figura materna importante na obra, cuida da parte religiosa do livro. Aqui vale ressaltar que mesmo sendo católica, ela nos mostra algo comum em todas as religiões: o perdão movido pela empatia. O perdão se mostra importante para todos. Desde as famílias destruídas pelos criminosos, até os próprios condenados que se vêem na dura posição de se perdoar. Yunsu mesmo acredita que merece morrer e não tem o direito de ser feliz após ter causado tanta dor. Tia Mônica também humaniza muito os condenados. Pelos olhos clementes da coadjuvante, conseguimos ver a humanidade e com isso simpatizar com os presos. É pelo olhar bondoso dela que acabamos vendo o quanto é cruel a pena capital.

A pena de morte ainda é realidade em mais de 50 países. A Coréia do Sul teve uma restrição aprovada na década de 90, mas em 2010 ela voltou a ser praticada. Desde a sua instauração na Coréia, mais de 900 pessoas foram executadas. Em 2015 um levantamento mostrou que cerca de 23 mil pessoas se encontravam no corredor da morte. No ano de 2013 1.925 pessoas foram condenadas em 57 países. No Brasil a pena só é permitida em caso de crime de guerra, se tornando o único país de língua portuguesa a ter a pena capital presente na constituição. A última vez que a pena foi utilizada em nosso país foi em 1876. Uma pesquisa do datafolha de 2008 apontou que cerca de 60% da população brasileira era a favor da pena capital.

Como uma pessoa que se posiciona contra, acredito que livros como esse são deveras importante para a conscientização da população. Não é a primeira nem a última vez que escritores utilizam da literatura para combater a pena de morte. Victor Hugo escreveu O Ultimo Dia de um Condenado como protesto, se posicionando contra a pena até sua morte. Dostoievsky também é um bom exemplo

Contudo, o livro apresenta alguns pontos fracos. Alguns diálogos são bem vazios e também temos coadjuvantes bem estereotipados. A própria Yujeong é meio clichê em alguns momentos, mas não acho que isso invalide o livro. É uma leitura fácil e interessante, principalmente quando vemos o quanto o livro tem de potencial para iniciar debates. Uma leitura bem recomendada para quem gosta de drama, de romance ou está a fim de conhecer mais sobre pena de morte e o sistema prisional. O mangá também é muito bom, mas não é encontrado no Brasil. Pra quem curte dorama, há uma adaptação bem aclamada pelos coreanos. Nem preciso dizer que gostei da leitura e indico-a caso esteja procurando algo para ler.

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Mangás & Animes 17maio • 2017

Vale a pena ler One Piece?

Comecei esse ano com uma vontade enorme de reler alguns mangás, nessa onda acabei embarcando na aventura de reler One Piece. Foram mais de 800 capítulos totalizando 84 volumes, levei ao todo três meses para concluir a série e posso dizer agora que valeu a pena. O tamanho do mangá afasta muita gente, nessa montanha de volumes as pessoas começam a se perguntar: será que vale gastar meu tempo lendo esse quadrinho?

One Piece é uma série bem famosa no Japão, ocupa sempre os primeiros lugares no ranking de vendagens sendo um sucesso absoluto. A obra, que também apresenta uma boa fama mundial, teve em 2015 a sua coroação ao entrar para o Guinness Book como “mesma série de quadrinhos de um só autor a ter mais cópias publicadas”. Na época One Piece totalizava 320.866.000 cópias impressas, contabilizadas desde o início de sua publicação em 1997.

Recentemente o mangá bateu o seu record numa contabilização mais profunda dos exemplares, foram 350 milhões de obras publicadas só no Japão e 66  milhões de obras nos 42 países onde One Piece é lançado. Mais uma vez ninguém pode negar que o mangá é um sucesso absoluto.

Publicado pela primeira vez em 1997 na revista semanal Shonen Jump pelo autor Eiichiro Oda, One Piece conta a história de Luffy, um garoto que sonha em se tornar o Rei dos Piratas. No mundo de One Piece quem dita às regras é a Marinha e o Governo Mundial, entidades que se mostram cada vez mais corruptas ao longo da história. Na contramão dessa realidade existem os piratas que mandam e desmandam nos mares aonde a ‘justiça’ não chega.

Comparado a maioria dos shonens, One Piece é bem pouco maniqueísta. Outra qualidade é o humor, marca registrada e recorrente do autor. É um mangá divertido e leve, ler os volumes é um passatempo fácil e prazeroso. As lutas são bem distribuídas e a história tem uma boa linearidade.

Um dos principais méritos do mangá é a criação de personagens. Oda é mestre nesse assunto, em One Piece até o menor dos coadjuvantes é marcante. Seja pelo design ou pela história de vida, é impossível não gostar dos protagonistas, vilões e figurantes do quadrinho.

O mundo também tem uma boa estruturação, possui regras próprias, o que possibilita os leitores a embarcarem nas teorias e maluquices que só os fãs conseguem. Eu nunca me considerei uma fã de One Piece, mas depois de reler o mangá fiquei viciada. Talvez o tamanho e os anos gastos lendo o mangá façam a gente esquecer o quanto a história é boa, essa refrescada na memória me fez perceber isso.

Claro que também existem alguns problemas. Oda é excessivamente explicativo em alguns momentos, o excesso de texto dá uma cansada, principalmente nas batalhas.  A presença do humor acaba balanceando isso, mas em alguns volumes é evidente a barriga. Senti isso principalmente na saga dos homens peixe. O autor também tem uma mania irritante: desenhar personagens femininas com corpos irreais e bem apelativos.

Foi uma coisa que aumentou com o passar do mangá e que tem me incomodado nos últimos volumes. Entretanto, One Piece possui uma boa quantidade de mulheres, elas lutam e tem seus ideais, mas são claramente apagadas pelos homens.  Não podemos negar que a importância delas nas sagas é uma evolução no gênero battle shonen, contudo ainda temos muito chão para andar.

Outra qualidade da obra são as discussões propostas. One Piece lida com preconceito, com corrupção, com a idéia do que é a justiça. São temas importantes e tratados em vários momentos da história. Não podemos esquecer que é um mangá voltado para o público infantojuvenil, então não são discussões complexas, mas o fato de estarem presentes já é um ponto a mais para o autor.  One Piece também apresenta uma variedade de raças no seu universo, o que mais uma vez incentiva as discussões sobre diferença e preconceito.

Se você se sentiu atraído alguma vez por One Piece e se assustou com o tamanho, vá ler sem preocupações. Você pode acompanhar os volumes sem pressa, ou se preferir ver o anime que é disponibilizado no Crunchyroll – a adaptação é bem fiel e não tem muitos fillers. Leitura obrigatória para quem é fã do battle shonen ou pra quem gosta de quadrinhos. One Piece já é um marco e continuará deixando sua marca na história dos mangás, até porque ainda tem muito que acontecer até o final.

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Resenhas 02maio • 2017

Resistência, por Affinity Konar

Resistência é o primeiro livro publicado da autora Affinity Konar e conta a história de duas irmãs gemas: Pearl e Stasha. O livro começa quando as irmãs são levadas de um trem de carga para Auschwitz, enquanto tentavam escapar junto da mãe e do avô. Ambas são meninas muito inteligentes e curiosas, Pearl se destaca por suas aptidões artísticas enquanto Stasha pela sua animação e eloquência. O romance se passa a em 1944 e é centrado no Zoológico de Mengele. Misturando fatos reais ao mundo ficcional, o livro é um retrato doloroso dos horrores da segunda guerra mundial.

Pearl é responsável pela tristeza, pela bondade e pelo passado. Stasha é responsável pela diversão, pelo futuro e pelo mal. Essa divisão de responsabilidades entre as duas logo no início do livro retrata muito bem o caminho que seguirão, e o que um campo de concentração é capaz de fazer. A inocência das meninas é tomada muito cedo, bem como a esperança de um futuro melhor. Ao longo das páginas vemos uma degradação física e emocional das irmãs que são obrigadas a enfrentar sessões e mais sessões de testes e experimentos científicos, sem nenhum embasamento. A parte mais cruel disso tudo, é que foi real.

Josef Mengele realizava experimentos com gêmeos, albinos, anões, ciganos, judeus, deficientes e a lista não para.  Suas experimentações iam desde tentar criar gêmeos siameses costurando pessoas até injetar substâncias e vírus para “testar” as reações. Gêmeos eram os seus preferidos, e por mais terrível que pareça, pertencer ao Zoológico era um destino muito melhor que o dos demais dentro de Auschwitz. Lá ainda existiam mais chances de você ser alimentado, de ter algum conforto e de sobreviver.

Affinity Konar se inspirou na vida das irmãs Eva e Miriam Mozes que viveram no campo de concentração e sofreram com os experimentos de Mengele. Apesar de terem sobrevivido carregaram seqüelas pelo resto da vida. Elas tiveram várias doenças como câncer, tuberculose, falência dos rins, além de Eva sofrer com diversos abortos espontâneos, tudo conseqüência dos experimentos.

Vemos alguns fatos reais presentes no livro: as irmãs Mozes aparecem em um ponto da narrativa, observamos cenas de injeções de substancias nos olhos bem como de vírus, uso de água fervente como tortura, vivisseções, alguns dos vários horrores causados pelo conhecido Anjo da Morte. Além das irmãs temos a presença de uma família anã, provavelmente inspirada na família Ovitz que viveu no campo de concentração.

O próprio Mengele é um ator central da trama. Famoso por ser um dos principais médicos nazistas, curiosamente ele possui uma ligação com o Brasil. Mengele fugiu para o Paraná depois de uma operação do Mossad em Buenos Aires que capturou Adolf Eichmann. Josef morreu em 1979, vítima de um afogamento em São Paulo.

A autora não nos poupa em nenhum momento da história. Pearl e Stasha perdem todo seu orgulho e humanidade nas mãos dos médicos de Auschwitz, personagens coadjuvantes também fazem parte dessa sinfonia macabra que não perdoa ninguém aos olhos do nazismo. A esperança é tomada a cada tortura, no final não sobra muito de ninguém. A escrita da autora é muito bela. Ela consegue dar uma voz diferente para cada uma das irmãs.

Percebemos isso ao longo dos capítulos que são intercalados, hora narrados por Pearl que é mais realista, hora narrados por Stasha que vive em um mundo próprio, repleto de magia e que se torna mais assustador a cada página. Outros personagens também se destacam como Bruna uma albina russa que protege as meninas da sua maneira, o Pai dos Gêmeos que trabalha no campo na seleção de gêmeos, Feliks um gêmeo que sofre nas mãos de Mengele e Peter, um menino que trabalha como garoto de recados no campo. Cada personagem tem sua cor e sua voz e o mais importante, tem seu crescimento dentro da trama.

Apesar de possuir uma história forte, considero Resistência um livro muitíssimo recomendado. Minhas expectativas não só foram atendidas como também superadas. Infelizmente não foi um livro que eu consegui ler rápido, senti a necessidade de digerir aos poucos o que acontecia e de também pesquisar mais sobre o assunto. Ler sobre pessoas sendo torturadas pode ser perturbador, mas encarar isso como um fato da nossa história é importante para evitar que isso ocorra no futuro.

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