Cinema 14dez • 2018

Extraordinário não chega perto de definir o que é Colette

Faz um bom tempo que eu não venho aqui falar de filmes com vocês. A verdade é que eu não tenho assistido nada que tenha me dado vontade de sentar na frente do notebook e compartilhar a minha experiência. Vocês também estão sentindo falta daqueles filmes que te deixam olhando para o teto e questionando várias coisas sobre a sua própria vida, ansiando por uma mudança? Bem, eu finalmente encontrei um filme que me deixou exatamente assim. Então se preparem porque hoje nós vamos falar sobre: Colette.

Colette é uma adaptação biográfica da vida de Sidonie Gabrielle Colette, uma escritora francesa da década de 20 responsável pela série “Claudine”, que fez muito sucesso na época – a tornou referência na literatura francesa. Eu não conhecia a vida e obra dessa autora até o filme cair no meu colo e, agora que eu a conheço e tenho uma ideia da importância de sua obra para a época, eu não podia fazer outra coisa se não compartilhar com vocês a experiência exuberante que é conhecer a vida dessa escritora.

Keira Knightley assume o papel de Colette, uma jovem do campo que vem a se casar com um autor famoso da época chamado Willy. Desde o começo do filme é perceptível que, apesar de inocente, Colette não é uma mulher comum. Ao entrar em contato com a vida agitada do marido, ela acaba se cercando de grandes escritores e pensadores franceses, o que só fez com que a sua personalidade forte e o seu talento para a palavras ficassem ainda mais evidentes ao longo da trama.

Logo no começo do enredo é revelado que Willy não é o autor das obras que publica, contratando diversos escritores fantasmas para colocar suas ideias no papel. É na necessidade do marido de publicar uma nova obra que Colette acaba rascunhando os primeiros capítulos de “Claudine à l’école”, originalmente publicado em 1900. A partir desde ponto do filme, Willy passa a publicar os escritos de Colette sob o seu nome, levando o crédito toda a fortuna e glória que o sucesso do livro gerou.

O filme aborda um período histórico muito importante na França. Era uma época onde a cultura estava se revolucionando, novos autores estavam surgindo e novas tendências estavam sendo criadas. E no centro disso tudo está a nossa protagonista, uma jovem do campo, sem muitas experiências que, assim como muitas mulheres da época, dependia do marido para tomar as melhores decisões da sua vida. Mais ao contrário de muitas mulheres, Colette resolveu quebrar as regras da sociedade e criar para si um mundo próprio.

Um ponto importante do filme é que desde de o começo percebemos que Colette está em um relacionamento abusivo. Sim, Willy nunca partiu para a violência física, mas quando ela se recusava a escrever mais, ele a deixava trancada no quarto até que ela entregasse as páginas que ele desejava. Os abusos não ficavam apenas na escrita. Willy ditava a rotina de Colette, suas roupas, seu corte de cabelo e as pessoas com quem ela se relacionava.

Mas o que realmente me tocou nesse filme foi a construção da personagem. A facilidade com que Colette colocava as palavras no papel e o seu talento para transformar suas memórias na próxima obsessão dos leitores franceses. Conforme o filme avança, os abusos do marido ficam mais evidentes e você começa a perceber que a personagem vê a escrita como uma tortura, perdendo completamente a sua paixão por um talento que lhe vem com tanta naturalidade.

Knightley tem uma interpretação autentica e eu não consigo imaginar nenhuma outra atriz que pudesse entregar as emoções da de Colette de uma forma tão verdadeira. Ela protagoniza o filme como se fosse a única personagem, todo os outros, mesmo os personagens que deveriam ter um certo destaque, acabam se tornando meros coadjuvantes nas cenas em                que ela está presente. Engraçado que, até hoje, eu não vi um filme em que a atuação de Knightley me decepcionou.

A forma como a protagonista cresceu ao longo da trama é realmente impressionante. Nós começamos com uma jovem do campo, ainda se adaptando a vida de casada e terminamos com uma jovem mulher, capaz de dar voz a muitas outras mulheres, dona do seu próprio mundo, da sua própria vontade. Não é apenas um enredo inspirador, mas também um enredo que traz muita realidade para o que realmente acontecia nos bastidores daquela época.

Wash Westmoreland entrega um enredo que não se prende ao melodrama, criticando a sociedade da época e ainda construindo aos poucos uma protagonista que, no ápice do enredo finalmente encontra sua verdadeira identidade e se liberta da opressão que a impede de ser quem realmente deseja. Colette é uma adaptação de tirar o fôlego, inspiradora e embora pouco provável de ser indicado ao Óscar, prova por A mais B que a indústria do cinema subestima os talentos da Keira Knightley.

Débora Costa ver todos os artigos
Escritora melancólica nas horas vagas, publicitária hiperativa no dia a dia. Viciada em Oasis, uma eterna apaixonada por Beatles. Leitora compulsiva de livros de steampunk. Futura autora de um livro sobre viagem no tempo.

Posts relacionados

Comente com o Facebook

Comente pelo WordPress

6 Comentários

  • Luana Martins
    31 dez 2018

    Oi, Débora
    Adorei esse filme, que homem exploradaor, manipulador, mau caráter para tratar a mulher dessa maneira.
    E ainda fazer ela escrever o livro e publicar como se fosse seu, um absurdo. Se antes a escrita era um prazer e virar tortura.
    Gostei que Colette cresceu muito durante a trama.
    Quero assistir esse filme.
    Beijos

  • sarah castro
    28 dez 2018

    Se não fosse o seu texto eu nunca ficaria sabendo desse filme, pois acho que não teve divulgação até mesmo em páginas literárias e coisas do tipo, de noticias e etc. Eu não conhecia essa autora e vou pesquisar mais sobre, obras e resenhas. Adicionei o filme no filmow para não esquecer de ver quando tiver oportunidade. Me convenceu com o texto.

  • Aline Bechi
    18 dez 2018

    Eu não conhecia o filme, mas parece ser realmente incrível pela sua resenha. Ele toca em assuntos muito importantes, e me despertou a curiosidade. Também senti uma tristeza por uma paixão da escritora acabar virando uma tortura.
    Eu não conheço a atriz que interpreta a protagonista, mas agora fiquei curiosa para vê-la atuando.

    Beijos.

  • Pamela Liu
    17 dez 2018

    Oi Débora.
    Não tinha ouvido falar sobre esse filme, então adorei a dica.
    Colete é uma mulher muito for, por ter passado por todas essas provações na época. A abuso psicológico é tão ruim quanto o físico. Deve ser horrível não conseguir fazer nada para mudar essa situação, ainda mais na época.
    Fiquei super curiosa para saber mais sobre sua vida!
    Beijos

  • Kleyse Oliveira
    16 dez 2018

    Ahhhh adoro filmes antigos ainda mais se é baseado em fatos veridicos. Já vou anotar para procurar para assistir.

  • Angela Cunha
    15 dez 2018

    Keira sem sombra de dúvidas, nasceu para interpretar mulheres fortes desta época tão grandiosa da nossa história!
    Estava lendo ontem uma crítica deste filme e adorei cada detalhe!
    E pelo que li acima, Colette não é apenas a história de uma mulher das letras,mas de uma mulher que teve que sobreviver a uma gama de dificuldades neste período da história!
    Preconceito, aceitação,o casamento e o se descobrir de verdade quem é a verdadeira Colette!
    Com toda a certeza do mundo, verei!!!
    Beijo

  • Siga o @laoliphantblogInstagram