26 maio, 2020

Relacionamento tóxico e cultura indígena, conheça o romance Com o corpo inteiro

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Romance de estreia de Lucila Mantovani, Com o corpo inteiro, publicado pela Editora Pólen, trata de temas como relacionamento tóxico, a cultura indígena e o reconhecimento do próprio corpo no mundo.

Para falar sobre essas questões, a autora — que começou com o projeto na pós-graduação do Instituto Vera Cruz e terminou após a aquisição do prêmio PROAC de criação literária — foca na relação entre a personagem-narradora e um homem chamado Paco, que leva a protagonista a revisitar a separação traumática dos seus pais, dentre outras memórias e reflexões, buscando por um novo relacionamento consigo mesma.

Para escrever a obra, Mantovani fez uma série de viagens para a Amazônia, onde se passa uma parte importante da narrativa, e vivenciou experiências que se refletem no livro, como o momento em que a personagem conhece Ina, uma mulher ancestral kaxinawá.

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Ela pinta a pele da protagonista usando jenipapo e carvão enquanto diz que aquela será a “união do seu lado de dentro com o de fora”. “Tirei a roupa e, ao me deitar, percebi que quando os europeus chegaram no Brasil erraram ao pensar que os índios estavam pelados. Me sentia vestida dos meus próprios contornos”.

Depois dessa e outras experiências dentro da floresta, o namoro entre a narradora e Paco míngua de vez e ela percebe estar num relacionamento abusivo.

A personagem de Lucila Mantovani, no entanto, não está sozinha. De acordo com a ONU Mulheres, três em cada cinco mulheres já sofreram violência em um relacionamento afetivo. A agressão não é sempre física, muitas vezes é psicológica, como é o caso tratado neste livro.

Ao longo da escrita e do contato com a natureza, a protagonista vai se desvencilhando de Paco e curando feridas do passado. Partindo de vivências pessoais e reflexões sociais, ela nos mostra similaridades entre sua intimidade e a própria história do país, que também é cheia de cisões e violências. “Eu não mais escondida n’outras tantas me proclamo em estado de Brasil”, narra.

O cuidado com o livro é perceptível não apenas na trama, que não se limita a demonizar a relação tóxica e o homem fugidio com quem convive a personagem, mas também no projeto gráfico. No decorrer da leitura, notamos que há diversas páginas em branco com o propósito de estimular o silêncio e o diálogo com o leitor.

Além disso, em dado momento, o livro vira de ponta cabeça, caminhando para as origens da protagonista. Já o marcador de páginas é feito de papel semente, sugerindo que cada um plante a própria experiência a partir de sua leitura.

Conheça a Autora:

Lucila Mantovani é escritora e formada em Economia pela USP. Cursou pós-graduação em Ficção no Instituto Vera Cruz e frequentou o CLIPE, curso livre de preparação para escritores da Casa das Rosas. Em 2016, foi contemplada pelo prêmio PROAC – Estímulo à Criação Literária, categoria Prosa, que resultou na obra Com o corpo inteiro, seu romance de estreia.

Lucila coordena a residência artística Kaaysá, em Boiçucanga (SP), que já recebeu autores como Julián Fuks, Bruno Zeni, Sheyla Smanioto, Ignácio de Loyola Brandão, Juliano Pessanha, entre outros. A autora também já participou das coletâneas Curva de rio (Giostri, 2017); Naquela terra, daquela vez (Quelônio, 2017) e Carne de carnaval (Patuá, 2018).

Trecho da Obra:

“Meu avô era prefeito e nós fomos a primeira família a se modificar em nossa pequena cidade do interior — um quase escândalo como o da inundação que aconteceu três décadas antes, ou o primeiro acidente automobilístico fatal, que também fez com que a cidade ficasse abalada por meses. Contam os mais velhos que no local do acidente nasceu um pé de uva originado das sementes que o falecido filho do prefeito carregava. Penso neste livro um pouco como esse pé de uva, uma espécie de legado. Ao admirar com a mesma força a coragem do meu pai em romper e o amor incondicional da minha mãe em querer preservar, percebi ser possível cortar sem dilacerar. Construir sem engessar. Foram eles que me ensinaram afinal, que ser inteiro é, dos atos, o mais revolucionário”.

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1 Comentário

  • Aurea
    junho 01, 2020

    Nossa, parece ser uma história bem rica em conteúdo e cultura. Falar sobre violência psicológica sem romantiza-la é muito importante na atualidade.