Clube Nacional 26out • 2018

O problema com leitores sensíveis não é o que você imagina

Os chamados “leitores sensíveis” tem sido um tópico de discussão entre leitores e autores desde que as primeiras discussões sobre representatividade começaram, principalmente quando se trata da comunidade de Young Adults. Enquanto alguns acreditam que essa nova categoria de leitores é uma solução para representações mais pensadas e autênticas da diversidade, outros acreditam que os leitores sensíveis são o pontapé inicial para a censura, fazendo com que os autores escrevam apenas personagens que se pareçam com eles próprios.

Mas o que são exatamente os leitores sensíveis? Bom, eles são um grupo de leitores, geralmente contratados, para identificar controvérsias na representatividade de um livro. É quase como um meio do autor ou da editora ter certeza de que aquele livro não está reforçando um estereótipo ou apostando em um personagem que reforça o racismo, a homofobia ou a misoginia de alguma forma. Mas, é claro, esse é só um exemplo muito vago do que estamos falando aqui, certo?

A verdade é que o debate sobre os leitores sensíveis chegou em um ponto bastante preocupante que parou de se limitar apenas às mídias sociais, e já se tornou uma questão a ser discutida por grandes jornais como o New York Times e Washington Post. Enquanto Alexandra Alter, do New York Times, defende que os leitores sensíveis são “especializados no domínio carregado e subjetivo de se proteger contra retratos potencialmente ofensivos de grupos minoritários”, Francine Prose, em sua polêmica anti-sensibilidade no Washington Post afirma que: “é um manuscrito para problemas e erros que vão desde irreflexão à ignorância ao racismo flagrante.”

E acreditem quanto eu digo que essa discussão não se limita aos jornais lá de fora. Quando eu estava fazendo a minha pesquisa, encontrei algumas publicações nacionais que nomeavam os leitores sensíveis como um “mimimi da ditadura do politicamente correto” e que deveria ser totalmente repudiada pelas editoras nacionais. E depois de ler e tentar entender ambos os lados da discussão, eu resolvi apresentar a minha opinião onde eu acredito que algumas pessoas ainda não tenham entendido que os leitores sensíveis talvez não sejam esse problema todo que eles acreditam.

Não me surpreende nem um pouco que algumas pessoas estejam levantando a bandeira da censura quando se trata dos leitores sensíveis. “Sensibilidade” é uma palavra um tanto quanto pesada nesse caso e, faz com que as pessoas de fora entendam esse grupo de leitores como algum tipo de guardiões dos livros, ou qualquer coisa do tipo, o que não é bem assim. Sabe quando um editor lê um original e sinaliza para o autor alguns pontos do enredo que podem ser melhoradas ou modificadas para que a história flua melhor? É um trabalho bastante similar, mas que garante que o seu livro não ofenda seus próprios leitores.

Eu conversei com alguns autores que tiveram suas obras analisadas por um grupo de leitores sensíveis e, honestamente? O feedback foi muito mais do que apenas “positivo”. Ao invés de terem seus livros expostos no altar do preconceito, os leitores sensíveis fizeram algumas sugestões de termos e tópicos que poderiam ser abordados dentro do enredo que deixariam o protagonista e outros personagens ainda mais realistas para quem estivesse lendo.

Os leitores sensíveis são capazes de perceber alguns detalhes que a maior parte das outras pessoas não consegue. É importante ter em mente que cada leitor traz uma visão nova para a mesma história e quando você consegue escrever o seu enredo trabalhando junto com essas visões diferentes, e não contra, você consegue entregar um trabalho muito mais completo e um enredo que definitivamente vai passar o que você estava esperando.

Querem um exemplo? Judith McNaught escreveu uma cena em Whitney, Meu Amor que dá a entender que a sua protagonista foi estuprada. Anos mais tarde, em uma entrevista, ela explica que reescreveu essa cena na edição de 50 anos do livro com a intenção de corrigir esse erro. Se naquela época o livro tivesse passado nas mãos de um leitor sensível, provavelmente a autora não teria tido a surpresa, ao reler o próprio livro, de que ela cometeu um erro e que precisava corrigi-lo.  Entendem onde eu quero chegar?

Estando no papel de leitores e escritores, nós temos o entendimento de que as palavras importam. Os nomes importam. Como nós nomeamos determinadas coisas, importam. E os leitores sensíveis são apenas uma pequena, mas importante, parte do processo de edição, fazendo com que o enredo se torne ainda mais claro para os leitores, mais profundo e muito mais perceptivos do que eles eram antes. Então vamos ignorar o peso da palavra “sensibilidade” e chamar essa categoria de leitores pelo o que eles realmente são: editores da diversidade, permitindo que eles tenham a mesma dignidade no trabalho deles que os editores de texto que nós já conhecemos.

Eu espero que um dia possamos viver um mundo literário onde os autores não se baseiem em estereótipos para construir os seus personagens. Um mundo onde os leitores sensíveis não serão mais necessários porque os autores saberão guiar suas histórias com segurança. Eu acredito que os leitores sensíveis são um grande passo dentro da literatura, porque eles garantem uma verdadeira igualdade para os leitores. Eu sei que o caminho é longo, mas é melhor um primeiro passo do que nada, não é mesmo?

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Débora Costa ver todos os artigos
Escritora melancólica nas horas vagas, publicitária hiperativa no dia a dia. Viciada em Oasis, uma eterna apaixonada por Beatles. Leitora compulsiva de livros de steampunk. Futura autora de um livro sobre viagem no tempo.

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8 Comentários

  • Patrini Viero
    30 out 2018

    Eu confesso que ainda não tinha me deparado com essa discussão nas minhas andanças por aí, mas acho que ela não tem muita razão de ser. Trabalhos de edições e de leituras para aprimoramento dos livros sempre existiram e são inclusive indispensáveis dentro do processo de publicação de um título. Acho que o que esses leitores fazem é praticamente encaixado com perfeição dentro da categoria edição, dando aos autores não apenas a capacidade de aproximar o seu livro o máximo possível da realidade do seu leitor, mas também possibilitando que nós, como leitores, nos sintamos tão próximos quanto pode ser da história e das personagens que estamos conhecendo. Acredito que seja sim um problema de designação, mas acho que as pessoas precisam passar por cima disso e de todos os estereótipos já criados e entender que essa categoria só traz vantagens ao universo literário que a gente tanto ama.

  • sarah castro
    30 out 2018

    Eu já tinha escutado falar sobre consultores, mas sempre para pessoas que escrevem contos ou pequenos textos independentes na internet. Fico surpresa por isso ser maior do que eu esperava e feliz, pois ao meu ver isso é algo importante, pois muitas vezes vemos escritores querendo passar uma mensagem, porém por nunca ter passado por aquilo, dependendo do tópicos, eles ficam com receio de escrever e esse toque sobre “isso pode magoar, isso pode ajudar e isso pode melhorar” é bom. Como você disse, isso pode ajudar a quebrar essa linha de estereótipos e chegar em um ponto aonde os autores conseguirão guiar sua escrita da forma deles e de uma forma que seja boa para todos.

  • Lily Viana
    30 out 2018

    Olá!
    Adorei bastante esse assunto, na realidade nem sabia muito sobre esses “Leitores Sensiveis”, mas basicamente e uma forma de avaliar os livros dos autores antes de ser publicado. Não sei muito bem que opinião forma sobre isso mas me parece ser algo bom e ao mesmo tempo chato.

    Meu blog:
    Tempos Literários

  • Luana Martins
    30 out 2018

    Oi, Débora
    Não conhecia o leitor sensível, sabia que alguns livros antes de ser publicado algumas pessoas liam e davam opinião para o autor. Mas o nome é esquisito e chamativo ao mesmo tempo.
    Tenho certeza que o trabalho do leitor sensível é muito importante, para os escritores é chato ter seu livro sendo analisado, mas ao mesmo tempo a melhor maneira de mudar para mais ou menos certos detalhes do enredo e assim atrair ainda mais o público alvo.
    Beijos

  • Alice Pereira
    29 out 2018

    Nossa, o assunto é novo para mim. Ainda não havia lido sobre. Sinceramente, acho válido um olhar vindo por outro ângulo. A forma como o autor vê seu livro nunca será a mesma do ponto de vista de um leitor, como você citou o caso da Judith.

  • Pamela Liu
    29 out 2018

    Oi Débora.
    Adorei o tema discutido.
    Acho super válido o ponto de vista dos leitores sensíveis. Deve ser respeitado e, se o autor for inteligente, pode ser tirado um bom proveito para melhorar certa característica de um personagem, situação ou até escrita. São certas nuances que podem diminuir a interpretação errônea ou dúbia de certa situação.
    Beijos

  • Angela Cunha
    27 out 2018

    Vou confessar que nunca havia lido nada a respeito deste termo e a princípio, achei tão besta. Mas aí, lendo o post fui percebendo que só o nome está errado(não gostei)rs mas que a função destes leitores é sim, extremamente importante a quem se abre a isso.
    Muitos autores devem torcer o nariz, eu acho que eu mesma se escrevesse livros, não ia curtir nenhum pouco. O tal preconceito literário me arrepia a alma e ter minhas letras sendo censuradas não ia ser bom.
    Mas acredito que seja de cada um, de cada pessoa, autor ou autora, sentir a necessidade desta avaliação!
    Show de post!
    Beijo

  • Ludyanne Carvalho
    26 out 2018

    É a primeira vez que vejo essa palavra no meio literário; no início fiquei um pouco confusa, mas obrigada por esclarecer.
    Pelo que entendi é uma maneira de filtrar, né?
    Um trabalho parecido com os betas, acho eu.
    Acho que isso é importante, passar essa realidade é essencial e se há uma maneira de fazer isso, por que não?
    Recentemente li um YA que precisava de um leitor sensível; por mais que a história era sobre diferenças e quebrar padrões, tinham algumas falas e cenas que poderiam ser ofensivas.
    Gostei desse post.

    Beijos

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