Clube Nacional 12mar • 2018

Guss de Lucca conta sua experiência com a autopublicação

Dando continuidade ao nosso projeto do Clube Nacional, eu achei que seria interessante trazer para vocês o ponto de vista de alguns autores nacionais que passaram pela publicação editorial, seja esta via contrato com um selo, publicação comercial ou mesmo a tão temida publicação independente.

Como blogueira, eu achei a abordagem do Guss simplesmente sensacional. Ele fez um investimento muito bom na qualidade do seu livro, criando um material de divulgação muito assertivo e sabendo exatamente quais blogs e canais de divulgação procurar para fazer com que o seu livro chegue ao seu público leitor.

A convite do La Oliphant, eu pedi que o Guss escrevesse um post colaborativo para o Clube Nacional, contando como foi a sua experiência como autor independente e como ele se organizou para conseguir colocar em prática todas as suas ideias.

Relato de um autor iniciante buscando o caminho das pedras.

Conheci há pouco o La Oliphant, site criado pela publicitária Débora Costa. E só porque ela escreveu um post “tapa na cara” aos membros da Sociedade Secreta dos Escritores Vivos, comunidade do Facebook que congrega autores iniciantes e da qual fazemos parte.

De uma forma dolorosa, gostei do que li e resolvi escrever diretamente a ela contando minha experiência como autor de primeira viagem. E durante nossa troca de e-mails a Débora pediu que eu relatasse a fase na qual minha jornada de escritor autopublicado se encontra. E cá estou.

Aos 38 anos vivo um momento curioso. Após escrever dois livros recusados por editoras, fui convencido por amigos próximos a fazer um financiamento coletivo para conseguir, finalmente, publicar uma obra. E foi o que fiz em agosto de 2016.

Das oito ideias que tinha para escrever, optei pela única de fantasia. Havia uma série de motivos para tanto: o gênero estava em alta, a proposta fugia de clichês e, acima de tudo, era uma forma de entrar em contato com o meu passado nerd (sim, na minha época não tinha essa coisa de geek) e agradecer pelos anos de alegria que aquelas histórias me proporcionaram.

Como gosto de rabiscar e arranho de Photoshop, fiz eu mesmo todo o trabalho gráfico do projeto – incluindo o logo e uma possível capa. Já para as ilustrações dos três personagens principais tive a sorte de contar com o talento do amigo Marcio Alessandri, artista plástico da Cozinha da Pintura e parte importante para o sucesso do financiamento.

Com tudo pronto, o que inclui a gravação de vídeos falando da história, comecei a enviar e-mails para parentes, amigos, amigos de amigos e pessoas lá do passado. O Catarse deixa claro que uma das chaves para o sucesso é garantir que pouco mais da metade do orçamento virá de pessoas que você conhece – pois pouca gente aposta num ilustre desconhecido. E deu certo!

Em dois meses eu tinha o dinheiro, mas nada de livro. Alguns me chamavam de louco, porém, enxerguei aquilo como um estímulo para produzi-lo. E, ingenuamente, fui logo a uma gráfica rodar as recompensas prometidas (blocos de notas, imãs de geladeira, marcadores de página e bonés) – o que meses depois se mostrou um grande equívoco.

Enquanto escrevia o livro, resolvi pesquisar mais sobre como as editoras tratam suas obras. Para isso, me matriculei num curso de dois meses da Universidade do Livro, da Fundação Editora Unesp. Lá, aprendi bastante sobre os pormenores do mercado editorial e entendi que não bastava escrever, diagramar e mandar para a gráfica. Haviam outras etapas importantes que resolvi adotar.

A primeira delas foi contratar uma preparadora de texto. E qual não foi a minha surpresa ao descobrir que havia uma no meu círculo de amizades? Com toda a paciência do mundo, a Paula Baltazar me explicou que seu trabalho consistia em “revisar com interferências mais profundas, padronizações, questionamentos e pesquisas a respeito de discrepâncias no conteúdo, determinação de padrões, adequações da sintaxe e alterações que favoreçam a coesão e a coerência” – palavras dela.

Ciente de que estava em boas mãos, enviei a ela o manuscrito e, semanas depois, recebi-o cheio de anotações e apontamentos. A primeira sensação foi a de que eu não sabia escrever. Era péssimo mesmo. Mas logo fui tranquilizado e reli o livro, avaliando tudo o que foi comentado pela Paula. E preciso dizer que a história melhorou muito graças a isso.

Após mais algumas trocas, em que o número de rabiscos dela diminuiu (para o bem da minha autoestima!), mandei o texto para a diagramação, que ficou nas mãos da Marina Avila. Foi ela também quem fez a capa do livro – e aí volto a citar a bobagem que foi rodar os brindes com o logo que eu, jornalista, havia criado.

Eu tinha enviado a ela um projeto de capa para utilizar como base. Minha ideia era que fosse algo minimalista, diferente das imagens que normalmente estampam livros de fantasia. E ela fez mágica! Criou uma capa sensacional e, junto da mesma, um logo infinitamente superior ao que eu tinha feito. Mas e agora? Todo material de apoio já estava impresso com o logo porcaria. O que fazer?

Nessas horas o importante é reconhecer a burrada e desapegar. E foi o que aconteceu.

Bom, com o livro diagramado, entrou em cena a revisora de texto Fernanda Simões Lopes. Indicada pela Paula, ela foi responsável pela leitura de prova e lapidou o que restava do livro. Após duas trocas e algumas alterações, “O Monstro” finalmente estava pronto para a gráfica, certo? Só que não. Eu ainda tinha um pedido a fazer.

Após passar por meses em contato com essas profissionais, refleti sobre a segunda orelha dos livros, onde habitualmente vemos uma foto do autor e pensamos “Uau, esse cara é um gênio por fazer sozinho esse belo trabalho!”. Por isso, fiz questão de creditar, com nome e foto, todos que colaboraram para que “O Monstro” se tornasse realidade.

Com o livro pronto marquei o lançamento na Biblioteca Municipal Viriato Corrêa, em São Paulo, cujo foco são obras de literatura fantástica. Contei com a presença de amigos e parentes, mas só. Apenas um rapaz que eu não conhecia e que havia comprado “O Monstro” pelo Catarse apareceu para retirá-lo.

Sem experiência em divulgação, comecei a correr atrás de eventos onde pudesse emplacar meu trabalho. Participei de dois deles: o 18º Campinas Anime Fest e o 21º Pira Anime Fest. Infelizmente as vendas foram baixas, mas me diverti bastante conversando sobre a história com quem parava no meu espaço do artist alley.

Recentemente subi a versão digital de “O Monstro” na Amazon e tenho divulgado quando posso nas redes sociais – ambiente no qual sou novato, devo admitir. E também venho avaliando a possibilidade de contratar uma assessoria de imprensa com foco em novos autores.

Às vezes me perguntam “Mas por que não buscar uma editora?”. Honestamente, não acho que esse é o momento e também não enxergo como algo indispensável para quem queira firmar uma carreira de escritor. Pela minha experiência de autor iniciante autopublicado posso afirmar que é um caminho árduo, que demanda investimento e muito tempo. Mas que, até agora, me trouxe aprendizado e alegria.

Atualmente me preparo para começar a escrever o próximo livro, o romance de vingança “Cor-de-Rosa”. Quando conto para algumas pessoas, há quem pergunte “Mas mesmo com tantos obstáculos, por que continuar?”. A resposta, no meu caso, é simples.

O ato de escrever, para mim, é um misto de vocação com assombração. A primeira por me acompanhar desde a infância, quando tudo que eu queria fazer era criar histórias para brincar com meus amigos, passando pela adolescência, época em que descobri os jogos de RPG e gastava dias rabiscando universos e aventuras.

Já a segunda por ter que conviver com ideias, tramas e personagens que surgem sem convite e me atormentam diariamente, só indo embora depois que são colocadas no papel. Não existe outra atividade que me deixe tão feliz em realizar, tão completo e, ao mesmo tempo, certo de que estou fazendo o que preciso fazer.

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Débora Costa ver todos os artigos
Escritora melancólica nas horas vagas, publicitária hiperativa no dia a dia. Viciada em Oasis, uma eterna apaixonada por Beatles. Leitora compulsiva de livros de steampunk. Futura autora de um livro sobre viagem no tempo.

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11 Comentários

  • […] post de número 09 corresponde ao post “Guss de Lucca conta sua experiência com a autopublicação“. Nesta publicação nós tivemos 11 comentários sendo 1 via Facebook e 10 via a caixa de […]

  • Ana I. J. Mercury
    31 mar 2018

    Adorei a postagem!
    Foi muito bom entender mais todo o trabalho de produção de um livro, ainda mais um independente.
    Nossa, mas da muitooooo trabalho e deve gastar muito, né?!
    Pra gente que compra, um livro muitas vezes é caro pois não temos tanto dindim assim, mas reconheço que gasta demais para publicá-lo.
    bjs

  • Ana Carolina Venceslau Dos Santos
    31 mar 2018

    Adorei o relato do autor e eu confesso que eu fiquei bem inspirada na história dele desejo a ele todo sucesso e eu fiquei bem interessado em ver esse novo suspense dele chamado cor-de-rosa

  • […] que já havia publicado uma crítica do livro “O Monstro”, escrevi um relato da minha experiência como autor autopublicado. Ficou bem […]

  • suzana cariri
    21 mar 2018

    Oi!
    Gostei muito desse post, já estou indicando para uma amiga minha que quer publicar seu livro também, nossos realmente da um trabalhão bem que os autores falam que publicar um livro não é fácil, mas achei o Guss muito sábio nessa jornada, principalmente por busca prepara e ajuda nesse caminho mesmo que demorasse um pouquinho mais para lançar seu livro !!
    Muito sucesso !!

  • Achei o máximo a ideia de contar um pouco da experiência do autor com a autopublicação. É algo com o qual não temos contato e que acaba de alguma forma agregando muito, seja na valorização ainda maior do trabalho do escritor, seja para quem, assim como eu, deseja um dia publicar uma história. Hoje em dia, acho que o caminho da autopublicação tem se tornado cada vez mais viável e uma forma propícia para aqueles que sonham em se tornar escritores. Acho válidas todas as plataformas de financiamento coletivo, além do trabalho com a história, que inclui revisão, diagramação e reescrita. Adorei conhecer um pouco mais do trabalho do autor a partir do seu próprio relato!

  • Lily Viana
    15 mar 2018

    Olá!
    Uau!
    Às vezes as editoras não dão oportunidade a autores novos, e creio que deveria porque assim nos leitores possamos conhecer os trabalhos deles. Adorei muito essa sua jornada e de como você lutou bastante para ter seu livro em publico. Parabéns!

    Meu blog:
    Tempos Literários

  • Catarine Heiter
    13 mar 2018

    Depois do post sobre o livro, que li por aqui, o título já foi parar na estante do skoob. Agora então, animei ainda mais para lê-lo o quanto antes!
    Adorei o post! Muito legal estar conhecer mais de perto este tipo de experiência.

  • Raquel Rodrigues
    13 mar 2018

    Gostei muito de saber como foi toodo o processo para a criação do livro, e achei mt legal que ele fez a parte q fala do autor com todoas as pessoas q o ajudaram a fazer desse sonho a realidade,e fiquei mt feliz por ele n ter desistido apesar das dificuldades, pois parece ser um livro muito bom, cujo já vi muuitos elogios !!

  • Pamela Liu
    12 mar 2018

    Oi Débora.
    Adorei saber mais sobre os percalços pelo qual o autor passou. É realmente muito árduo para os autores nacionais publicarem e divulgarem as suas obras.
    Fico feliz em saber que apesar disso tudo o autor não desistiu de publicar um segundo livro e continuar fazer aquilo que dá prazer a ele.
    Beijos

  • Daiane Araújo
    12 mar 2018

    Oi, Débora.

    Com certeza tanto para o Guss, quanto para outros autores, não é um caminho fácil investir em seu livro de forma independente.

    Mas, o importante é não desacreditar em seu trabalho e continuar fazendo o que tanto gosta.

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