Clube Nacional 16out • 2017

Precisamos falar de preço (de livro)

Preço do livro: um assunto velho, mas que sempre precisa ser discutido, não é mesmo? Buscando por novidades literárias para vocês, acabei me deparando com um texto muito interessante de Carlos Andreazza, editor-executivo de ficção nacional e não-ficção da Record, onde o mesmo dá sua opinião direta sobre a questão do valor monetário dos livros no Brasil.

Resolvi trazer a discussão para o blog e ouvir a opinião dos leitores. Vocês acham que o preço que pagamos pelos livros hoje, é um preço justo? Ou vocês acreditam que o valor monetários das obras literárias deveria ser muito menor do que o que pagamos hoje?

Antes de dar sua opinião, confira abaixo o texto de Carlos Andreazza:

Nos últimos cinco anos, tudo no Brasil ficou mais caro. O preço do livro, não. Ao contrário: todos os custos aumentando, os insumos inflacionados, e, no entanto, as editoras ainda baixando os preços.

Nem me aprofundarei na questão conceitual acerca de valor. O editor também é um educador. Insisto nisso. Tem, pois, a obrigação de tornar pública, de disseminar a complexa cadeia produtiva que resulta no livro. Diversamente do que manifestam livros a vinte reais ou mesmo menos (e ainda antes dos eventuais descontos dos livreiros), o nosso produto não é fruto de milagre de repente materializado nas livrarias.

Paga-se sessenta, setenta reais por muita porcaria efêmera neste país, e nós entretanto com medo de cobrar quarenta, cinquenta reais por algo de caráter permanente. Por quê? Não tenho a resposta, mas seu mais mínimo esboço passará obrigatoriamente pela constatação de que ou se compreende mal o ambiente editorial brasileiro ou pouco se preocupa com sua saúde.

Livros desvalorizados não formam consumidores, muito menos – é mentira – popularizam o livro. Em uma palavra: deformam. Outra: viciam. E ainda: vulgarizam. Aí vem a Bienal e então virão as variantes da pergunta: “Tem livro de dez reais?” Não é a procura pelo livro, por aquele livro desejado, mas pelo preço – com o qual não se paga hoje nem picolé.

Que um ou outro título seja agressivamente barato, isso é estratégia comercial legítima. É preciso estudar e compreender a natureza do que se publica e a que público se destina. Mas que a baratização do preço de capa do livro seja política, prática indiscriminada, independentemente do caráter da obra editada, isso significa – ainda que inconscientemente – investir contra o processo editorial que deságua em produtos cada vez melhores e mais bonitos.

Faz pouco, a título de exemplo, publicamos, do historiador Antony Beevor, o já clássico A segunda guerra mundial, obra cuja pretensão é simplesmente a de esgotar o assunto, um volume de 951 páginas, com encarte de fotos, editado e produzido ao longo de pelo menos dois anos, com tradução de excelência, revisões técnicas detalhadas, inúmeros tratamentos de texto, e isso sem falar no adiantamento de direitos autorais, em dólares, pago ao autor – um livro pelo qual cobramos, sem dúvida ou remorso, justíssimos 98 reais.

Retorno, então, ao tema da educação; do papel pedagógico do editor. Mais do que abrigar todo esse encadeamento de valor objetivo, o preço do livro precisa representar – evidenciar – a importância, a complexidade, a grandeza da empreitada ali concretizada. O indivíduo que lê, que consome livros, precisa ser informado – e preço informa – do conjunto valioso de ofícios que se consolida naquele produto. Porque esse mesmo sujeito sairá da livraria para comprar – por cem reais, e sem reclamar, consciente de que paga o quanto leva – um bom vinho francês. Há toda uma tradição a fundamentar isso, a embasar essa percepção. Precisamos criar a nossa.

Precisamos também pensar no livreiro. A cada ano, afinal, sobem-lhe o aluguel, os salários, a conta de luz. Para que seu negócio sobreviva, não há mágica possível: ou o preço do livro é corrigido ou ele terá de aumentar o número de exemplares vendidos. Como a base consumidora de livros não cresce, as livrarias fecham. Quantas outras terão de quebrar até que se considere e encontre um equilíbrio entre preço de venda e custo da operação?

Preço fixo não é a solução. Preço é instrumento do livre mercado. Sou a favor de que livrarias deem desconto. E quero – desejo mesmo – que a cultura competitiva no mercado editorial se desenvolva livre de artificialismo, tendo por origem uma base real: um preço de capa consistente com todo o valor agregado na cadeia de que o livro é produto final. Simples assim.

Há nisso tudo – na resistência a que se aumente o preço de capa do livro – um grande engano sobre o que seja uma editora, francamente compreendida como a exploradora, como aquela que espolia autores, livreiros etc., quando, na verdade, e cada vez mais, é a única (repito: a única) a correr riscos em todo o processo, e isso tendo margens de lucro progressivamente menores, para o que muito contribui esse auto-boicote, essa deturpação que impõe, ainda pior que o congelamento, o rebaixamento de preços. Não é aceitável que armemos a forca contra nossos próprios pescoços.

Este conteúdo foi originalmente publicado no blog oficial da Editora Record. O La Oliphant é responsável apenas pela reprodução do mesmo.

Débora Costa ver todos os artigos
Escritora melancólica nas horas vagas, publicitária hiperativa no dia a dia. Viciada em Oasis, uma eterna apaixonada por Beatles. Leitora compulsiva de livros de steampunk. Futura autora de um livro sobre viagem no tempo.

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2 Comentários

  • Bianca
    21 jan 2018

    Adorei o artigo e o seu blog, cujo conteúdo é impecável.

    Sobre o texto, infelizmente concordo, pois preciso lidar com o medo de cobrar o valor do meu livro (R$38,00 + R$6,00 de frete) e escutar reclamações de pessoas que dizem amar ler o que escrevo. Engraçado que, mesmo criando promoções e o vendendo pelo preço de R$38,00 com o frete incluso, para pessoas que pagam por efemeridade muito mais cara é um absurdo. A verdade é que ninguém o quer, melhor dizer isso, não é?

    Honestamente não considero a minha obra cara, pois, como leitora, compraria e compreendo que, para um autor independente, é bastante difícil comercializar um livro por menos de 35 reais. Mas pagar 50 reais por um livro de autor famoso todos pagam. Você se magoa, contudo, não pode dizer isso, porquanto “cada um gasta dinheiro com o que desejar”. Triste realidade.

  • Mary Fachim
    21 nov 2017

    Concordo em termos com o editor, essencialmente pelo ponto de vista do negócio: ele só funciona se pagar as contas E der lucro.
    Agora, como autora independente, posso afirmar o seguinte: escrever livros é profissão de muita gente, e como todo trabalho, DÁ TRABALHO criar, editar, promover…Requer disciplina, comprometimento, gera frustração, ansiedade, medo de não ter grana pra pagar as contas no fim do mês…enfim, desafios semelhantes aos de um profissional de qualquer outra área.
    Também concordo quando os preços refletem o valor agregado da obra.
    Há escritores que possuem pouca formação educacional, cultural, bem como livros que possuem menos conteúdo ou uma edição empobrecida. Assim como há obras riquíssimas, cujos autores levaram anos pesquisando, fotografando e compilando material para a obra.
    Cada caso é um caso e deve ser avaliado em sua singularidade.
    Quanto às famílias com menor poder aquisitivo, assim como as de alto poder aquisitivo, a questão fundamental é a mesma: chama-se ESCOLHA.
    O nosso país não possui uma cultura literária forte. Tampouco é estimulada na mídia.
    Somos majoritariamente o país do futebol, das novelas, do carnaval, dentre outros gostos populares. A literatura, como entretenimento, passa longe.
    Livro, em uma nação na qual as taxas de analfabetismo são altas, é acessório pouco útil.
    Isso quando a leitura não é classificada como algo chato e enfadonho, até mesmo por alunos de escolas particulares A+.
    Portanto, não se trata apenas do livro “ser caro”, mas primordialmente de preferência pessoal.
    Porque quem tem 30 reais sempre pode escolher ir ao cinema ou comprar um livro.
    Tem gente de classe alta que sempre favorecerá o cinema; tem gente de classe baixa que sempre favorecerá a leitura.

  • O Usuário laoliphantblog não existe ou é uma conta privada.