Entrevistas 17jun • 2018

Amy Zhang é muito parecida com você!

Então a editora Rocco resolveu me apresentar aos livros da Amy Zhang e, se eu já não fosse completamente apaixonada por Young Adults, eu provavelmente teria me apaixonado por causa dos livros dela. Além de ter uma escrita maravilhosa, Amy trata de assuntos importantes nos seus livros, fazendo com que os seus leitores percebam que seus sentimentos estão sendo retratados da melhor maneira possível, através daqueles personagens.

E assim, mais uma vez, eu trouxe para vocês uma entrevista traduzia, mas por um motivo um pouco diferente. Nesta conversa com o blog Gist, Zhang fala muito sobre a importância da literatura Young Adult para adolescentes e porque não deveríamos diminuí-la por conta de seu público. Os pontos levantados pela autora são importante para reabrir o diálogo sobre os gêneros literários e como é importante acabarmos com esse preconceito.

Confira a entrevista completa:

Se Amy Zhang tivesse sido uma adolescente comum, essa tarde de terça-feira seria passada em seu quarto, com ela fazendo tudo que uma estudante de sua idade faria: organizando suas leituras, estudando para os exames e revisando suas lições. Não, você sabe, se preparando para horas de autógrafos e encontrando dezenas de leitores em um país a meio mundo de distância dos Estados Unidos. “Eu nunca esperei ser uma escritora”, Amy, agora com 19 anos e atualmente nas Filipinas para uma série de eventos de autógrafos ao lado da colega Andrea Portes, me conta durante nossa conversa no Writers ‘Bar em Raffles Makati.

“Minha mãe e meu pai estão profundamente ligados aos campos da matemática e da ciência, respectivamente, então crescendo, foi meio que colocar na minha cabeça que eu seria uma engenheira ou talvez trabalhasse em finanças”, diz Amy, acrescentando que a carreira mais liberal que ela chegou a considerar foi Direito. “O mais liberal que eu já consegui foi ser advogada. Então, não, eu nunca pensei que seria escritora até que comecei a escrever e mesmo depois de ter assinado com uma agente literária, o pensamento que continuava surgindo na minha cabeça era que eu iria trabalhar em finanças e apenas escrever livros como hobby.”, diz Amy.

Nascida na China e atualmente morando em Nova York, Amy escreveu dois romances: sua estreia em 2014, Falling Into Place, que começou como uma tarefa de inglês no ensino médio, e This Is Where The World Ends, publicado pela primeira vez este ano. Ambos os livros, revela uma rápida pesquisa no goodreads, foram aclamados pela crítica, com os leitores rapidamente apontam – e passionalmente, se me é permitido dizer – que as palavras dela ressoam com eles.

“Eu acho que o objetivo de cada livro é evocar reações de um leitor, ou fazer um leitor dizer: ‘Eu me reconheço’ ou ‘eu não estou sozinho’. E para mim, uma parte da razão pela qual meus livros são obtendo essas reações dos meus leitores apenas decorre do fato de que esta era a minha vida. Eu estava escrevendo no ensino médio e esses eram os problemas que meus amigos e eu estávamos tendo”, diz Amy, acrescentando: “Acho mais fácil ressoar com um público do qual você faz parte.”

Mas e os que odeiam a literatura para jovens adultos?

“Eu acho que parte da razão pela qual a literatura para jovens adultos é tão disparatada e não realizada a um nível mais alto de apreciação como, por exemplo, a Paris Review, é porque sua audiência predominante é adolescente”, diz Amy, acrescentando que não é apenas frustrante, mas também é errado: “É incrivelmente frustrante para mim dizer às meninas que as coisas de que elas gostam não são importantes ou valiosas, que a opinião delas é errada, e isso é apenas prejudicial e terrível”.

O romance de estreia de Amy, Falling Into Place, que gira em torno do suicídio de uma menina, bem como seu segundo trabalho literário, que centra-se em abuso e manipulação, ancora-se bem na área cinzenta literária onde Young Adult e a Ficção Contemporânea passam a fazer parte um do outro, com os livros usando a linguagem do ensino médio para se comunicar e efetivamente contextualizar ideias sobre os aspectos mais sombrios da vida, como suicídio, intimidação, abuso, dependência e gravidez na adolescência.

Inspirando-se nos gostos de Markus Zusak, Margaret Atwood e Laurie Halse Anderson – todos os quais Amy descreve como “os autores que me fazem querer escrever” – Amy trabalhou livros que são tão delicados e tão lindamente escritos quanto emocionalmente dolorosos, crus, e brutais, cimentando efetivamente o status de seus títulos como verdadeiras respirações de ar fresco em um gênero há muito saturado por narrativas excessivamente doces e cobertas de açúcar.

“Desde o começo, Falling Into Place sempre seria sobre uma garota que cometeu suicídio. Este é o lugar onde o mundo termina, por outro lado, surgiu porque eu estava apenas mais interessada no relacionamento entre duas pessoas e a história simplesmente cresceu ao redor disso.”, diz Amy para mim no bar do hotel. Ela continua: “Eu não pretendi deixar todas essas coisas horríveis acontecerem com esses personagens – eu sabia que queria explorar temas como estupro e agressão sexual – mas ficou sombrio muito mais rápido do que eu esperava.”

Ao contrário do que os outros estão dizendo, não foi uma decisão consciente, trazes todas essas coisas sombrias e pesadas para os seus romances, diz Amy, notando que, ao contrário, ela via apenas como um meio pelo qual ela poderia criar uma reflexão literária de realidade: “As coisas ruins acontecendo com meus personagens, não foram realmente uma decisão consciente; eram apenas as coisas com as quais eu estava frustrada naquela época, as realidades com as quais eu não estava feliz e me sentia impotente para mudar, e escrever era apenas uma maneira de lidar com isso. ”

Para que você não tenha a ideia errada, Amy diz que nem tudo é ruim: “Sim, coisas horríveis acontecem, mas também, grandes coisas acontecem e há muitas pessoas maravilhosas no mundo para todas as terríveis”. A ficção para jovens adultos, em sua maior parte, tem sido o verdadeiro playground de jovens garotos brancos e heterossexuais e dos homens que escreveram eles para o mundo. Não mais.

“O aumento da diversidade na literatura agora é incrível”, diz Amy, cujos livros empregam narrativas contadas por personagens excêntricos, com nuances e multicamadas, acrescentando que ela está impressionada com os títulos Young Adult e seu impressionante pedaço de leads composto de personagens LGBTQIA + e pessoas de cor – muito distante das origens conservadoras do branco do gênero.

“O objetivo dos livros é nos fazer sentir que não estamos sozinhos com qualquer coisa horrível, angustiante, hormonal que estamos sentindo e é tão importante olhar para um livro e ser como ‘Oh, eu não sou a única que está se sentindo assim’ e eu acho injusto que por tanto tempo a única coisa disponível foram essas narrativas masculinas heteronormativas brancas”, diz Amy, acrescentando: “Sua adolescência é uma parte importante e impactante de sua vida. A vida e a literatura que você lê são, da mesma forma, também importantes. Eu estou tão feliz que esta mudança, esta revolução, está acontecendo.”

Já considerada uma superestrela em literatura para jovens adultos – como comprovado por fãs gritando nas sessões de autógrafos em Manila e Cebu, bem como a interação que ela recebe nas mídias sociais – Amy tem conselhos para aspirantes a escritores que ainda têm que escrever suas próprias histórias: apenas faça isso – e não desista.

“Muitas pessoas vão dizer que você não pode. Muitas pessoas vão dizer “Não” Mas leva apenas um sim.”, diz Amy. “Apenas comece a escrever e continue escrevendo. Ninguém nasceu um bom escritor; Ninguém é naturalmente talentoso em escrever. Você se torna um escritor melhor escrevendo. Você continua escrevendo, continua lendo e continua.” (…) “Leia o máximo que você puder. Leia fora do seu gênero, sua categoria. Leia algo que você nunca pensou que gostaria. Leia coisas que você nunca leu antes ou exponha-se a ideias e estilos que você não teria visto de outra forma.”

Verdade seja dita, Amy percorreu um longo caminho desde a primeira vez que entregou a fatídica tarefa de inglês, há dois anos. Então, pergunto, o que vem a seguir para Amy Zhang?

“Eu adoraria ser lembrada como “aquela garota cujo livro tínhamos que ler na aula de inglês”, diz Amy, rindo. “Não, sério, eu gostaria que meus livros fossem ensinados em uma sala de aula do ensino médio, quero dizer, sempre foi um sonho meu fazer parte de um currículo. Lembro-me de ler o Speak de Laurie Halse Anderson no 9º ano e me lembrando da importância das discussões que tivemos sobre esse livro, como isso nos fez pensar, acho que isso é muito importante”.

“E eu acho que é a melhor coisa de ser escritora, é a sensação de saber que qualquer beleza, profundidade e clareza que você costumava encontrar em livros, você pode agora fornecer a outra pessoa. É incrível poder trazer algo positivo para a vida de outra pessoa”, diz Amy enquanto nossa conversa chega ao fim.

Se Amy Zhang tivesse sido uma adolescente comum, essa tarde de terça-feira seria passada em seu quarto, com ela fazendo tudo que uma estudante de sua idade faria: organizando suas leituras, estudando para os exames e revisando suas lições. Não, você sabe, se preparando para horas de autógrafos e encontrando dezenas de leitores em um país a meio mundo de distância dos Estados Unidos.

Mas, novamente, Amy Zhang não é uma adolescente comum. E eu não posso esperar para ver mais dela.

Débora Costa ver todos os artigos
Escritora melancólica nas horas vagas, publicitária hiperativa no dia a dia. Viciada em Oasis, uma eterna apaixonada por Beatles. Leitora compulsiva de livros de steampunk. Futura autora de um livro sobre viagem no tempo.

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12 Comentários

  • suzana cariri
    30 jun 2018

    Oi!
    Gostei muito da entrevista com a Amy Zhang, conheci ela aqui no blog e fiquei logo interessada em seus livros e adorei poder conhecer a pessoas atras dos livros, ela é mesmo bem jovem para uma escrita que pareceu muito madura, gostei muito da entrevista poder conhecer a autora e principalmente suas opiniões !!

  • Ana Carolina Venceslau Dos Santos
    30 jun 2018

    Adorei conhecer mais da autora e fiquei muito impressionada com opinião dela sobre as pessoas que odeiam o jovem adulto se ele que é um dos gêneros mais interessantes e que podem abordar mais conteúdo e a Jari os dois livros da autora e ela e simplesmente muito fofa

  • Não dá nem pra acreditar que ela tem só 19 anos! Acho indispensável esse gênero literário exatamente por conta daquilo que ela própria citou em sua entrevista: a identificação dos jovens com esses personagens. Acredito que essa identificação seja uma das saídas para que os leitores reconheçam seus problemas e percebam que eles tem solução, de alguma maneira. Aliás, acho que o grande papel do YA é exatamente dar aos jovens uma outra perspectiva de uma situação da qual eles não conseguem sair sozinhos. Trabalhar temas tão delicados é de extrema importância, porque é impossível simplesmente fingir que eles não estejam inseridos no nosso contexto social atual.

  • Elizete Silva
    25 jun 2018

    Olá! Caramba 19 aninhos e já arrasando com livros tão intensos, emocionantes e acima de tudo humano, ela consegue transmitir sentimentos e emoções, a sensação ao ler seus livros é realmente essa, não estou sozinha. Que venham por aí muitos e muitos sucesso.

  • Atraentemente Evandro
    20 jun 2018

    Muito legal conhecer um pouco da autora Amy Zhang e também um pouco da sua trajetória nesse universo literário. Também é importante ressaltar a importância de cada gênero literário, afinal tem leitores para todos estilos e nenhum é menos importante que o outro, somente diferente. Muitos temas necessários para se discutir atualmente ela aborda em seus livros. Muito bom.

  • Bruna Lago
    18 jun 2018

    Nossa, que maravilha… 19 anos e distribuindo autógrafos. Algo muito bonito de ser ver, hein?! Muito legal quando a pessoa descobre sua identidade sem ser subjugada por estímulos externos. Achei bom a autora querer mostrar que, em determinadas situações, as pessoas não estão sozinhas e que talvez outras também estejam passando por isso. Adorei mesmo essa representatividade, além de tratar de temas tão comuns.

  • Micheli Pegoraro
    18 jun 2018

    Oi Débora,
    Amei essa entrevista! Agora fiquei ainda mais ansiosa para conhecer a escrita da Amy Zhang, ambos os livros dela estão na minha lista de desejados, quero ler o quanto antes.
    AMO Young Adults, é um gênero que geralmente trazem histórias intensas, profundas e reflexivas. Adoro livros que abordam temas importantes e que necessitam de discussão, como os dilemas de um jovem adulto, suicídio, bulling, orientação sexual, drogas, entre outros. Todas as reflexões geradas por essas histórias proporcionam leituras envolventes e marcantes.
    “(…) emocionalmente dolorosos, crus, e brutais”, isso resume tudo o que espero de um bom Young Adults.
    O fato da autora ter escrito o primeiro livro no ensino médio transmite a representatividade na história, pois ela vivenciou e conviveu com jovens em situações variadas.
    Estou cada vez mais gostando de ver a diversidade na literatura, com personagens que fogem dos estereótipos, que fogem dos padrões.
    Beijos

  • Pamela Liu
    18 jun 2018

    Oi Débora.
    Que entrevista incrível. Gostei muito de conhecer um pouco mais a autora. Estou super curiosa para ler os livros dela.
    Eu adoro YA. Essa transição entre adolescência e adulto é algo que todos passaram, estão passando ou vão passar. Portanto, muitos podem se relacionar com os assuntos abordados, que são de extrema importância.
    As pessoas deviam parar de desmerecer tal gênero, pois não consideram “alta literatura”. O importante é ler, se identificar com o personagem e/ou a situação, aprender algo com a leitura ou só se distrair.
    Beijos

  • Theresa Cavalcanti
    17 jun 2018

    Oi Débora,
    Não sou muito de ler Young Adults, mas fiquei com vontade de ler os livros dessa autora. Não conhecia ela, mas você falando que ela trata de assuntos muito importantes e essa entrevista me deixaram bem empolgada.

  • Gislaine Lopes
    17 jun 2018

    Oi Débora,
    Ainda não li nenhum livro da autora, mas venho acompanhando críticas sobre suas histórias e dá para notar o quanto sua escrita é cativante. O fato de ela ainda ser tão nova contribui para que o que ela escreva tenha tanto impacto em leitores jovens, pois eles se vêem nas situações. Trazer temas pesados para um livro que vai atingir, em sua maioria, leitores jovens não é errado ou ruim, pois não adianta de nada mascarar uma realidade tão vivenciada para a fim de evitar críticas negativas ou admitir que isso realmente acontece. Tudo o que Amy fala nessa entrevista é o que todos os autores deveriam estar defendendo e se eu já estava curiosa sobre seus livros, agora quase virou uma urgência lê-los.

  • Daiane Araújo
    17 jun 2018

    Oi, Débora.

    Ainda não li nenhum livro da Amy, mas o que me agrada e despertou o meu real interesse em suas obras, é simplesmente por ela abordar em seus livros temas importantes (que não merecem ser deixados de lado) e relevantes.

    A idade dela me impressionou, mas obviamente não é nenhum empecilho para seu talento nato.

    Enfim, gostei da entrevista e do que ela revelou querer passar para os leitores, através de seus livros.

  • Lili Aragão
    17 jun 2018

    Ela é bem jovem mas parece ter uma maturidade e tanto e gostei de ler a entrevista dela. A frase “Você se torna um escritor melhor escrevendo.” é bem animadora, esse paragrafo é na verdade inspirador para aqueles que querem escrever. Ainda não tive a oportunidade de ler nenhum dos livros dela, mas fiquei curiosa sobre eles 😉

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