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Os 4 pilares do Romance: uma análise de estrutura e trope

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Vou começar este artigo sendo bastante redundante: Romance é um dos gêneros mais populares do mundo — e o mais rentável também. 

As pessoas costumam esquecer, mas até mesmo histórias em outros gêneros geralmente apresentam algum enredo de história de amor, o que torna o Romance onipresente.

Infelizmente, o gênero ainda receber um certo “olhar torto” do mercado literário e é muito difícil encontrarmos outras obras literárias canonizadas como grandes romances da mesma forma que acontece com Orgulho e Preconceito da Jane Austen.

Já que Romance é um gênero com o qual estamos tão familiarizados, por que tão poucos escritores conseguem entender como escrever um Romance que tenha um impacto duradouro?

Neste artigo eu trago uma tradução de “The 4 Pilar of Romance”, escrito por Oliver Fox. Uma análise da construção de um bom Romance em 4 pilares principais, usando um dos romances mais conhecidos do mundo como exemplo — Orgulho e Preconceito.

Antes de continuar a leitura, um aviso: este artigo contém spoilers de Orgulho e Preconceito, então caso não tenha lido o livro ainda, fica a sugestão de leitura.

Pilar # 1 – O casal: amante e amado

Bem, você não pode ter um romance sem pelo menos esses dois personagens: O amante e o amado.

  • O Amante é o personagem que busca um relacionamento, aquele que tenta conquistar o amor do Amado.
  • O Amado é o personagem que O Amante está perseguindo, aquele que o Amante deseja cortejar e conquistar.

A história pode ser contada da perspectiva de qualquer personagem para criar mistério e suspense sobre os objetivos e intenções do outro. Ou a história pode até mesmo alternar entre as perspectivas dos dois personagens para criar uma ironia dramática.

Qualquer abordagem está bem.

Só tenha a certeza de escolher o método que melhor atende à história que você está contando. Por exemplo, Orgulho e Preconceito funciona tão bem, porque só temos acesso à visão tendenciosa de Elizabeth sobre Darcy. Mas se soubéssemos o que Darcy estava realmente fazendo o tempo todo e por quê, isso sugaria todo o drama do livro.

O mais importante sobre esses dois tipos de personagem é transmitir claramente o que eles querem, como planejam obtê-lo e por que o desejam.

Os romances brandos são o catalisador para o relacionamento com base apenas no fato de um personagem achar o outro fisicamente atraente, ou desejar sua riqueza, ou ambos ao mesmo tempo.

Sejamos honestos – esses são motivos superficiais e insatisfatórios para o namoro do personagem. E, embora o objetivo do enredo do Amante possa ser apenas ganhar o Amado, é aconselhável dar a cada um deles seus próprios objetivos de história pessoal. É ainda melhor se esses objetivos forem incompatíveis – eles também podem ser o ímpeto para o primeiro encontro.

Por exemplo, imagine Orgulho e Preconceito sem a subtrama da Elizabeth encorajando Jane a passar um tempo com Bingley e Darcy proibindo Bingley de perseguir Jane. E se Orgulho e Preconceito estivessem perdendo todos os outros subenredos onde Elizabeth e Darcy se chocam?

Seria uma narrativa monótona e unidimensional.

Pilar # 2 – Os obstáculos: rivais, tabus e seus entes queridos – Ah meu Deus!

Agora, não podemos ter somente os amantes fazendo toda a coisa fofa de se conhecer, se apaixonar um pelo outro e viver felizes para sempre.

É necessário que haja alguns obstáculos que eles devem superar primeiro. Eles precisam ilustrar seu compromisso um com o outro e fazer seu relacionamento funcionar, dia a dia, independentemente do que enfrentem.

Uma maneira de fazer isso é ter outros pretendentes em potencial competindo pela atenção e afeição do personagem. Se, no final, o Amante e o Amado se escolhem entre todas as outras opções, isso reforça o poder de seu compromisso.

Quanto aos tabus? Eles não precisam ser nada dramáticos.

Na maioria das vezes, o tabu tem a ver com personagens cruzando estratificações sociais: em Orgulho e Preconceito, um Amante da classe alta (Darcy) busca uma Amada da classe baixa (Elizabeth). Bem simples.

Enquanto os tabus são obstáculos sócio-culturais de nível macro enfrentados pelos amantes, no nível mais interpessoal, eles podem ter amigos e familiares que desaprovam o casamento por motivos próprios.

Talvez, anos antes de o casal se conhecer, o Amante ajudou a processar e destruir o negócio da família pertencente e operado pelos pais do Amado. Isso poderia ser motivo suficiente para a família do Amado olhar de soslaio para seu relacionamento.

Pilar # 3 – O arco romântico: ganhando e perdendo e … ganhando de volta?

Aqui está um esboço rápido e sujo de como a maioria dos enredos de romance se desenrola:

  • Os amantes se conhecem.
  • Amante se apaixona pelo o Amado.
  • O amante persegue o Amado.
  • O amante conquista o Amado.
  • O casal se aproxima.
  • O amante perde o Amado.
  • O amante ganha de volta (ou não consegue) o Amado.

Este é um dos pilares mais convincentes da escrita de romance.

A sequência mais importante em um romance são os pontos de virada 4-6 (e uma cena particular entre eles que cobriremos em um momento).

Esta é a noite escura da alma do casal – o pior cenário para o relacionamento deles. E, como em qualquer história, este é o clímax quando os personagems enfrentam seu pior medo e o superam, provando seu valor para reivindicar o objeto de desejo que procuram (ou seja, um relacionamento), ou deixam de alcançar e sofrerem as consequências.

Quero dizer, se o seu objetivo expresso é ter um relacionamento sério com alguém, nada pode ser pior do que terminar.

Alguns podem dizer que a morte de um personagem seria pior, mas em uma separação, a outra pessoa está dizendo: Eu não quero nada com você, e não é porque eu não te conheço – é porque eu te conheço que eu não quero estar com você.

E isso é brutal.

Pilar # 4 – O Sacrifício do Amante

Se uma história pudesse ser resumida em uma coisa, seria um relato de como alguém enfrenta testes cada vez mais difíceis de compromisso com um objetivo/desejo que afirma ser muito importante para eles.

Se eles não alcançam seu objetivo, é por um de alguns motivos:

  • Eles não eram fortes o suficiente para atingir seu objetivo.
  • Eles perceberam que era o objetivo errado e seguiram em frente.
  • Ou, no teste final, eles desistiram – provando que seu objetivo não era tão importante para eles quanto afirmavam.

A sequência da separação do casal estabelece as bases para seu último teste (ou o último teste do Amante, na verdade). É quando, mesmo sabendo que é inútil tentar reconquistar o Amado, o Amante faz um último esforço para mostrar ao amado o quão importante eles são.

O Amante faz isso por meio de um ato ou gesto totalmente altruísta que não os beneficiará de forma alguma (pode, na verdade, magoá-los), mas eles o fazem porque acham que ajudará a pessoa amada de alguma forma importante.

Pense em Darcy encontrando Lydia e Wickham secretamente e, em seguida, pagando pelo casamento deles. Isso não só não traz nenhum benefício para Darcy, como também é doloroso e humilhante.

Essa ação é ainda mais potente pelo fato de Darcy tentar manter sua boa ação em segredo de Elizabeth. Ele ajuda Lydia e Wickham (apesar de seu desprezo por eles), porque sabe que isso vai mitigar uma grande dor para Elizabeth e sua família.

O último momento da história (The Aftermath) revela se o sacrifício final do Amante teve, de fato, qualquer efeito substantivo no Amado para restaurar o relacionamento do casal. E, sim, um grande romance pode ter um final ruim. (Isso obviamente não é verdade para romances de categoria, mas bom para um romance em geral.)

No cinema, muitos dos filmes considerados grandes histórias de amor são romances sem fim.

Nestes “Romances Condenados”, como às vezes são chamados, o objetivo é revelar o impacto profundo que as pessoas podem ter sobre nós, para o bem ou para o mal, mesmo que ocorram em nossas vidas apenas brevemente.

Mas tenho certeza de que a maioria dos leitores aqui está principalmente interessada em finais “felizes para sempre”. Aqui, o objetivo é mostrar como o Amante e o Amado se complementam para enfrentar as dificuldades da vida, como eles se impulsionam para crescer como pessoas de uma forma que melhore a ambos.

A palavra final

Orgulho e Preconceito é uma obra-prima do Romance porque usa os quatro pilares do romance. Elizabeth e Darcy ajudam a revelar as falhas um do outro de uma forma que permite a ambos o insight necessário para começar a superar essas falhas.

É indiscutivelmente uma das maiores histórias de amor já contadas, mas não há nada de “picante” nisso – sem cenas de amor, nem mesmo um beijo! Mas talvez seja isso que tantas supostas histórias de amor errem – elas confundem os efeitos colaterais de um relacionamento romântico (atração mútua, emoções fortes e intimidade física) com a coisa em si. Mas duas pessoas mutuamente aprimorando o caráter uma da outra e crescendo juntas? Agora ISSO é Romance.

Eu li esse texto do Oliver Fox quando estava fazendo algumas pesquisas de artigos que seriam interessantes para o blog e, a forma como ele explicou a construção de um bom romance utilizando Jane Austen como base me fascinou.

É claro que, eu poderia ter criado a minha própria versão desse artigo, mas sendo bem honesta, assim como você, eu estou apredendo e acho que é sempre válido a gente compartilhar os conhecimentos que adquirimos por aí.

Créditos de imagem: pinterest

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Débora Costa

Uma intelectual contemporânea que entende a importância da convergência de mídias, telas e narrativas. Acompanhando mais séries do que deveria e não consigo fazer uma coisa de cada vez. Ainda quero escrever um romance de época um dia.

Deixe seu comentário

  1. Lívia Rocco comentou:

    Amo o fato de um romance como Orgulho e Preconceito ser estudado até hoje, isso só faz a gente perceber a importância do gênero e sua contribuição para a literatura mundial ❤

  2. Miranda Telles comentou:

    Eu precisava muito desse artigo!

  3. Júlia Victorino comentou:

    Nossa, que bom que decidiu compartilhar esse artigo por aqui. Nunca parei para notar como essa estrutura é o plano de fundo de muitos romances de sucesso. Claro que cada um tem sua peculiaridade, mas a base está lá. Não sou a maior fã de Orgulho e Preconceito (por favor, não me julguem), mas entendo totalmente sua importância no gênero e como ele utiliza de forma perfeita os tais pilares na narrativa e por isso inspirou tantos outros que o seguiram.

  4. Angela Cunha Gabriel/O Vazio na flor comentou:

    Mesmo que eu não seja um leitora voraz de romances, não, não é preconceito de forma alguma, o gênero causa tudo isso na gente. Há momentos necessários em que um romance precisa ser devorado com leveza, paciência e também, aquele ritmo para que se aprenda e absorva o romance, o casal, as dificuldades.
    Por isso, já adorei ler suas considerações e aprendi um tantão! rs
    Beijo