Literaría 03fev • 2019

Explicando porque eu não pretendo doar meus livros

Todo dia é o catálogo da Netflix me surpreendendo com as coisas mais fora da realidade possíveis. Por exemplo, outro dia eu recebi a notificação de que o programa da Marie Kondo havia sido incluído no catálogo e que eu já poderia assistir. Se você é completamente desconhecido deste nome, Marie Kondo é basicamente uma guru da organização, onde ela te dá algumas regras para manter as suas coisas sempre muito bem organizadas, inclusive, a editora Sextante lançou um livro dela chamado “A Mágica da Arrumação”, em 2015.

Parece lindo, não é mesmo? E eu realmente achei que me arriscar em uma das regras de Kondo poderia ser uma boa ideia considerando que eu sou péssima em manter minhas coisas organizadas e eu ainda não descobri uma maneira de fazer todas as minhas roupas caberem no meu quarto. Mas o que me chocou e fez com que eu desistisse dos métodos de Kondo para sempre, foi a seguinte frase:

“Idealmente, mantenha menos de 30 livros”

Primeira coisa que passou pela minha cabeça quando ela disse isso foi: “Essa mulher só pode tá usando crack”. A segunda coisa que me passou pela cabeça foi: “Ela está dizendo para as pessoas jogarem os livros dela fora?”  Acredito que esta fala deixa mais do que comprovado que Marie Kondo não é a fada da arrumação da nossa geração, não é mesmo? Embora eu entenda que isso faça parte de um método, é quase uma agressão você sugerir para alguém – qualquer pessoa – que ela descarte seus livros como se fossem aquelas roupas que não servem mais. Eu não estou certa?

Se você é um pouco parecida comigo que seja, com uma estante cheia de livros e muito pouco espaço para mais livros, provavelmente alguém já te perguntou porque você não doa ou vende os seus livros, não é mesmo? Em geral essa pergunta sempre vem de alguém mais velho, que acha que com a idade vem a sabedoria e só porque na carteira de identidade dele diz que ele nasceu antes de 1900, ele tem o direito de dar opinião na estante alheia, não é mesmo?

Bem, eu tenho 26 anos, mais de mil livros na estante e senhora Kondo, aqui está alguns dos motivos pelos quais eu jamais vou reduzir a minha quantidade de livros só porque a senhora acredita num “ideal”.

Os livros representam momentos importantes na minha vida

Qualquer um que me conhece sabe que eu sou feita de apego emocional, e os meus livros são a maior prova disso. Anna e o Beijo Francês foi o livro que deu origem ao nome do blog, mas o Circo da Noite foi a minha primeira resenha, antes mesmo de eu cogitar a possibilidade de ter um blog literário. Fangirl foi o livro que me inspirou a continuar escrevendo, Os Garotos Corvos me ensinou a amar fantasia novamente e Os Bridgertons criaram uma ponte entre minha mãe e eu – coisa que eu nunca achei que fosse possível.

Cada um dos livros que eu tenho na minha estante me trouxe uma coisa boa, ou me marcou de alguma forma. Não consigo me imaginar colocando isso dentro de uma caixa e descartando como se eles não estivessem presente em boa parte dos momentos que compõem a pessoa que eu sou. E sim, isso soa um tanto quanto dramático, mas é verdade.

Eu gosto de saber que eles estão na minha estante, para quando eu precisar

Eu tenho plena consciência de que eu nunca vou reler todos os livros que eu tenho na estante, mas eu gosto que eles estejam ali. Embora alguma coisa do que a Kondo falou faça um certo sentido, o que é que eu vou fazer com as minhas séries? Ou com aqueles livros que pedem que a gente leia outros livros etc? Não é uma escolha que eu seria capaz de fazer sabe? Decidir quais livros vão e quais livros ficam. Vocês conseguiriam?

Além disso, parte do que eu mais gosto na minha vida literária é poder olhar para a minha estante e saber que eu tenho infinitas possibilidades de leitura e que elas estão ali para mim, a qualquer momento da minha vida, para sempre. Quem é leitor ou quem usa os livros como uma válvula de escape para a sua própria ansiedade sabe o quanto isso dá uma sensação de segurança, não é?

Minha estante, minhas regras

Independente do que eu colocasse aqui, o mais importante aqui é que eu quero uma estante cheia de livros e eu não quero ter que me desfazer deles em nenhum momento. Eu acho que estou num ponto em que eu sou totalmente capaz de alugar um apartamento, se necessário, para colocar os meus livros lá e fazer uma grande sala de leitura para mim, organizada por gênero. Seria meu sonho?

Embora eu entenda os motivos de Kondo para falar uma atrocidade dessas, claramente ela não entende muito como o universo leitor funciona e como somos apegados aos nossos livros. Livros nos ensinam empatia quando os enredos são em primeira pessoa e precisamos nos colocar no lugar do protagonista. Nos ensinam respeito, e nos mostram o mundo de uma forma mágica e única que a vida real jamais seria capaz.

Bem, eu acho que é isso. Eu odeio quando as pessoas me dizem para descartar meus livros como se eles não tivessem nenhum significado para mim – ou para o mundo. Acho que se as pessoas compreendessem melhor o valor de importante de um livro, a nossa humanidade não seria como é e as pessoas provavelmente se comportaria de uma forma diferente.

Não esqueçam de deixar nos comentários os motivos pelos quais vocês não doam seus livros, tá bom?

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Débora Costa ver todos os artigos
Escritora melancólica nas horas vagas, publicitária hiperativa no dia a dia. Viciada em Oasis, uma eterna apaixonada por Beatles. Leitora compulsiva de livros de steampunk. Futura autora de um livro sobre viagem no tempo.

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10 Comentários

  • Jade Sibalde
    28 fev 2019

    Sabe Débora, já ouvi isso tantas vezes. O pior de tudo é quando fazem aquela velha pergunta: mas você nem leu todos, por que não se desfaz de alguns? Livros fizeram quem eu sou, são muito mais que uma roupa, são histórias que falaram comigo, me mudaram, definiram minhas diferentes fases como leitora. Temos na estante livros que não se acha mais em lugar nenhum, livros com nosso primeiro amor literário, livros que nos fizeram suspirar, não são só objetos amontoados numa estante. Cada um tem seu estilo de vida, mas essa arrumação proposta por ela seria apenas tristeza para mim se colocada em prática.

  • Lorenna Caoly
    15 fev 2019

    Eu adoraria tatuar seu texto pelo meu corpo, embora eu tenha comparada a você pouquíssimos livros físicos (geralmente são livros técnicos referentes a minha profissão, alguns estão obsoletos pois as edições foram atualizadas). Eu vi a série e percebi que o método KonMarie realmente não se aplica a minha vida. Já sou bastante organizada e as poucas dicas úteis que ela deu na série eu já utilizava na minha vida, exceto a de se desfazer de livros.

  • Vitória Pantielly
    10 fev 2019

    Débora,
    Obviamente ela não nos compreende, rsrs. Eu acredito que dá para ser organizado, e ao mesmo tempo manter nossa coleção. Particularmente, eu sempre dou um geral todo ano, doou alguns, vendo outros, mas os importantes sempre estão lá, me esperando …
    Também gosto de saber que estão ali, do meu lado, e sempre que posso releio eles, com o maior amor <3
    Acredito que isso seja algo bem pessoal, ela errou em colocar como regra de organização…
    Enfim, meus livros, minha regras, haha.
    Beijos

  • Luana Martins
    09 fev 2019

    Oi, Débora
    Respeito muito pessoas que dão dicas de organização e tal, mas se é algo que gosto ou quero ter não me desfaço.
    Tenho poucos livros e no momento não dou e nem empresto (para pessoas que não tem cuidado). Mas caso algum dia chegue a ter muitos livros que não posso guardar vou me desfazer apenas daqueles que não tenho tanto sentimento por eles, não sou de ficar relendo.
    Se chegar a doar será para a biblioteca da minha cidade.
    Beijos

  • […] de alguém; essa é uma crença que sempre defendi com firmeza. Eu cresci em uma casa de leitores, onde os livros estavam sempre presentes, e eu passava horas entre antologias de contos de fadas – desde os irmãos Grimm até Pushkin […]

  • Alison de Jesus
    05 fev 2019

    Olá Débora!
    Já percebi que Kondo não é uma amante assídua dos livros igual a gente, não é mesmo? Eu também não seria capaz de abrir mão de meus filhos para conseguir mais espaço (apesar de minha mãe perguntar toda a vez qual a necessidade de tantos deles). Algumas pessoas não entendem que uma obra não é só apreciada quando está sendo lida, mas também quando, ao observá-las na estante, nos fazem recordar de alguma lembrança.
    Beijos,

  • Maira Schein
    05 fev 2019

    Eu assisti a série e gostei da ideia de desapegar das coisas, fiz o processo com as minhas roupas mas logo pensei que seria IMPOSSÍVEL fazer o mesmo com os meus livros. Então me dei conta que não eram simplesmente livros, mas assim como tu falou, uma ligação emocional que eu tinha com eles e não podia aplicar o método e muito menos usar essa regra absurda de “só 30 livros” (que acho que só serve pra quem não é leitor).
    O amor que a gente tem pelos livros só a gente entende e acho que nisso só as nossas próprias regras de organização devem ser aplicadas.

  • Angela Cunha
    05 fev 2019

    Eu acabei lendo sobre essa moça e suas dicas, até sobre a série na Netflix que muitos adoraram,mas como não ligo muito pra isso de arrumação, tô nem aí..rs
    Bem, eu não tenho muito “apego” não. Já doei inúmeros livros, tanto para biblioteca aqui da minha pequena cidade, como já dei também.
    Só não curto emprestar, pois já me ferraram e muito com isso de devolverem livros com orelhas, sujos e amassados.
    Mas sei lá, eu prefiro doar e fazer o outro feliz a guardar, apesar de oh, ter uns 300 livros na estante..rs e sim, ter histórias com inúmeros.
    Mas acredito que seja particular de cada um. E ninguém tem o direito de falar para o outro o que fazer com seja o que for, principalmente algo que é tão valioso a quem ama ler.
    Beijo

  • Jora
    04 fev 2019

    Me identifiquei totalmente com esse post, ai de mim se ganhasse um real pra cada vez que me sugerissem me livrar de meus livros. A essa hora já teria o triplo de livros kkkk. Meus livros são parte de minha história, são marcas de meu crescimento e aprendizado, são minhas paixões em evidência. Não consigo me imaginar sem aquele leve desespero de não saber onde empilhar os livros novos, ou o conforto de reler o mesmo livro que me marcou quando tinha 14 anos ou a sensação de vitória pela nova aquisição que custou um pouco mais da metade do preço normal.
    Ser organizado é ótimo (eu sou assim e gosto), mas não existe essa coisa de limitar meu amor em nome de uma vida mais simples.

  • Ludyanne Carvalho
    04 fev 2019

    Aiai, que post mais lindo!
    Fiquei chocada com a fala dessa moça, ela deveria ensinar a organizar e não a descartar o que nos faz bem.
    Eu tenho pouco espaço e mais de 300 livros, estou sempre dando um jeitinho para que fiquem organizados e de uma maneira que me agrade visualmente.
    Livros acabam se tornando uma extensão de quem somos.
    Já doei, vendi, troquei alguns títulos que eu não tinha a menor intenção de reler, mas a maioria são livros significativos.
    Adorei seus motivos.

    Beijos

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