Literaría 02abr • 2019

Em defesa da nossa liberdade literária

Uma das coisas mais “engraçadas” do meu dia a dia enquanto leitora é quando eu me deparo com alguém que não gosta de ler. Existe sempre um comentário sobre a minha estante e, logo em seguida, a pessoa tenta criar algum tipo de justificativa para explicar o fato de que ela não lê tanto quanto eu, ou simplesmente não consegue se conectar com os livros como eu me conecto. Alguns dizem que não tem tanto tempo assim para ler – minha mãe, inclusive, ou que eles até tentam começar alguma coisa, mas uma nova série que a Netflix acabou de lançar sempre acaba atrapalhando.

O mesmo acontece quando eu encontro alguém que gosta muito de ler – inclusive, por muito tempo, este foi um hábito meu. Sempre que a gente chega na parte de compartilhar o que gostamos de ler, é quase que um impulso natural querer justificar porque você gosta daquele gênero ou daquele livro. Eu aposto que aconteceu muito com os leitores de 50 Tons de Cinza, Crepúsculo e aconteceu muito comigo quando me perguntavam o que eu achava de Harry Potter, sendo que eu não li os livros até hoje. Falando por mim, era como se ler Harry Potter fosse uma obrigação e o fato de eu não ter lido ou não ter o interesse em ler fosse me definir de uma maneira negativa – maior bobagem, não é mesmo?

Os dois cenários criam a ideia de que ler é um passatempo de valor moral indispensável. Existe toda uma percepção elitista em cima de leitura, como se esta atividade específica aumentasse o seu valor social, te tornando alguém mais inteligente e, automaticamente, uma pessoa melhor. E por mais que tentemos negar, essa visão é mantida por todos nós, leitores e não-leitores. Quem nunca se sentiu constrangido por não ler tanto quanto alguém? Ou por não ser tão inclinado aos clássicos como Anna Karenina e Machado de Assis? Ou por gostar de ler quadrinhos, romances eróticos e até mesmo os romances YA que tanto já foram criticados pela “elite literária”? Eu já, e sei que você também.

E isso não é algo novo, se vocês querem saber. Se formos analisar historicamente, as próprias bibliotecas foram construídas em cima da ideia de “melhorar” os cidadãos, um lugar onde você encontrava educação e auto-aperfeiçoamento. Vale ressaltar que, durante o século 19, esse tipo de leitura era muito específica e em sua maior parte, livros de filosofia, matemática etc. Livros de ficção, por exemplo, eram considerados leituras inferiores, que não contribuíam de nenhuma forma para a formação ou evolução de um individuo.

É claro que, com a entrada do mundo no século 21, as visões sobre o universo literário foram mudando e a sociedade foi reconstruindo seus conceitos sobre os livros. Inclusive, programas de leitura patrocinados por governos como os da Austrália e do EUA desempenharam um papel interessante no incentivo a leitura. Hoje, no mundo todo, existem diversos eventos literários que reúnem todo o tipo de gênero, como a Bienal do Livro aqui no Brasil, que mesmo sem perceber ajudam a reforçar a ideia de que a leitura é algo bom.

Hoje, da mesma forma que os clubes de leitura de ficção deveriam ser desprezados no século 19, nós criamos debates sobre gêneros que são melhores que os outros, ou leituras que são muito mais valiosas que outras. Ou vocês se esqueceram daquela thread da TAG Livros sobre literatura jovem-adulta? Eu nunca me esqueci. Existe todo um discurso no mercado literário atual que diz que existe muito mais valor em um livro bestseller do NY Times do que em um livro autopublicado na Amazon.

E eu não vou nem entrar no mérito dos romances e seus subgêneros, porque eu escrevi um post apenas sobre isso.

Agora me digam: isso realmente importa? Eu tive um professor de literatura, André, que costumava dizer que todo o tipo de leitura é válida. Não importa se você está lendo quadrinhos, encarte de supermercado ou o resumo da novela das 18h no site da Globo. A leitura é uma ótima maneira para você aprender algo novo, escapar da sua realidade e deixar a sua imaginação tomar conta.

Não existe nada de ruim em ler e, por mais que eu precise concordar com a elite literária neste ponto, exite algo nos livros que realmente contribuem para que nos tornemos seres humanos melhores de alguma forma. Ou pelo menos escritores e comunicadores melhores, não é mesmo?

Mas honestamente? Eu não me importo se as pessoas não gostam de ler ou não leem tanto quanto eu. Ler, pelo menos no meu caso, é algo que eu faço por prazer, apesar de eu ter o blog e fazer resenhas e algumas vezes eu ter que ler alguns livros que eu nem estava tão afim assim. E se eu classifico ler como uma atividade prazerosa, um hobbie, porque eu iria julgar alguém que não gosta de ler? É o mesmo que ser julgada pelas pessoas que gostam de acampar e fazer trilhas, quando eu detesto.

E por falar em acampar, eu não me dou o trabalho de ficar defendendo por A mais B os meus motivos por não sentir prazer em não dormir em um lugar confortável, assim como muitos de vocês não ficam justificando porque não jogam vídeo game ou vão para a balada todo final de semana. Então porque a leitura precisa ser diferente?

O mesmo se aplica as pessoas que gostam de ler, no caso, todo mundo que está lendo isso – eu espero. Não faz a menor diferença se você lê livros de autoajuda ou grandes clássicos da literatura, ou se você prefere os romances eróticos ou os livros de época, como eu. A verdade é que o importante mesmo neste caso é que você se sinta muito bem lendo o seu livro e que tenha uma experiencia valiosa, aprendendo alguma coisa com aquele enredo, mesmo que ele não seja tão bom quanto você esperava.

Vocês sempre vão poder contar com a minha opinião honesta sobre um livro, se for isso o que vocês quiserem, mas eu não me importo se você leu todos os clássicos da literatura nacional, ou todos os vencedores do prêmio nobel de literatura porque isso não te torna melhor do que alguém que lê apenas romances, ou thrillers ou qualquer outro gênero um pouco mais popular.

Leiam o que vocês quiserem, ou não leiam. Escutem o audiobook, ou vejam a adaptação nos cinemas. A leitura é algo que mudou muito ao longo dos séculos, abraçando novos gêneros e nos levando para universos e aventuras que jamais imaginaríamos possíveis. Não vamos nos limitar ao elitismo por conta de uma ideia estúpida sobre o que é “literatura”. Leia apenas se ler for algo que te da prazer, e por nenhum outro motivo.

Este post foi inspirado em You do You: In defense of non-readers and reading what you want publicado no site Book Riot, contendo trechos traduzidos do texto original.

Débora Costa ver todos os artigos
Escritora melancólica nas horas vagas, publicitária hiperativa no dia a dia. Viciada em Oasis, uma eterna apaixonada por Beatles. Leitora compulsiva de livros de steampunk. Futura autora de um livro sobre viagem no tempo.

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11 Comentários

  • Patrini Viero
    01 maio 2019

    Eu não poderia concordar mais com essas palavras! É tão importante desmitificarmos essa ideia de uma literatura elitista, que priorize e valorize apenas aqueles livros considerados clássicos, de acordo com critérios estipulados sobre valores e ideologias que servem apenas às classes dominantes do poder de determinada época. Como professora de literatura, sinto que meu maior dever em sala de aula é incentivar a leitura em si, como experiência capaz de elevar a capacidade imaginativa e argumentativa do ser humano, ou simplesmente como uma prática que pode levar o leitor a fugir de uma realidade não tão agradável, a conhecer outros mundos ou o seu próprio. A partir do momento que compreendemos a leitura e a literatura em si como criação e tarefa individual, guiada por impulsos e gostos particulares de cada um, acho que fica muito mais fácil sentir prazer nessa realização literária. Costumo dizer aos meus alunos que eles não devem ter vergonha do que curtem ler, porque de alguma forma toda e qualquer leitura, seja ela em qualquer gênero, cumpre a mesma função: tornar o ser humano ainda mais humano.

  • sarah castro
    26 abr 2019

    A leitura sempre vai ser algo particular, seja a partir do gênero ou do formato que ela leia. Uma vez eu li um comentário que a pessoa falava que leitor de verdade só lia em físico e já tinha lido algum clássico, aquilo me deixou extremamente irritada, pois não fez e não faz nenhum pingo de sentido. Cada um se identifica com o enredo que te gera um momento prazeroso. Se a leitura te deixa feliz e faz você se desligar da vida por um momento e entrar naquilo? Então esta ótimo. Seja ouvindo ou lendo físico/ebook. Seja lendo romance de banca, clássicos ou o que for. Como esta no final do texto “Leia apenas se ler for algo que te da prazer, e por nenhum outro motivo.” apenas isso.

  • Luana Martins
    06 abr 2019

    Oi, Débora
    Que post maravilhoso, sem palavras. Não preciso acrescentar nada.
    Toda leitura é válida, leio vários gêneros e não desmereço nenhum afinal leio de tudo.
    Beijos

  • Aline Bechi
    04 abr 2019

    Eu concordo muito contigo!
    As pessoas encaram a leitura como algo “culta”, sabe? Já fui parabenizada por ler livros ao invés de assistir séries/filmes quando eu mesma encaro a literatura (hoje em dia) como entreternimento.
    Vi um post uma vez, dando uma resumida aqui, que dizia algo do tipo “por que eu não vou assistir o bbb? Você acha mesmo que sou cult vou ler um livro, eu gosto de entretenimento”. Ok, é legal o cara defender o entretenimento, mas ele poderia ter citado outra coisa, porque livro é entretenimento também.
    Sei que algumas pessoas alegam que ler da sono, e eu entendo, mas no meu caso sinto sono assistindo… Olha, reforçando: a leitura tem seus pontos positivos sim, mas ainda é um entretenimento (a de ficção), mas filmes/séries também tem, já que fazem criticas sociais, etc. Nenhum é superior ao outro.
    E a questão dentro da própria leitura que você citou, a vergonha de ler o que lê e já querer justificar, acho muito triste mas é algo que acontece, porque as pessoas julgam as outras, como se seus gostos fosse inferiores e isso acontece também na musica, nos filmes…
    Eu acho que a gente tem que ter que fazer aquilo que gosta mais, e ter os gosto que nos agradem, sem pensar no que os outros vão pensar. E caso alguém queira falar algo, deixe que fale. O gosto “cult” do outro não é melhor que o de ninguém.

    Beijos

  • Ludyanne Carvalho
    04 abr 2019

    Falou tudo!
    Tenho nem palavras…

  • @cantinholi_
    03 abr 2019

    Super concordo com o que você disse, minha mãe me incentivou na leitura desde dos 3 anos e agradeço muito a ela por isso. Mas ela não lê os mesmo livros que eu, ela gosta de livros acadêmicos e acho bastante interessante.
    “Leiam o que vocês quiserem”

  • Elizete Silva
    03 abr 2019

    Olá! Realmente todos já passamos por situações parecidas, acredito que devemos ler aquilo que nos agrade, independente se é um clássico, modinha ou receita de um bolo. Qualquer coisa que sirva para somar algo em nossas vidas é válido, temos que parar com nossos pré conceitos e nessa mania de julgar a leitura dos outros.

  • Angela Cunha
    03 abr 2019

    Que post incrível!!!
    Sou a favor da leitura! Seja ela de que tipo for! Gosta de romance? Leia romance! Gosta de suspense? Leia suspense!
    Acredito também que o importante é ler, desde a bula do remédio até o livro mais filosófico que encontrar.
    A leitura engrandece não só quem escreve, quem lê, quem fala, mas nos dá um leque de viagens que só nós podemos entender.
    Há sempre os “desculpantes”. rs Falta tempo, falta vontade, sobra um monte de coisa pra fazer.
    E quem perde? Quem não lê!!!
    Beijo

  • Tereza Cristina Machado
    02 abr 2019

    Uauuu amei a reflexão do post! Debates sempre vai existir enquanto o mundo for mundo (e isso é bom)… acho também que criticar alguma coisa na vida também faz parte(quem nunca?!). Acredito que a gente tem que ter liberdade para ser o que nos faz bem e no caminho vamos encontrar pessoas que compartilham do mesmo e os opostos, cada um com seu hobbies… me identifiquei com o eu nunca li Harry Potter , sempre me achei a diferente por isso hahahaha então a gente sempre acaba caindo no ciclo… mas enfim… ótimo post

  • Yana
    02 abr 2019

    Toda vez que leio um texto seu tenho vontade aplaudir de pé. Esse texto especificamente tem tudo haver com a realidade em que eu vivo. Tenho dois pais professores, um de geografia e outra de história/filosofia, daí é super difícil convencê-los que literatura boa é qualquer uma que eu quiser ler. Eles tem esse pensamento de leitura só presta se disser respeito aos acadêmicos: pronto e acabou. Eu e minha irmã sofremos demais com isso e já choramos, discutimos e ficamos com raiva várias vezes pela mesma razão. O problema é, como fazer para que as pessoas sejam legais com o coleguinha e não fique enchendo a paciência sobre o que ele faz ou deixa de fazer? hahaha

  • Kleyse Oliveira
    02 abr 2019

    Oi Débora.
    Eu passei por isso que você abordou no texto.
    Eu acho tão chocante que há maioria da população brasileira não lê ou não gosta de ler mesmo que eles vivem rodeados de livrarias fisicas e virtual, a falta de interesse pela leitura só demostra que o mundo está cada vez mais evoluindo para a era digital.

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