Literaría 16abr • 2017

New Adult e a exploração do relacionamento abusivo.

Eu poderia fazer uma lista interminável de New Adults que eu li, ou pelo menos sei da existência, onde o personagem principal – também conhecido como o herói da história – além de ter um corpo musculoso, às vezes tatuado, outras vezes não, também é um homem extremamente ciumento, preocupado com o bem-estar da sua amada e, muitas das vezes extremamente controlador. Tenho certeza que algumas dessas características irá fazer você se lembrar de alguma história que leu, talvez até recentemente e, por algum motivo, achou que era exatamente o que você desejaria num relacionamento. Bem, esta publicação veio justamente para desconstruir esse pensamento.

Vou começar citando a minha leitura mais recente, Princesa de Papel, onde o nosso herói Reed, agride a personagem principal e também o seu par romântico na história de todas as formas possíveis. Por algum motivo, em determinado ponto do livro, as agressões se tornam palavras de carinho, e a nossa heroína Ella Harper é promovida de “piranha” para “amor”. Isso também acontece em outros livros, talvez não com a mesma intensidade, mas se pararmos para pensar, em Belo Desastre, o nosso querido Travis Maddox perdia o controle do seu temperamento com muita facilidade se qualquer outro homem se aproximasse de Abby, seu par romântico no livro.

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Faz tempo que eu venho observando em como os new Adults começaram a absorver a ideia de “homem-dominador” que normalmente encontramos nos livros eróticos. Os personagens masculinos são destemperados, entram em brigas pelos menores motivos e tem uma mania insuportável de querer controlar o que, quando e como a suposta heroína do livro vive a sua vida. Você pode observar que a maioria dos enredos possui uma situação em que a “mocinha” do livro precisa ser resgatada e o diálogo sempre caminha para o herói em um monólogo de repreensão sobre a heroína não ter “obedecido” quando ele disse para ela não fazer isso ou aquilo.

Eu sei que muitas pessoas ainda não tomaram consciência disso, mas esse tipo de relacionamento não é saudável.

Quantas de vocês aguentariam estar em um relacionamento com um homem completamente problemático, cheio de demônios para enfrentar e sem nenhum tipo de autocontrole? É exatamente isso que estes enredos nos passam. Personagens masculinos completamente perturbados que encontram na heroína uma paixão avassaladora e a sua forma de redenção.  O problema é que nós sabemos que na vida real, essas características não são tão fáceis de lidar e que um relacionamento com um cara “emocionalmente perturbado” pode resultado em um relacionamento muito tóxico.

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Ultimamente eu tenho me preocupado demais com a publicação de livros que tratam esses relacionamentos abusivos como algo positivo, algo que a longo prazo vai te fazer feliz. Esses enredos fortalecem uma ideia muito errada de que se a mulher persistir naquele relacionamento agressivo, tóxico, tudo vai acabar bem no final, porque só ela é capaz de proporcionar a redenção que seu amado precisa. Vocês conseguem imaginar a quantidade de mulheres que persistem em um relacionamento ruim por causa dessa ilusão? Muitas.

A literatura influencia muito no que buscamos na nossa vida. Quantas vezes vocês já não compartilharam que o Mr. Darcy, de Jane Austen, não aumentou suas expectativas sobre os homens? O mesmo acontece quando você entrega na mão de adolescentes e até mesmo jovens adultos, um livro que retrata um relacionamento obviamente tóxico que teve um final feliz. As pessoas absorvem aquilo e criam dentro de si o desejo de viver exatamente aquilo. E nós sabemos como relacionamentos desse tipo não acabam bem, não é mesmo?

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Eu fico muito preocupada em saber que livros como Princesa de Papel, Belo Desastre, 50 Tons de Cinza, Adorável Cretino,  entre outros, estão por aí romantizando esse tipo de comportamento masculino e fazendo parecer que é certo um cara querer controlar a sua vida com a desculpa de estar te protegendo, ou te chamar de “piranha” e “vadia”, mas tudo isso porque ele está secretamente apaixonado por você. Eu acho que o mercado literário precisa passar por uma avaliação muito série sobre o que é ou não coerente publicar, principalmente porque eles não conseguem medir o impacto que essas histórias podem ter nos seus leitores.

Por fim, eu quero deixar aberta essa discussão sobre essa romantização de personagens masculinos “dominadores”.  O que vocês acham desse tipo de enredo e como você veem esses personagens quando se deparam com esse tipo de literatura?

Créditos: Imagem, Imagem, Imagem

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Débora Costa ver todos os artigos
Escritora melancólica nas horas vagas, publicitária hiperativa no dia a dia. Viciada em Oasis, uma eterna apaixonada por Beatles. Leitora compulsiva de livros de steampunk. Futura autora de um livro sobre viagem no tempo.

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14 Comentários

  • Vanessa
    15 ago 2017

    Olá! Parabéns por trazer essa questão. Eu também tenho observado isso e confesso que é algo que me incomoda muito. Na verdade é muito mais que incomodo. E o mais irônico ou não é que a maior parte desses livros são escritos por mulheres. Fico feliz em saber que não sou a unica que enxerga esses absurdos disfarçados de “amor i love you”

  • Olááá
    você não tem ideia do quanto estou feliz de ler seu texto, eu já li alguns new adults e em, 99 por cento, presenciei um relacionamento abusivo, o mais triste é ver o tanto de pessoas que romantizam e parecia que eu era a unica a perceber o quanto o cara estava sendo abusivo, fico muito feliz de ler esse texto e os comentários pois agora não me sinto mais sozinha

    beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

  • Michele Lopez
    24 abr 2017

    Olá,
    Hoje em dia tenho visto realmente várias obras que retratam tais tipos de relacionamento, onde o homem é cheio de problemas e encontra no seu relacionamento com uma mulher sua forma de redenção tentando “protege-la”. Isso não é a realidade e concordo que deve haver uma preocupação maior com o que está sendo publicado.

    LEITURA DESCONTROLADA

  • Larissa Oliveira
    22 abr 2017

    Oi!
    Eu adoro um bom romance e muitos do que você citou em seu texto eu já li e adorei mas hoje possuo uma mentalidade bem diferente e mais crítica e não consigo mais enxergar nesses romances e “mocinhos” problemáticos a beleza que eu enxerguei um dia. É inconcebível que a mensagem que tais livros passam não são nada saudáveis e que a problematização de tal abordagem se torna cada vez mais necessária.
    Excelente texto, beijos!

  • Valéria
    22 abr 2017

    pois é, é por isso que nem perco meu tempo lendo esse gênero, e pior que quando falo disso muita gente me tasca de preconceituosa, que só porque prefiro livros clássicos, quero ser melhor que os outros…

    sem contar que em livros clássicos tbm pode ocorrer esse tipo de comportamento nos relacionamentos, mas aí é necessário entender o contexto da época em que foram escritos, e fazer a crítica em cima de tais obras… mas em pleno século 21 haver essa romantização e falta de problematização sobre o tema, acrescido do fatos de que muitos leitores enxergam algo natural que não precisa ser criticado,aaah, isso é um absurdo…

    adorei sua postagem…
    bjs…

  • André
    21 abr 2017

    Oi Débora,
    Essa temática que é vista em diversos Young Adult, ou New Adult, nada mais é do que uma releitura de A Bela e A Fera. A fera dos dias de hoje não é um monstro fisicamente falando, mas é um monstro social e/ou sexual que precisa ser resgatado para se tornar o príncipe que a Bella merece.
    Beijos
    André | Garotos Perdidos

  • Priscilla Beatriz
    21 abr 2017

    Olá Débora!
    Achei sua resenha maravilhosa e super hiper master blaster relevante!!!!
    Já faz um certo tempo que venho pensando a mesma coisa… na verdade desde que eu assisti o primeiro filme do “Cinquenta tons de cinza”. Fiquei abismada, revoltada, entristecida pela situação. Como as pessoas podem romantizar aquele tipo de relacionamento? Como as mulheres podem se desvalorizar tanto?
    Paraaaaaaa gente!
    É um retrocesso sem tamanho de tudo que nós, mulheres, estamos lutando a anos!
    Acho muito perigoso esse tipo de enredo… acho que devíamos colocar esse assunto mais vezes em pauta.
    Parabéns pela resenha… bju!

  • Paula Sesterheim
    19 abr 2017

    Ameiiii o post! Pensei que eu era a única que via um relacionamento abusivo em “Belo desastre” e “50 tons de cinza”! Acho repulsivo relacionamentos do tipo e não entendo como fazem tanto sucesso esses livros. Sem falar que as pessoas consideram algo “normal”… gente, não é normal! Parem de romantizar isso, acordem! Não é saudável. Teu texto diz exatamente o que penso, é um assunto que precisa ser abordado, ainda mais para quem gostaria de estar em um relacionamentos desses. Parabéns pelo texto.

  • Não vejo nada de mais em fazer a leitura desses livros​, mas isso para quem só curte e não segue a fio o que eles pregam , acreditando ser normal um relacionamento abusivo. Só que na minha opinião acho bem tenso de ler. Acho exagero demais, então já evito esse estilo de leitura.

  • Lorena Matos
    19 abr 2017

    Meu Kindle esta repleto de livros inacabados, tomei como regra não perder mais tempo com livros desse tipo. Cheios de machismo, perseguição, terrorismo psicológico e agressões a mulher, não acho isso nada atraente, nada sexy. Sinceramente não sei porque algumas mulheres gostam tanto desses romances, se é que se pode chamar assim.
    E tenho certeza que isso cria expectativas e padrao para muitas. Só que fora da literatura esse tipo de relacionamento é destrutivo e perigoso, e os finais não são felizes.
    Espero que as autoras repensem um pouco sobre o legado que estão deixando, uma centena de mulheres procueando um relacionamento abusivo com a ilusao que isso é saudavel e normal, quando não é.

  • Lilian Farias
    18 abr 2017

    Concordo com você, tem um número assustador de livros com essa linha de pensamento que as pessoas classificam como romantismo, sinto, no mínimo, medo. o mais curioso é que as editoras sustentam que publicam, pois é o que vende. Logicamente, que nem todos os livros seguem essa linha. Princesa de Papel, soube recentemente que segue essa vertente machista, ‘Belo Desastre, 50 Tons de Cinza, Adorável Cretino’ são os óbvios. gostei bastante de seu texto.

  • ludmila cabral
    18 abr 2017

    adorei o seu post, infelizmente realmente percebemos que isso acontece msm em mts livros.. tanto que qnd vemos um personagem que nao eh assim ficamos mds vc eh uma raridade, mas nao devia ser assim..
    mt vzs acho que a gnt gosta de personagens assim pois isso reflete que o amor dms pode mts vzs ser obsessivo e queremos ser amada, mas gostamos isso no livro pq lemos ele, agr pessoas que tem a cabeça mais madura tem que saber diferenciar o livro da vida real, contudo tem mt adolescente que le isso e acha que eh isso que tem q ter p vida…. eh uma situaçao bem complicada

  • Joi Cardoso
    18 abr 2017

    Oi Débora! O Adorável Cretino que tu menciona no último paragrafo seria o livro nacional? Ou Cretino Irresistível da Christina Lauren? Fiquei confusa por que na foto aparece um terceiro, o quarto da série Selvagem Irresistível. Ficou confuso, mas acho que dá pra entender hahaha

  • Yara Guez
    17 abr 2017

    Post maravilhoso! E completamente assertivo. Deixei de ler New Adults e detesto erótico pelo simples fato de relacionamentos abusivos serem tratados como símbolo de amor e redenção. É completamente doentio a gente ver mulheres sonhando em terem em suas vidas homens abusivos e violentos, porque os livros ensinam isso. São mulheres que escrevem isso.
    Imagina uma adolescente de 15 anos, que tem o primeiro namorado e que acha q o temperamento abusivo do namorado é lindo, é cuidadoso, porque o livro que ela leu falou que era. No final ela vai ter o felizes para sempre.
    Mas as estatísticas de violen

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