Literaría 31jan • 2019

Precisamos falar sobre o sexismo nos livros de Fantasia

Eu já venho refletindo sobre este assunto desde que encontrei A Corte de Rosas e Espinhos na prateleira de literatura “jovem-adulto”, ao lado de Uma Chama Entre as Cinzas, em uma livraria no interior de Minas Gerais. Eis que eu acabo entrando em um fórum que propõe discutir exatamente este assunto e, depois de ler diversas opiniões, debater, chegou a hora de falarmos sobre: porque algumas pessoas assumem que fantasias escritas por mulheres são adequadas para adolescentes?

Quem acompanha o blog sabe que eu sou completamente apaixonada por A Corte de Espinhos e Rosas, mas quem leu o livro sabe que a Sarah J. Maas não economiza no teor sexual do livro, principalmente nas suas continuações. E  Uma Chama Entre as Cinzas não fica muito atrás, embora neste caso a minha preocupação não seja exatamente com o teor sexual do livro, mas sim com o nível de violência ao longo do enredo. Eu ainda tenho a teoria de que se eu apertar um pouco mais esse livro, escorre sangue dele – sério!

Esse tipo de coisa não acontece apenas aqui no Brasil, a própria editora da Sarah J. Maas, a Bloomsbury, considera que A Corte de Espinhos e Rosas é um livro adequado para adolescentes. É verdade que as cenas de sexo do livro são excelentes, acho que podemos concordar com isso, mas não são nem um pouco adequadas para o público “jovem-adulto”. Ver esse livro na sessão de livros para adolescentes me deixa muito preocupada com quem está sendo o consumidor final dessas obras.

Será que podemos pensar um pouco sobre porque isso acontece?

Em sua publicação sobre o assunto, Mya Nunnally nos lembrou que a fantasia e a ficção-científica são gêneros considerados de domínio masculino e que, durante muito tempo, se você não pesquisasse por livros de fantasia escrito por mulheres, não os encontraria numa livraria esperando por você.

Para a nossa sorte, a indústria literária vem dando pequenos passos para mudar essa realidade. Infelizmente, à medida que mais romances de mulheres são equivocadamente classificados como jovens adultos, aumenta a mensagem de que a fantasia e a ficção científica adultas são para os homens. Claro, as mulheres podem escrever para adolescentes que gostam de Jogos Vorazes, mas para os leitores de fantasia “reais”? Tente novamente.

Eu sei que parece que eu estou querendo criar uma tempestade em copo d’água, mas Silvia Moreno-Garcia precisou se dirigir formalmente ao GoodReads para que eles retirassem a classificação de Young Adult do seu livro, já que ele era, claramente, um livro para o público adulto.

E se vocês querem mais exemplos para esse tipo de situação, aqui vai algumas menções: The Poppy War de R.F. Kuang, Boneshaker de Cherie Priest, The Queens of Innis Lear de Tessa Gratton, or Spinning Silver de Naomi Novik. Se você comparar quem é que coloca esses livros nas suas prateleiras e em quais listas de leitura eles são citados com a sua verdadeira classificação, o que eles tem em comum? Todos são livros de fantasia/ficção científica e todos são escritos por mulheres.

Eu não estou dizendo que seja exatamente ruim que mulheres escrevam para o público jovem, mas não é só para esse público que podemos escrever. Na verdade, eu acho que o mercado literário já fez um grande avanço quando começou a investir em enredos mais inclusivos, mas ainda precisamos prestar atenção em alguns comportamentos que reforçam, mesmo que sem querer, estereótipos.

Além disso, é preciso redobrar o cuidado com a classificação de determinadas obras. Alguns livros, por mais que sejam releituras dos nossos contos de fadas favoritos, ainda não são leituras apropriadas para menores de 18 anos e por isso, devem ficar em uma sessão separada nas livrarias, ok?

Agora eu quero saber de vocês, leitores. O que acham de toda essa situação? Deixem nos comentários a opinião de vocês e vamos conversar sobre isso.

Crédito de Imagens: Imagem

Débora Costa ver todos os artigos
Escritora melancólica nas horas vagas, publicitária hiperativa no dia a dia. Viciada em Oasis, uma eterna apaixonada por Beatles. Leitora compulsiva de livros de steampunk. Futura autora de um livro sobre viagem no tempo.

Posts relacionados

Comente com o Facebook

Comente pelo WordPress

6 Comentários

  • […] enredo me pegou desde o primeiro capítulo, quando descobrimos exatamente como Ophélie, a nossa protagonista, se sente em relação ao seu noivado. A escrita de Dabos é viciante, suas […]

  • Angela Cunha
    01 fev 2019

    Concordo em gênero, número e grau! Apesar que na minha cidadezinha(Lost) não ter livraria, uma vez, passeando pela avenida Paulista, pude entrar numa livraria e ver essa “separação” feita de maneira inusitada.
    Incentivar a leitura é essencial e primordial,mas fazer isso de forma adequada a idade dos leitores, melhor ainda!
    Não dá para enfiar goela abaixo livros mais adultos em adolescentes em fase de transição, por exemplo.
    É preciso haver uma ordem natural dos fatores.
    E infelizmente, essa divisão homem/mulher autores, sempre existirá ;/
    Beijo

  • Ycaro Santana
    31 jan 2019

    Eu nunca pensei nisso especificamente no nicho da fantasia, mas lendo suas críticas e pensamentos, concordo totalmente! O sexismo está entrelaçado em todos os gêneros, mas chegar ao ponto de classificar livros para adolescente só por ser escrito por uma mulher é uma situação estreitamente explícita e muito escrota. Precisamos mudar isso!

  • Aline Bechi
    31 jan 2019

    Olá, tudo bom?
    Concordo com você. Muitos livros de fantasia são classificado errados, a grande maioria de mulher, mas já vi obras escritas por homens serem classificadas como YA e não serem.
    Um teoria é que no caso de Corte de Espinho e Rosas seja classificado dessa maneira por ser uma personagem de 18 anos e envolver muito romance. É claro que isso não justifica, já que como você disse há muita cena quente e sangue. As outras obras não conheço, então não tenho como opinar.

    Ótima pauta de discussão!
    Beijos!

  • Lara Caroline
    31 jan 2019

    Olá Débora.
    Nunca tinha reparado nessa questão. Aliás, o que eu percebo é que geralmente as mulheres são consideradas escritoras apenas de livros de romance, o que é um grande equívoco. Acho que as mulheres estão ganhando muito espaço em todos os meios, e espero que com o tempo esses estereótipos sejam desfeitos.
    Beijos

  • Alison de Jesus
    31 jan 2019

    Olá Débora!
    Confesso que essa reflexão nunca passou pela minha cabeça, mas pasmem, faz todo o sentido! É notório que o continuísmo desse ato está relacionado com o comércio literário, visto que os donos de livraria pouco se importam com classificações. Mas apertar essa mesma tecla que perpetua uma pré-categoria das escritoras é algo totalmente incompatível com a contemporaneidade, devendo ser nosso dever reverter esse cenário.
    Beijos.

  • Siga o @laoliphantblogInstagram