Literaría 10set • 2018

Setembro Amarelo e a minha experiência pessoal com a depressão

Setembro chegou e com ele começamos a campanha do Setembro Amarelo de prevenção contra o suicídio. A campanha começou no ano de 2015, em Brasília, e é uma iniciativa do Centro de Valorização da Vida (CVV), do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). O mês de setembro foi escolhido para a campanha porque internacionalmente o dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio por iniciativa da International Association for Suicide Prevention. A ideia é promover eventos que abram espaço para debates sobre suicídio e divulgar o tema alertando a população sobre a importância de sua discussão.

E porque eu resolvi falar sobre setembro amarelo aqui no blog? Quando as pessoas conversam comigo, eu acho que elas têm a impressão que eu estou totalmente no controle da minha vida. Eu tenho o blog que é a coisa que eu mais amo no mundo, eu tenho um trabalho que eu adoro e eu finalmente conquistei o meu primeiro apartamento – embora ainda dividindo com outras pessoas. O que eles não sabem é que, durante os 26 anos da minha vida, eu já tive 3 tentativas de suicídio e um quadro de depressão que deixou os meus pais desesperados por meses – e ainda deixa.

Eu sentia que eu não importava. Eu sentia que eu era um peso, um problema para as pessoas a minha volta. Na minha cabeça eu não conseguia fazer nada direito, eu era errada, eu não deveria existir. Eu convivia com esses pensamentos todos os dias e sempre que alguém fazia alguma brincadeira de mal gosto comigo, eu entrava mais e mais fundo nesses pensamentos. Era uma sensação de peso constante e eu só precisei de uma coisa mínima para transbordar o copo – e quando eu digo mínima, é mínima mesmo.

Meus pais não entendiam como eu, uma garota que tinha tudo, poderia estar com depressão. Depressão porquê?  Eu não sei. Acho que ninguém sabe. Quando se tem depressão, o mundo é pesado demais, viver é cansativo e exige de você muito mais do que você consegue dar. Eu tentei muito explicar para eles que certas coisas eu não conseguia fazer, mas ainda assim é muito difícil para alguém de fora conseguir enxergar o peso que as pequenas coisas como uma piada, uma festa lotada, uma crítica mal interpretada pode ter em alguém. No meu caso, era o suficiente para acabar com o meu dia.

Eu nunca confessei isso, mas um dos motivos de eu ter conseguido aguentar mais um pouco foram os livros. Sério, minha compulsão por ler começou no meio de uma crise de ansiedade na faculdade e não sabia como fazer parar. Eu fui na livraria que tinha ali perto e comprei um livro do Gabito Nunes e me escondi na escada do terceiro andar para ler. Eu devo ter perdido dois períodos de aula por causa daquela crise de ansiedade, mas se não fosse aquele livro, talvez o resultado tivesse sido muito pior.

Quando eu conto essas coisas, as pessoas perguntam: “porque você não pediu ajuda?”. Eu pedi, várias vezes. Mas quando você fala para alguém que você está desanimado, se sentindo mal por alguma coisa, as pessoas sempre dizem que vai passar e que as coisas vão melhorar e não dão a devida importância aquele sentimento. E durante muito tempo eu acreditei que iria passar, mas chegou num ponto em que não passou e todo aquele sentimento pesado e ruim, me engoliu. Entendem o que eu quero dizer? Nem sempre a pessoa sabe como explicar o que está sentindo e nem por isso o que ela sente é menos importante.

Eu tive muita sorte – e quando eu digo muita mesmo – de um dia estar conversando com meu pai e, por um milagre de Deus ele ter me dito: “Eu acho que a gente podia começar a procurar um terapeuta para você”. Meus pais conversaram muito sobre isso e estiveram do meu lado em todo o processo. Meus amigos também, por mais distantes que eles estejam de mim, fisicamente, todos eles sempre buscaram me ajudar da melhor forma que podiam e transformaram o ambiente a minha volta em algo saudável para que eu pudesse melhorar. E embora muitos deles – e isso incluindo meus pais – não entendam bem o que acontece comigo, eles respeitam e me apoiam.

Infelizmente nem todo mundo tem essa sorte e, por isso, eu resolvi escrever esse post e compartilhar com vocês esse momento tão pessoal da minha vida. Não desvalorizem o sentimento das pessoas a sua volta. Não façam comentários de deboche ou crítica só porque você tem uma caixa de comentários que permite isso. Pense bem nas palavras que vai usar e tenha certeza de que o que vai ser dito irá acrescentar em alguma coisa na vida daquela pessoa. Nós precisamos muito começar a levar depressão e ansiedade mais a sério.

A cada 40 segundos uma pessoa tira a própria vida.

Em uma sala com 30 pessoas, 5 já pensaram ou pensam em suicídio.

A boa notícia é que 90% dos suicídios podem ser evitados.

Não negligencie um pedido de ajuda. Ligue 188 – O CVV vai ajudar você!

E quem estiver sentindo necessidade de conversar, eu estarei sempre disponível para falar por e-mail ou pelo inbox nas redes sociais, tá?

Débora Costa ver todos os artigos
Escritora melancólica nas horas vagas, publicitária hiperativa no dia a dia. Viciada em Oasis, uma eterna apaixonada por Beatles. Leitora compulsiva de livros de steampunk. Futura autora de um livro sobre viagem no tempo.

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10 Comentários

  • Luana Martins
    25 set 2018

    Olá, Débora
    Nossa, fico feliz por você ter pais e amigos que te ajudaram. Obrigada por compartilhar conosco algo pessoal.
    É difícil para os outros a nossa volta perceber o que se passa com a gente, só quem passa por depressão, problemas entre outras doenças sabe o que é.
    Agora você sta bem e isso que importa, estar feliz e bem consigo mesma.
    Beijos!

  • Elidiane Lima
    20 set 2018

    Oi, Débora!
    Sei bem como é difícil lidar com depressão e ansiedade, sofro com isso a anos. Fiz psicoterapia e ajudou bastante, assim como os livros… mas também sempre tive o apoio da minha família, sem isso não sei como seria… Mas acredito que é um mal que sempre vai está presente, a luta é diária, infelizmente, e é algo que deve ser debatido sempre.

  • Patrini Viero
    17 set 2018

    Oi, Débora!
    Admiro muito pessoas que conseguem a coragem necessária para compartilhar suas próprias experiências em prol de um bem maior. Obrigada por isso!
    Eu nunca passei por uma situação de depressão aguda, mas sempre tive problemas de baixa auto-estima e ansiedade, e sei bem o quanto esses problemas podem interferir não apenas na nossa vida, mas na imagem que fazemos de nós mesmos. Eu tive muita sorte por sempre ter o apoio necessário em casa e fora dela, e acredito que isso seja fundamental para enfrentar essa barra que é lidar que essas sensações. A gente precisa parar de romantizar tudo isso e procurar ouvir mais os outros a nossa volta. Muitas das tragédias que acontecem todos os dias podem ser evitadas com atenção, seriedade e paciência.

  • Pamela Liu
    13 set 2018

    Oi Débora.
    Obrigada por ter compartilhado algo tão pessoal assim aqui no blog.
    Acho que a parte mais difícil é se expressar de uma forma que as pessoas entendam que não é só um desânimo, um dia triste, algo passageiro.
    O importante é as pessoas saberem que tem pessoas que se importam, sejam elas familiares, amigos ou não. Temos que divulgar mais a existência do CVV.
    Beijos

  • […] no Setembro Amarelo, momento em que paramos para pensar sobre a depressão e o suicídio. Acho que esse é o melhor momento para ler um livro assim. Exercitar o perdão e a gratidão é […]

  • Kleyse Oliveira
    12 set 2018

    Ciao Debora!
    Que texto mais emocionante e lindo.
    Eu conheço uma jovem da minha igreja que ela teve depressão e tentou suicídio mais de uma vez, na última ela quase morreu mais ficou em coma, ela até hoje tem as marcas no braço dos cortes e precisa ir à uma terapeuta de vez em quando. Mas graças a Deus ela foi libertar e hoje é uma menina linda.

    Tudo que você falou não só acontece no Brasil ou EUA, mas já vi muitas notícias nas redes sociais de famosos coreanos que cometeram suicídio pois estava com depressão e não aguento mais a dor.

    E triste sabe que muitos estão passando por isso é as pessoas estão taxando como frescura. Só Deus para ajudar quem necessita.
    Eu nunca tive depressão mas já tive indícios, sorte que minha família sempre estava por perto e os livros também me ajudaram muito.

  • Michelli Prado
    11 set 2018

    Antes de mais nada parabéns por tua postagem, creio que a gente se informando e sabendo o quanto o tema deve ser explorado e explicado ajudará demais na percepção da pessoas que sofre e dos que estão ao redor, para saber o que fazer e a forma correta de prestar ajuda. Com certeza esse tipo de campanha ajudará demais as pessoas.

  • sarah
    11 set 2018

    Eu acho incrível quando as pessoas estão dispostas a falar sobre o que já ocorreu com elas, ainda mais abertamente assim como uma forma de desabafo e também como ajuda. Sempre que as pessoas viravam e falavam que tudo ia fazer bem ou igual você disse: Como alguém que tem tudo pode ter depressão/ansiedade ou qualquer coisado tipo? Essa pergunta sempre rodeia. Ler coisas assim de alguém que já passou te da um pouco de esperança no final,ter pessoas ao seu lado também e muitas coisas. Obrigada por compartilhar isso conosco. Fico feliz de ter conhecido o blog, salve ao encontrinho de leitores em bm city esquecida haha

  • Ludyanne Carvalho
    11 set 2018

    Termino esse post com lágrimas…
    Há muito a dizer, mas as palavras ficam entaladas e, no fundo, só quem sente sabe.
    Entendo muito essa sensação de o livro salvar… Eles salvam!
    É uma campanha muito bonita e necessária, e esse post é tão útil.
    Fico muito feliz em ver que está dando seus passos, dentro do seu limite e ainda mais por ter pessoas ao seu redor que te apoiam e pelo menos tentam compreender.

    Beijos

  • Daiane Araújo
    11 set 2018

    Oi, Débora,

    Super me identifiquei com o post e suas palavras. Verdadeiramente. Sério.

    Eu não vou dizer que os livros servem de 100% apoio, digamos assim, mas também vejo neles uma válvula de escape. É uma forma de esquecer o mundo, a existência, a solidão e os problemas. Você tem razão… As palavras afetam mais do que as pessoas ao nosso redor podem imaginar. Uma pessoa depressiva, infelizmente, é mal compreendida, todos deveriam se colocar no lugar do outro. Seria bom se isso mudasse.

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