SOSELIT 29ago • 2018

SOSELIT #7 Ebooks piratas e a cultura do “se eu gostar, eu compro”

Eu sei que vocês pensaram que o SOSELIT tinha acabado por aqui, mas depois de fazer uma mudança inteira que não havia sido planejada, estou de volta e finalmente podemos seguir com a nossa programação. O tema do SOSELIT de Julho (que está sendo postado em agosto por motivos de desorganização da minha parte) foi um tema polêmico, que divide grupos e destrói amizades e eu só não poderia deixar de falar: o preço dos livros.

Sei que o assunto tem várias pegadas, inclusive, eu já compartilhei com vocês um post da própria editora Record explicando o ponto de vista editorial do assunto e porque o valor dos livros são o que são. Mas para esse post do SOSELIT eu resolvi ir mais além do que só o valor de investimento que a gente precisa fazer para ler aquele enredo gostosinho e falar um pouco sobre outro assunto relacionado e que também gera muita polêmica na internet: baixar eBooks piratas.

Tá, eu não vou bancar a hipócrita e dizer que eu nunca baixei um eBook pirata na vida, porque eu já fiz isso mais de uma vez. Porém, quando você começa a entender melhor o meio literário, a pesquisar mais sobre o processo de criação e produção dos livros que chegam na nossa estante como se fosse mágica, você percebe como que esse comportamento é errado e como estamos vivendo naquela fase de que “nunca é tarde para mudar“, eis algumas coisas que eu entendi parando de baixar eBooks gratuitos.

“Se eu gostar, eu compro” é a desculpa mais esfarrapada que existe

E me desculpem a franqueza, mas porque você vai gastar dinheiro para comprar um livro que você já leu? Eu sei que tem gente que realmente lê a versão digital e depois compra a física, mas com a nossa economia do jeito que está e com a quantidade enorme de lançamentos que chegam todos os meses nas livrarias, vocês realmente vão continuar mentindo para si mesmos sobre isso? Faz um ano que eu comprei o eBook de Amor para um Escocês e até hoje eu não comprei o livro físico, que era o meu plano inicial.

Além disso, vocês tem a péssima mania de usar a desculpa de “tempo de vacas magras” para justificar baixar o eBook de graça na internet e é neste ponto que eu apresento dois argumentos à vocês: a) Você não vai no Ponto Frio e diz que vai levar uma geladeira para casa e se você “gostar”, você volta para comprar” e b) Se você tem toda a intenção de comprar o livro em algum momento, o que custa esperar a Amazon ou a Saraiva fazerem uma mega promoção?!

E então vocês vão dizer: “Ah, mas eu não sei se eu vou gostar do livro”. Queridos, a gente nunca realmente sabe. Eu mesma já li muitos livros de autores que normalmente sempre me encantam e não gostei. Minha resenha de Confesse, da Colleen Hoover é a maior prova disso. Então essa desculpa de que você tem que experimentar para saber se gosta primeiro só funciona para roupa e calçados, tá?

Parece que você está ajudando o autor, mas na verdade você está prejudicando

Sempre que eu entro nesse assunto com alguém, a pessoa argumenta que ela vai falar do livro para outras pessoas e que a divulgação “boca a boca” é a melhor que tem. E eu não discordo disso. Porém, se você fala sobre um livro para 6 amigos e repassa o arquivo pirata para essas pessoas, a sua divulgação gerou leitores para o autor, o que é maravilhoso, mas ao mesmo tempo não gerou nenhuma venda e, eu espero mesmo que vocês saibam que boletos não se pagam com amor.

Quando eles falam que ser autor no Brasil é difícil, eles não estão sendo dramáticos. Mesmo aqueles que são publicados por editoras cortam um dobrado para fazer com que os seus livros têm uma boa tiragem. E é justamente neste ponto que a galera do eBook pirata erra. Quando você baixa o livro de forma irregular, o autor deixa de fazer uma venda e se o livro não está sendo vendido, a editora não terá interesse em renovar o contrato e além de não receber pelo livro, o autor também perde a oportunidade de dar continuação ao seu trabalho.

Entendem onde eu quero chegar? É quase que um ciclo, nunca termina. Quanto mais vendas um autor nacional tem, maiores são as chances de nós conseguirmos mais livros desse ser iluminado que colocou nas nossas mãos personagens maravilhosos. E se vocês insistem na pirataria, não só estão prejudicando o trabalho do autor, como estão fazendo com que ele se sinta desmotivado na hora de escrever.

Escrever livro é um emprego tanto quanto qualquer outro emprego que você conheça

Sim, é trabalho. Empreendimento. Investimento. Ele pode não precisar de uma contratação CLT, ou o pagamento de uma conta de MEI, mas quando você decide que vai se tornar um escritor, você está dizendo que encontrou um novo trabalho e todo o trabalho precisa ter uma renda, nem que ela seja mínima. Apesar de vocês acreditarem fielmente que “livros deveriam ser gratuitos”, se você entrar em qualquer site internacional, você vai perceber que a maior parte das editoras percebe os autores como uma “empresa” e porque no Brasil precisa ser diferente?

Sei que muita gente pensa que escrever um livro é fácil, mas não é. Se fosse assim, todo mundo seria escritor hoje em dia. Não é só pensar no enredo, você precisa pagar alguém para revisar o seu livro, diagramar, criar uma capa e, quando você consegue finalmente ter o arquivo do seu eBook pronto, ainda existe os investimentos em Facebook Ads, Instagram Ads, gastos com sorteios, promoções, material de divulgação, investimentos em parcerias etc. Esse dinheiro precisa voltar para o autor de alguma forma, afinal não existe um Criança Esperança dos livros, não é?

Eu sei que, como leitora, é horrível querer ler um livro e simplesmente não ter um tostão furado no bolso, mas eu me sinto desrespeitando o trabalho de um autor quando eu baixo conteúdo de forma irregular. E como blogueira eu meio que me sinto na obrigação de não fazer isso, afinal, eu também levanto a bandeira de que o meu trabalho vale dinheiro e eu mereço receber por isso, não é mesmo?

Agora me conta, o que vocês acham sobre baixar livros de graça? Vocês baixam? Compram? Vamos debater.

Débora Costa ver todos os artigos
Escritora melancólica nas horas vagas, publicitária hiperativa no dia a dia. Viciada em Oasis, uma eterna apaixonada por Beatles. Leitora compulsiva de livros de steampunk. Futura autora de um livro sobre viagem no tempo.

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10 Comentários

  • […] muito boa, ter publicações planejadas, saber o que você quer falar e como você quer falar. E depois que você tem tudo isso definido, você precisa produzir todo esse conteúdo, o que vai além de ser apenas bem escrito, mas também […]

  • […] quando eu falei do famoso “se eu gostar, eu compro”? Do lado de cá, dos blogueiros, isso rola bastante. Quantas propostas eu não recebi dizendo que me […]

  • Bom, eu tinha uns 200 livros piratas no meu kindle quando descobri que existia livro pirata. Tal qual download de séries e filmes, eu achava que se estava na internet, era legal e não prejudicava ninguém. Não que se soubesse deixaria de baixar. Comprei o kindle porque tenho problema de coluna e carregar o livro físico na bolsa ou mochila não me ajudava. Mas mal sabia o que era um leitor digital e logo a versão que adquiri se tornou obsoleta. Por anos (sim, anos) tentava baixar livros da Amazon pro meu kindle e não ia até que este ano, 4 anos depois da compra, descobri que eu precisava fazer duas atualizações do software do aparelho.
    Mesmo assim não deletei nenhum dos livros piratas que baixei anteriormente.

    Tal qual a opinião dos escritores/editoras sobre o assunto, achei que seu artigo não fez o recorte necessário. Eu fico esperando que alguém, ao trazer este assunto á toa, mostre soluções e não apenas aponte dedos para os leitores e digam “Vocês são ladrões”. Porque diferente do ladrão que rouba um celular, dinheiro na rua, as pessoas que baixam livros piratas são leitores que não têm acesso ilimitado a livros.Não fazem isso de maldade.

    Livro é caro, não só no Brasil. E nesse debate esquecemos de um detalhe: quem baixa é adolescente e jovem numa faixa que vai, sei lá, dos 12 aos 28 anos. Pessoas de meia idade não fazem isso. Pessoas de meia idade que não estão por dentro do mercado sequer aguardam promoções. Entram nas livrarias – ou acessam o site -, colocam o livro desejado no carrinho que julgam que o preço é razoável e compram. Acabou.
    E essa turma de adolescentes e jovens baixa não porque querem ser malandros, mas porque quem os banca são seus pais (no caso de adolescentes) ou estão desempregados nesta crise do país que não emprega ninguém. E essa galera vai continuar baixando livro pirata porque não tem dinheiro para adquirir a quantidade de livros que desejam tal qual as booktubers e instagrammers que adquirem por meio de parceria ou presente de seguidores. Não quando os livros custam 40 reais. Então, imagine um jovem de 17 anos seguindo contas e mais contas de pessoas fazendo bookhaul ou unboxing de vários lançamentos das editores sabendo que naquele mês, entre os milhares de livros que foram publicados, terá que comprar um que ele/ela vai ler em 2 semanas e terá que aguardar talvez o mês que vem, talvez o próximo, talvez 4 meses para comprar outro.
    Vejo esse debate de livros circular entre a classe média que parece esquecer que existem pessoas extremamente pobres no mundo. Qual mal têm um quarto, que dirá uma estante para abrigar os livros.
    Vejo esse debate de livros circular e suspeito que muitos esqueçam que existem famílias que não valorizam a leitura e não estimulam seus filhos a lerem. Não levam à Bienal e quando autorizam que vá com a escola, dão 20 reais pra criança/adolescente comer e comprar livro porque não fazem ideia dos preços da feira.
    Vejo esse debate com livros circular e gente falando “mas tem as bibliotecas” e suspeito que ela esqueça que a) nem toda cidade/país tem biblioteca; b) o acervo não é atualizado e sabemos disso.

    Me lembro da Victoria Ayeyard (sl como se escreve) reclamando que Tempestade de guerra estava em epub pirata e uma seguidora se desculpou e escreveu que ela tinha 15 anos e, no momento, além do dinheiro para compra de livros vir dos pais, a cidade dela foi devastada por um furacão e a biblioteca foi destruída. Cara, ela nem podia sair de casa. Então o livro pirata de Tempestade de guerra era o que a estava ajudando a se distrair dessa situação pavorosa.

    Lembro quando o ocean of pdf foi derrubado e uma escritora estava debochando de quem estava triste dizendo que aquilo era roubo e “que tal você comprar o livro” e uma moça falar: “Eu sou da Arábia Saudita. Não só livros em inglês são MUITO caros aqui e não acho nas bibliotecas como muitos são forem censuras.”

    • Inclusive, acho graça nesse debate quando se trata de livros estrangeiros. Livros em inglês são caros em lojas físicas e online e demora para o preço baixar. Se o leitor deseja praticar a leitura do inglês, compra aquele único livro de 60 reais e lê uma página por dia. E torça pro livro ter 300 páginas para dar tempo de quando finalizá-lo poder comprar outro. Mas o leitor de livros em inglês ainda está no lucro pq, pelo menos, ele/ela ACHA livro pra comprar no Brasil. O que deseja ler livros em espanhol não tem tanta sorte. O que deseja ler em francês tem menos ainda. Alemão, russo, chinês, japonês, etc, etc… melhor desistir. E com o dólar subindo e os impostos e a zona dos correios que perde mercadoria como quem respira… melhor desistir de ler?
      Por isso aguardo soluções dos profissionais do livro. Sério. Porque com todos os argumentos expostos por eles (profissionais do livro e relacionados) tudo o que escuto quando eles falam que é roubo, que vá procurar em biblioteca, que procure na Bienal, que troque entre amigos (SE a pessoa tiver amigos, SE o amigo tiver gosto por leitura e SE for o mesmo que o seu), que procure em grupos de venda e troca de livros (que pra dar essa solução, acho que a pessoa nunca trocou ou vendeu livros por esses lugares para saber como são insuficientes) é: ou você tem dinheiro pra comprar o físico, ou não te queremos como leitor. Apesar de na orelha do livro dizermos o que quanto você é importante pra gente.

      Tal qual teatro, cinema, viagem e educação, livro se tornou algo para poucos.

  • Lily Viana
    31 ago 2018

    Olá!
    Existe e-book piratas?! nem sabia…Sou mais ler livros físico e as vezes leio pelo kindle quando realmente dar para compra né..Mas seus argumentos realmente são validos. Temos que aprender a espera sempre!

    Meu blog:
    Tempos Literários

  • Iêda Cavalcante
    30 ago 2018

    Oi Débora!
    Concordo dem partes com você, todos sabemos que os livros piratas, na maioria das vezes sempre trazem prejuízo, um ou outro autor saiu “ganhando” já que seus livros não tinham sido lançados no país, e por conta das traduções “piratas” se tornaram conhecidos e foram lançados por aqui.
    Porem tem a questão do preço mesmo, imagine eu desempregada, me virando nos trinta pra pagar faculdade e arcar com os custos que essa me traz, vou querer comprar um livro, que seja ebook mesmo, e ta lá mais caro que o físico. Ou vou querer um livro nacional na pré venda e não sai a menos de trinta reais.
    O mercado no Brasil é muito complicado, querem que a gente largue a pirataria, mas não vejo nada sendo feito a respeito. Os livros internacionais chegam aqui mais barato que os nacionais.
    Difícil ser leitor no Brasil!

  • Elizete Silva
    30 ago 2018

    Olá! Com certeza a pirataria dos livros desmotiva bastante o autor a escrever novos livros, já que ele não consegue ter a verdadeira noção dos resultados do seu trabalho, mas convenhamos às vezes um e-book está mais caro que o livro físico, e isso também desmotiva o leitor, mas não justifica a aquisição de livros piratas. Acredito que esse mercado, ainda tem que melhorar bastante aqui no Brasil.

  • Dani
    30 ago 2018

    Oi, Débora.

    Eu confesso que já li muitos livros piratas, mas depois que comecei com o blog, as parcerias e com o meu curso na faculdade, faço Produção Editorial e não seria nada legal eu baixar de forma ilegal sendo que no futuro eu estarei trabalhando com publicação de livros; com isso, eu acabei parado com esse hábito. Eu já comprei vários livros depois que li a versão digital, eu gosto de ter a versão física na estante, pode demorar um pouco, mas acabo comprando depois. Eu, quando não posso comprar algum livro, espero uma boa promoção, peço para alguém ou consigo através de trocas. Esse assunto é bem complicado e eu adorei ler a sua opinião sobre isso.

    Beijos,

  • Daiane Araújo
    29 ago 2018

    Oi, Débora,

    É sempre válido e relevante pensar no lado do autor, ao cometer tal ato. Também não vou negar que já baixei livros ilegalmente, mas tenho me esforçado para que isso não aconteça. Tenho livros super desejados, mas até agora, não li nem a metade da metade deles, pois ainda não os tenho e eu só vou lê-los quando eu comprá-los. É uma meta minha e que tem dado certo!

  • Kleyse Oliveira
    29 ago 2018

    Bom dia Débora!
    Eu as antes baixava muito livro em PDF, um exemplo foi o livro da Mia Sheridan A voz do Arqueiro, foi assim que conheci a escrita dela, mas naquele época eu não trabalhava e nem sabia da Amazon.
    Sim, de vez em quando muito raro eu baixo uns PDF de histórias que quero ler e não tem como comprar o físico.
    Mas é um assunto muito complicado mesmo esse sobre PDF etc.

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