SOSELIT 24maio • 2018

SOSELIT #5 Chega desse preconceito literário

Quando eu estava no primeiro ano do ensino médio, eu tive um professor de literatura que costumava dizer que qualquer leitura contava como leitura, sendo jornais, quadrinhos ou até mesmo se a sua paixão literária fosse ler aquelas mensagens que vinham enroladas no Serenata de Amor. Eu nunca me esqueci dessa frase porque, naquela época, a minha maior paixão literária era ler fanfic do McFly na internet e meio que isso fazia com que eu me sentisse um pouco melhor por estar lendo, mesmo que não fosse exatamente o que as pessoas consideravam “leitura de verdade”.

Ultimamente nós temos passado por várias “tretas” literárias em torno do que as pessoas consideram “literatura de verdade”. Começou com alguns comentários idiotas no Facebook, mas a coisa explodiu mesmo quando a TAG disparou aquele e-mail falando que não enviariam Young Adults nas caixas deles – o que é uma pena porque eu realmente pensei em assinar, mas eles não vão mandar os livros que eu quero ler, então nem vale tanto a pena assim. A questão é que todas essas confusões mostraram que nós vivemos em um meio cheio de preconceitos e policiamento literário desnecessário e foi por isso que nós decidimos que este seria o tema do SoSeLit deste mês.

Vejam, eu adoro ler. É um dos meus poucos prazeres nessa vida e um dos motivos de eu manter esse blog funcionando por cinco longos anos. Falar de livros é a minha diversão, o momento do meu dia em que eu relaxo e embarco em um universo completamente novo. Leitura é para mim – e para muitas outras pessoas, uma forma de escapar da rotina e viver o impossível através de algumas páginas extraordinárias de romances, fantasias, mistérios etc. Escolher a próxima leitura é uma das coisas mais difíceis para qualquer leitor apaixonado e agora, além disso, eu tenho que ficar me preocupando com o que as pessoas consideram “leitura de verdade”? Calma aí.

Eu vi um autor nacional num grupo do Facebook falando justamente disso outro dia. Basicamente ele afirmava que não poderíamos considerar leitores de verdade pessoas que gostavam de ler livros como romances de época, Young adults, new adults etc. porque esses livros não acrescentavam nada na vida dos leitores, pelo menos não tanto quanto um Dom Casmurro acrescentaria, aparentemente. E então eu me pergunto: Qual é o problema dessas pessoas? Qual foi a regra que elas criaram na cabeça delas que apenas livros clássicos ou de filósofos importantes são dignos de serem consideradas leituras relevantes?

Eu lembro de ler Anna e o Beijo Francês na escada da minha faculdade quando eu estava no meio de uma crise de ansiedade. Aqueles personagens da Stephanie Perkins, em toda a simplicidade do seu enredo, me ensinaram muito sobre maturidade emocional, sobre esperar o momento certo e sobre correr atrás do que você realmente deseja. Foi por causa desse livro que o La Oliphant nasceu e eu comecei a me dedicar a compartilhar tudo sobre as minhas leituras com vocês e, na época em que o blog surgiu, foi uma época que eu precisava muito dele.

Também me lembro de aprender muito com Minha Vida Não Tão Perfeita, da Sophie Kinsella. Um livro que fala sobre redes sociais e a nossa mania ridícula de manter a aparência de ter uma vida perfeita. Com A Corte de Rosas e Espinhos eu me comprometi a falar sobre stress pós-traumático, relacionamentos abusivos e a recuperação emocional das vítimas – e isso tudo em um mero livro de fantasia, tá? E todos os outros livros na minha estante que me ensinaram tantas coisas sobre a vida e que, em muitos momentos, foram mais mentores para mim do que as pessoas que fazem parte da minha vida. E agora eu pergunto a vocês, qual o valor desses livros?

Essa ideia absurda de colocar tudo dentro de caixas separadas. Não é só com livros, com músicas e filmes isso também acontece. Você não precisa se sentir menos culto porque você gosta de todos os livros do Harry Potter e nunca leu uma Jane Austen na vida. E também não precisa se sentir inferior por não ter visto nenhum dos filmes exibidos no Cannes, mas saber o nome de todos os membros dos Vingadores de cabeça. O que eu mais gosto no mundo é que existe espaço para todo o tipo de gosto, todo o tipo de pessoa e todo o tipo de aprendizado. O que te impede de ter experiencias novas não é o filme que você assiste, ou o livro que você está lendo, mas sim a quão aberta está a sua mente para ver as coisas com outros olhos.

Eu acredito que todos os livros têm algo de bom para acrescentar, se você estiver disposto a deixar que eles façam isso. Eu nunca li grandes nomes do feminismo na literatura, mas eu entendi o que é girl power, empoderamento e sororidade através de livros de fantasia, de romances de época e young adults que traziam o assunto de uma forma diferenciada e que me proporcionavam viver aquilo através de suas páginas. Eu sou uma leitora cuja maior parte dos livros na estante são young adults, new adults, fantasias e comédias românticas e eu não me sinto uma leitura inferior por causa disso.

Esse é aquele caso clássico de “os outros tomando conta da vida dos outros”, algo que eu sou totalmente contra e que deveria parar. Ler deveria ser uma coisa boa para todo mundo e não mais uma forma de você classificar as pessoas, ou mesmo intimidá-las. Todo o tipo de livro pode ter um impacto positivo na sua vida, não importa qual tipo de leitura seja. Inclusive, minha mãe está lendo a trilogia de A Seleção e adorando, logo ela que sempre leu apenas clássicos, não é mesmo? Eu acho que a gente precisa muito focar mais em buscar coisas boas para nós mesmos do que gastar tempo criticando o que as outras pessoas estão lendo.

Não deixe de conferir os posts: Eu Insisto, LivroLab, Barda Literária, My Dear Library, Pétalas da Liberdade, Um Metro e Meio de Livros.

Débora Costa ver todos os artigos
Escritora melancólica nas horas vagas, publicitária hiperativa no dia a dia. Viciada em Oasis, uma eterna apaixonada por Beatles. Leitora compulsiva de livros de steampunk. Futura autora de um livro sobre viagem no tempo.

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11 Comentários

  • suzana cariri
    30 jun 2018

    Oi!
    Sinceramente eu fica triste ao ver que até hoje existe esse preconceito literário, sempre pensei que o importante para todas as pessoas, principalmente para os educadores e é quem isentiva a gente a ler, seria ler, independente se você esta lendo aqueles livros de contos de fadas ou uma revista cientifica, leitura é algo muito pessoal da pessoa, por isso tem como varias pessoas lerem o mesmo livro e cada uma senti algo diferente, e não tem como algum falar que eu não estou aprendendo com aquilo que escolhi ler, pois toda minima coisa que a gente ler sempre ensina algo e se alguém fala que não ensina e porque não esta sabendo interpretar a leitura !!

  • Ana Carolina Venceslau Dos Santos
    30 jun 2018

    Eu também fico muito revoltada com essa atitude de possíveis leitores de vir em definir o que é realmente literatura literatura para mim é toda aquela palavra escrita se uma pessoa tem preferência em ler livros de romance de época deixa cara mas se ela prefere ler livros de filosofia contemporânea ou até mesmo terror O gosto também é dela E isso não o define o que é ser leitor ou não

  • Jade Sibalde
    31 maio 2018

    O maior problema das pessoas é essa ideia idiota de o gosto delas ser superior ao dos outros. É incrível como as pessoas esquecem que clássicos de hoje eram livros populares de antes, como O Conde de Monte Cristo ou os romances de José de Alencar. O importante para um livro é acrescentar algo para seu leitor, esse acréscimo pode ser desde uma lição para a vida até um simples momento de diversão para fugir da rotina massante. Não cabe a ninguém julgar o que vale ou não ser lido a não ser o próprio leitor. Tenho na minha estante vários clássicos ao lado de livros jovens e romances e não considero nenhum superior ao outro, todos me ajudaram a crescer a sua maneira.

  • Elizete Silva
    28 maio 2018

    Olá! Uau, simplesmente maravilhoso seu texto. Eu concordo que qualquer tipo de leitura é válido também aprendi muito durante as minhas leituras. Acredito que se a pessoa faz o que gosta e lê o que tem vontade, acaba tornando a leitura ainda mais prazerosa. Quantas vezes me vi sofrendo para estudar a apostila daquela matéria horrorosa, mas devora um livro de mais 600 páginas em 1 dia. O mundo precisa de menos mimimi e mais amor.

  • Micheli Pegoraro
    27 maio 2018

    AMEI o seu texto Débora, arrasou!
    Adorei essa conversa que você trouxe nesse post, preconceito linguístico é um assunto que rende muita discussão. Com tantos assuntos mais importantes para o povo discutir, eles vão lá se implicam com o que lemos? Que pensamento mais primitivo, temos muito que evoluir ainda, as pessoas ainda não conseguem respeitar as diferenças. Está na moda rotular preconceito pra todo que é lado, de todo tipo, já estamos saturados de tanta discriminação e os ignorantes vão lá e criticam o que os outros leiam?
    Amo romance clichê, previsível e bobo. Amo romance de época, chick-lit, suspense, fantasia e, amo um bom drama. Minhas leituras variam muito de acordo com a minha semana, tem dias que prefiro ler algo mais leve, como tem dias que prefiro uma história mais impactante e emocionante.
    Temos que ler o que nos faz feliz sim!
    Beijos

  • Bruna Lago
    25 maio 2018

    Como assim romances de época não acrescentam em nada? Esse é meu gênero favorito e grito bem alto pra quem quiser ouvir! Não tem nada melhor que ler algo tão leve, tão romântico e que faz a gente buscar o melhor pra nós. Sempre que a faculdade tá num nível estressante, uma das coisas que me faz relaxar é ler, as pessoas até acham isso engraçado (mas como Bruna, você estuda e pra relaxar você vai ler?) Sim, ler está na minha lista de preferência e não tenha quem me faça desistir dos meus livros por achar que eles não acrescentam em nada. Que decide isso sou eu!!

  • Ludyanne Carvalho
    24 maio 2018

    Os posts do SoSeLit
    Concordo com tudo.
    Muitas vezes senti vergonha em comentar em determinado post por achar que o meu gosto não é literatura de verdade.
    O triste é que muitas vezes somos contaminados por esses pensamentos ignorantes, e a literatura é tão vasta.
    Amo YA, New Adult, um bom drama e esse ano estou me aventurando na fantasia. Todos os livros que li me deixaram algum ensinamento, enriqueceram meu vocabulário ou apenas me ajudaram a relaxar, distrair.
    Já li Fiodor D…, Jane Austen e outros clássicos, mas eu amo mesmo é ler livros que se tornarão clássicos.

    Beijos

  • Lili Aragão
    24 maio 2018

    Palmas pra esse seu texto, eu concordo com cada linha, alias eu ia lendo e pensando que todos os livros que li até hoje com certeza me influenciaram positivamente, aprendi muito ao longo das páginas que li, e enquanto pensava isso eu li essa parte em seu texto, que todos os livros tem algo de bom pra acrescentar e assim, só posso dizer que assino em baixo de suas palavras. Sobre a polêmica da TAG não acompanhei mas acho surpreendentemente triste uma empresa excluir uma parcela importante do mercado de compradores e sinceramente a empresa deve perder com isso, mas cada um faz suas escolhas e elas devem ser respeitadas, e respeito é a palavra chave aqui, cada um tem o direito de escolher o que quer ler e não cabe a outro leitor julgar se a leitura é “verdadeira ou não” porque ele lê clássicos e o outro prefere fantasia.

  • Bianca Melo
    24 maio 2018

    Amei essa soselit ♥ Muito necessária!
    Acho que o maior problema não é apenas com a leitura, todos se metem na vida de todos e acaba gerando esse ciclo vicioso em que um dita regras para o outro achando que tem esse direito. É simplesmente “não, não tem”. As pessoas têm que ler o que quiserem, sem precisar serem julgadas por isso (é um direito básico, certo?). Nem todos têm paciência para ler um clássico ou leituras complexas e floreadas. Ler um Young-Adult ou New-Adult não faz de ninguém mais ou menos ignorante (literariamente falando). É uma mania que o ser humano tem de se mostrar erudito e superior… gente, que coisa arcaica!

  • Theresa Cavalcanti
    24 maio 2018

    Débora, mulher, que texto maravilhoso! Infelizmente ainda exite muito preconceito com o que você ler, ou deixa de ler.
    Lembro que quando eu estava lendo 50 tons de cinza, muita gente me criticou, falando que eu gostava de ler putaria. Mas não é isso, lendo aquilo, eu tava aprendendo sobre as pessoas que curtem um pouco de violência na hora do sexo. Antes, eu não fazia ideia de que isso existia e logo no começo só fiquei jugando os personagens por isso. Mas acabei aprendendo que não é da minha conta o que um casal faz, (com o consentimento dos dois é claro), se eles gostam ou não, não me interessa.
    Aprendi bastante com Como eu era antes de você, nunca tinha visto nada sobre suicídio assistido, e quando comecei a entender o que levou o personagem a pensar nisso, você fica pensando: E se fosse eu no lugar dele? E se fosse eu sofrendo dia e noite, sem chance de me recuperar e sentindo dores enormes?
    Isso foram coisas que eu aprendi ainda nos meus 15/16 anos! E que eu nunca iria aprender na vida, se não fosse as leituras desses livros.

  • Kleyse Oliveira
    24 maio 2018

    Oi Débora!
    Você tem total certeza, muita gente não lê certo tipo de livro pois não gosta ou não trás ensinamentos nenhum. Eu era esse tipo de pessoa, eu só lia livros com histórias leves como romances, Comédia, etc. Mas nunca lia terror, Ficção científica, Aventura, Fantasia, mistério/ suspense ou thriller no geral pois tinha muito receio. E desde que eu criei meu ig já li quase todos esses gêneros que eu não lia. Esse é o mau de alguns leitores, não ler mas nem tentou experimentar tal gênero, vai que ele gosta. Adoreeeei esse post, foi como um choque de realidade para mim e espero que seja para outras pessoas também que tem preconceito literário.

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