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A representatividade negra na literatura e como ela apareceu para mim

Minha mãe diz que eu aprendi a ler bem cedo, e que minha primeira Bienal do Livro foi lá pelos meus dois, três anos de idade. Dali em diante eu nunca mais abri mão da presença de livros na minha vida. Cresci como leitora voraz, e me lembro que desaparecia por horas durante uma leitura e outra, tudo porque escolhia lugares como o cantinho do sofá na sala, na certeza de que, se eu ficasse ali quietinha, poderia ler sem ser incomodada. Hoje, aos 23 anos, a única diferença é que eu preciso me planejar bem se quiser ler algo tranquilamente, já que tem as leituras da faculdade (onde eu preciso ler mais e mais livros, já que, para a surpresa de absolutamente ninguém, eu fui parar em Letras!) e os horários apertados entre aulas e deslocamento.

Eu realmente sempre fui apaixonada por livros e sei bem que vocês me entendem quando digo que, normalmente, a primeira coisa que notamos numa leitura é como os personagens nos agradam ou se parecem com a gente, e como algumas de suas ações ou características criam aquela sensação de identificação. Essa ligação com personagens é ótima, mas quando se é uma criança negra – que foi o meu caso – e percebe que todas as princesas tem o cabelo liso e brilhante e peles alvas como a neve e bochechas rosadinhas, isso pode ser um pouco incômodo: um gênero literário como o infantil, que é tão cheio de princesas, mas que não possui uma sequer com o cabelo enroladinho e a pele preta.

A sementinha da falta de representatividade, que é o nome disso, já foi plantada, e os frutos dela são bem amargos. Na adolescência é um tanto quanto devastador quando você se dá conta de que só meninas belíssimas, mas que não são negras, ficam com os carinhas das bandas ou com os personagens principais.

Você nota que as meninas estão sempre ajeitando seus cabelos lisos antes de sair com o senhor príncipe encantado, ou que nunca tem uma personagem negra e forte, não secundária, para servir de espelho. Daí você desiste de buscar representatividade nos livros e tenta se convencer de que eles são um péssimo lugar para buscar isso. Ah, isso se você chegou a se perguntar o motivo. Do contrário, a questão só vai ficar ali, calada e fazendo um barulhinho durante as suas leituras, mas nunca respondida, nunca solucionada. Confesso que eu demorei a escutar e responder essa pergunta interna, mas, desde então, venho tentando recuperar o tempo perdido.

A primeira autora que me fez ver que, sim, eu poderia me sentir representada – e muito bem, obrigada – em meio às páginas dos livros foi a Chimamanda Ngozi Adichie. Descobri a Chimamanda em um post citando Americanah, no Goodreads, ou em alguma resenha do Youtube e, muito curiosa e empolgada, decidi ler sem tradução mesmo, porque eu nasci de 7 meses e sou desesperada. A autora é nigeriana e publicou títulos como Americanah, Meio Sol Amarelo, Hibisco Roxo, Sejamos todos feministas, dentre outros. Já faz um tempo que seus livros, não vou negar, serviram como porta de entrada para que eu começasse a reclamar bastante pela falta acesso e divulgação de autoras negras, personagens negras e fortes, onde a história não se desenrolasse de modo pejorativo por conta de sua raça.

A Octavia E. Butler é também foi uma autora que conheci muito por acaso, muito recentemente e que, inclusive, estou terminando de ler um de seus livros. Ela é afro-americana e escreveu vários livros de ficção científica feminista, tendo como tema, geralmente, racismo e preconceito. Informação importante que eu não fazia ideia até pesquisar para esse post, é que ela foi a primeira autora negra de ficção científica a ser reconhecida internacionalmente por seu trabalho que, por sinal, eu descobri acidentalmente enquanto comprava livros na Amazon usando um cupom de desconto.

O escolhido foi Kindred – cujo tema é escravidão e, com a sorte de estar estudando literatura norte-americana nesse momento, pude ver o quão bem embasado é – e realmente me senti impactada durante a leitura dele, que me serviu de convite para as próximas obras dela. Tem uma citação deste mesmo livro que talvez mostre o quanto a escrita de Butler seja forte, e eu vou coloca-la traduzida logo abaixo.

Sociedades repressivas sempre pareceram compreender o perigo das ideias “erradas” –  Octavia E. Butler, Kindred

Uma outra mulher incrível que também me prende a atenção demais, apesar de não ser por meio de seus livros – já que ainda não os li-, mas por seus roteiros, é a Shonda Rhimes, autora do livro O Ano em que disse Sim, recém publicado no Brasil, e roteirista de séries consagradas como Grey’s Anatomy, Scandal, How to Get Away with Murder e outras. Nas séries, ao menos nas três citadas e que são as que assisto, o que não falta é mulher negra empoderada, de todo o tipo, de diferentes realidades.

Descobrir que existiam essas possibilidades de me enxergar em uma personagem tão parecida comigo, principalmente fisicamente, de dividir os mesmos dilemas na hora de pentear o cabelo ou de ver que existem heroínas disponíveis para que eu me sinta representada foi muito importante para mim e para minha formação, ainda que seja algo recente – o ser humano está em constante formação e evolução, afinal.

Minha vida acadêmica e cultural se modificou bastante, visto que eu resolvi que pesquisaria e me esforçaria para ter contato com mais desse conteúdo, dar mais visibilidade às autoras negras e poder passar isso para minhas priminhas que estão crescendo e correm o risco de passar pelo mesmo que eu passei, ou até para meus filhos, minhas filhas, no futuro. Eu demorei a questionar e procurar solucionar minha dúvida. Eu demorei a descobrir que tinha sim uma variedade de autoras negras para mim e, infelizmente, demorei a ter contato com as autoras negras brasileiras, mas esse já é assunto para um outro post!

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Rafaela Rodrigues

Formada em Letras Port/Inglês/Literaturas, viciada em livros, textos e séries, clichê de sempre. É prima (bem) distante da Beyoncé e um dia vai ser dona de uma editora e lançar todas as continuações dos livros que gosta, mas que nem os próprios autores quiseram escrever.

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  1. Amanda comentou:

    Me identifiquei tanto com esse post que nem sei por onde começar. Digo só que ainda também preciso ler mais autoras negras, tô com o livro Hibisco Roxo emprestado faz um bom tempinho e nunca peguei pra ler, acho que seu post me motivou muito, já que eu já li aquela palestra que ela deu no TED. Também não conhecia Octavia E. Butler, acho que vou procurar algum ebook dela para conhecer sua escrita.

    Post maravilhoso, me identifiquei, também faço Letras! hahah <3

    Livros que Li

    1. Oi, Amanda, tudo bom?!
      Então, fico feliz que tenha se identificado porque isso significa que cê tá em contato com autoras negras e isso é muito legal! Principalmente pra uma futura profissional da área de Letras, que deve ter um repertório bem amplo e, melhor ainda, que contemple de fato as pessoas, né? 😀
      E obrigada pela leitura!

    1. Olá, Jhenny!
      Obrigada! Bem, nunca é tarde pra pegar num livro e se apaixonar por ele, vamos combinar! E espero que você siga no mundo dos livros <3

  2. Mari comentou:

    Representatividade é essencial, sim. Isso de só protagonistas de pele branca dominarem o mundo das histórias infantis é algo que deve acabar. Amei conhecer as autoras que você apresentou, acho que só conhecia a primeira. Vou procurar saber mais das outras!
    Beijos
    Mari
    Pequenos Retalhos

    1. Oi, Mari, tudo bom?!
      Concordo com você, eu acho que todo mundo deveria poder se enxergar dentro dos seus livros favoritos! E isso é realmente importante pras nossas crianças e adolescentes, que estão tendo suas personalidades formadas! 🙂
      xx

  3. Olá!
    Adorei sua postagem, você catucou fundo a ferida de muita gente. rsrs
    Estou lendo atualmente Tudo e todas as coisas que tem como protagonista uma Afro-americana. Já li A Cor Purpura que fala de racismo e claro a protagonista e negra. Geralmente são os melhores livros pra mim, me emocionam e me faz refletir dos nossos atos passados e presentes.
    Parabéns pela postagem novamente!
    Abs
    Nizete
    Cia do Leitor

    1. Olá, Nizete, tudo bom?!
      Obrigada por ter lido! Bem, queria eu que isso não precisasse ser feito, não é?! Eu tô doida pra ler Tudo e todas as coisas, vou aproveitar as férias pra isso. A Cor Púrpura também é maravilhoso, comprei há uns meses e também estava esperando as férias! É um livro bem forte, né?!
      xx

  4. Olá Rafaela, adorei seu post, nunca parei para pensar sobre quantos autores ou especificamente pelo post autora negras eu já, mas já reparei e muito das protagonista sempre seguirem esse padrão meio que pré-estabelecido de beleza e ser raro personagens negras que são representadas como belas e fortes =/ Ainda não li nenhum livro das autoras citadas, mas já anotei para ler quando tiver uma chance =)

    1. Rafaela Rodrigues comentou:

      Hey Jéssica, obrigada! É legal quando a gente reconhece alguns problemas nas coisas que a gente gosta e começa a questionar. Questionar e problematizar não significa que algo é necessariamente ruim, ou que mudanças bruscas devam acontecer, mas, nesses casos, a gente pode fazer algo pequeno e positivo, como colocar na lista de leitura, né?!