Resenhas 29abr • 2018

10:04por Ben Lerner

O livro no Skoob e no Goodreads.

Título Original: 10:04
Gênero do Livro: Ficção, Romance
Editora: Rocco
Ano de Publicação: 2018
Número de Páginas: 272
Código ISBN: 9788532530295

Obs: Este livro foi cedido em parceria com a editora para resenha.

Comprar: Amazon

Sinopse: Segundo romance do autor do aclamado Estação Atocha, 10:04 alçou definitivamente o nome de Ben Lerner ao olimpo da ficção literária contemporânea. No livro, que possui boas doses de autoficção e metalinguagem, o narrador, Ben, vive numa Nova York turbulenta, ameaçada por terremotos, furacões e convulsões sociais. Neste cenário um tanto desolador, Ben é diagnosticado com uma síndrome cardíaca potencialmente fatal, ao mesmo tempo que recebe um gordo adiantamento por um livro que ainda não escreveu e uma proposta de conceber um filho com sua melhor amiga. Enquanto reflete sobre a iminente extinção da cidade, a angústia de uma paternidade não programada e os desafios de escrever em tempos tão instáveis, o narrador constrói um romance dentro do romance, em que vislumbra, com uma prosa poética, intimista e bem-humorada, os múltiplos futuros que podemos habitar e as conexões que ainda precisamos formar.

10:04 é um romance metalinguístico escrito por Bem Lerner e publicado em 2018 pela editora Rocco. Nessa metaficção personagem e autor se confundem, entre toda a sinfonia da vida. Vemos o nascer da escrita e como ela reflete o mundo aos olhos de um escritor.

O romance é narrado em primeira pessoa por um escritor que recebe um adiantamento para transformar um conto publicado na New Yorker em livro, ao mesmo tempo ele descobre ter uma dilatação na aorta, assintomática e possivelmente fatal, ou não, resta apenas manter um monitoramento e aguardar uma cirurgia. Infelizmente a vida não para nunca, mesmo que você enfrente momentos difíceis, mesmo que você descubra que se fizer algum esforço a sua aorta pode romper.

A melhor amiga do narrador resolve pedir que ele seja o pai de seu filho por inseminação artificial, a garota com quem ele sai parece pronta para abandona-lo a qualquer momento, um amigo escritor sofre um acidente, um furacão pode atingir Nova York, é melhor uma cirurgia no siso com anestesia local ou total?! O mundo está a sua espera do lado de fora e você tem que agir, escolher, rápido, o tempo todo.

“Gostaria de dizer que, enquanto o manifestante concluía o seu banho, eu me senti desassossegado com a contradição entre o meu materialismo político declarado e a minha inexperiência com este tipo de fazer, de poiesis, mas eu poderia driblar ou abafar essa contradição com o meu ódio à biopolítica de butique do Brooklyn, em que desperdiçar quantias obscenas e horas intermináveis no preparo de comida estilizada permitia de alguma forma a fusão do autocuidado com o radicalismo político.”

Ben Lerner, na verdade, usa o diálogo sobre o mundo atual e a inconstância da vida para falar sobre como é a escrita. Enquanto lemos as páginas de seu romance, encontramos similaridades entre Ben, o narrador do livro e o ‘autor’, personagem do conto da New Yorker. No livro, nosso narrador resolve aproveitar todo o material que o circunda para escrever um conto.

No conto ele muda o nome de seus amigos, médicos, namorada, modifica alguns pontos e conta a história de um homem que vai ao dentista arrancar o siso depois de descobrir um tumor no cérebro. Em ambas os mundos, real e ficcional, a doença talvez fatal, com a qual nada se pode fazer a respeito, serve de gatilho para que ele comece a notar o mundo. As coisas pequenas se tornam maiores. Sabendo que você pode esquecer de algo, perder alguma coisa, o bem se torna mais precioso.

Alguns pontos de nosso mundo atual, e da Nova York de hoje em dia, são bem retratados pelo livro. Momentos bem interessantes se passam no entorno do Occupy Wall Street, os meus diálogos favoritos se passam entre o narrador e um ocupante que pede para tomar banho no seu apartamento. Outro diálogo bem reflexivo se dá entre o narrador e uma colega enquanto ensacam mangas.

“Quando se levantou tarde na manhã seguinte e tomou o seu café – gelado para não prejudica a coagulação -, percebeu: eu lembro do caminho, da vista, de alisar o cabelo da Liza, da beleza incomunicável destinada a desaparecer. Eu lembro, o que significa que nunca aconteceu.”

Momentos bem comuns do dia a dia que dão material robusto para se refletir sobre a sociedade. Quem sabe esses mesmo momentos não servirão de inspiração para algum conto ou livro? Um diálogo bem precioso, e que vale a pena destacar, ocorre entre o narrador e sua filha imaginária. Toda a conversa serve como alegoria para um autor e sua obra, Bem Lerner se destacou aqui.

O livro me apresentou alguns pontos meio obtusos, o protagonista me pareceu vezes distante com seus conflitos de homem-branco-rico-americano, para alguém que vive no Brasil, seus conflitos e reclamações são um pouco estranhos. A presença feminina também é um pouco aquém. O autor é poeta, assim como os outros dois personagens, narrador e autor, isso gera momentos em que a prosa chega a ser poética. Para exemplificar um pouco como o uso da linguagem foi belo, deixo agora a descrição de um furacão aos olhos do escritor: “um monstro marinho aéreo de um olho só centralizado e em volta do qual rodopiavam tentaculares colunas de chuva”.

O romance de Ben Lerner é bom, mas talvez não seja recomendado para todo mundo. Se você tem problemas com metaficção, ou acha que isso é apenas um exercício de ego, o livro será deveras pedante. Vale como experiência, quem gosta de escrever vai achar o livro excelente. Recomendado com ressalvas, se você ficar na dúvida é bom dar uma olhada na Amazon, eles disponibilizam o início do livro, o estilo de narrativa é constante, então dá para julgar se vale a pena ou não o investimento.

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Beatriz Kollenz ver todos os artigos
Queria ser mesmo uma garota mágica, infelizmente não deu nessa vida. Amo borboletas, mangas shoujo, desenhos animados e livros. Quando não estou voando nas nuvens costumo tocar piano, assistir um dorama ou sentar ao ar livre. Apesar de ser leonina sou muito tímida, a vida é assim, repleta de contradições.

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9 Comentários

  • Iêda Cavalcante
    30 abr 2018

    Oiee!
    Até que tentei ver algo que me agradasse nesse livro, mas desisti sem encontrar muita coisa.
    Não é uma leitura que me agrade e provavelmente largaria o livro sem chegar na metade. Esse vou deixar passar.
    Bjs!

  • Vitória Pantielly
    30 abr 2018

    Oi Beatriz,
    Não sou de ler livros que tem linguahem metalinguística, eles sempre me confundem, rs, e sendo sincera, a própria resenha já me confundiu, primeiro porque não gosto tanto dessa forma poética de escrita, segundo porque achei a história meio sem pé nem cabeça, não se encaixa no que eu gosto!
    É como sempre digo, não é do meu gosto mais toda leitura é válida, vale a pena a indicação!
    Beijos

  • Theresa Cavalcanti
    30 abr 2018

    Oi Beatriz, não fiquei com muita vontade de ler esse livro! :/ Não achei a capa muito legal, nem a sinopse e mas se um dia eu ler, vai ser por causa da sua resenha.

  • suzana cariri
    30 abr 2018

    Oi!
    Achei esse livro diferente daquele mesmo que estamos acostumados, a ideia do autor me pareceu um pouco confusa, por envolver um real e uma ficção mas falando sobre o mesmo tema, mais ou mesmo o que acabamos fazendo quando lemos um livro, mas já com uma analise dentro do livro !!

  • Pamela Liu
    30 abr 2018

    Oi Beatriz.
    Achei da ideia de um narrador que também é o autor do personagem bem interessante. Gosto muito de histórias que retratam o cotidiano e suas problemáticas. Mesmo sendo algo simples, às vezes não damos a atenção necessária e o momento passa.
    Mas, ao ler o seu exemplo da narrativa poética fiquei receosa de ler o livro. Narrativas muito rebuscadas me cansam um pouco. Parece que leva mais tempo para chegar ao ponto e eu não consigo aproveitar a forma poética que é descrito.
    Beijos

  • Daiane Araújo
    30 abr 2018

    Oi, Beatriz.

    Buguei, um pouco…

    No entanto, acho que essa realidade versus ficção apresentada e tal doença, fez com que algo mudasse no personagem. Acho que algo positivo, né?

  • Ana I. J. Mercury
    30 abr 2018

    Aii gente, vocês me desculpem, mas não entendi muito bem, não.
    Acho que é aqueles livros que abordam diversos temas em cada instante e tem algo de mais poético, beeeeem reflexivo, e pra quem adora ler romanções como eu, não vai dar pra entender, não! kkkkk
    bjsss

  • Kleyse Oliveira
    29 abr 2018

    Oi Beatriz!
    Eu não conhecia esse livro, a história em si parece ser bastante interessante. Vou adicionar a minha wishlist para comprar futuramente. Amoooooo seus post com essas fotos maravilhosas. Bjs e boa noite.

  • Lili Aragão
    29 abr 2018

    O livro parece interessante, há muita coisa acontecendo e é bacana ele levar a reflexão, e essa escrita poética parece dar um brilho a mais aos olhos daqueles que curtem esse gênero. Infelizmente, inicialmente ele não me chamou a atenção pra leitura, mas a dica que você deu ao final sobre ler o inicio através o site da amazon é boa e acho que vou dar uma olhada 😉

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