Resenhas 27jun • 2018

A Casa dos Espíritospor Isabel Allende

O livro no Skoob e no Goodreads.

Título Original: The House of the Spirits
Gênero do Livro: Ficção Histórica, Fantasia,
Editora: Record
Ano de Publicação: 2017
Número de Páginas: 448
Código ISBN: 9788528601664

Obs: Este livro foi cedido em parceria com a editora para resenha.

Comprar: Amazon

Sinopse: Bestseller internacional considerado pela crítica um clássico da literatura latino-americana, "A Casa dos Espíritos", romance transcendental de Isabel Allende, conta a saga da turbulenta e numerosa família Trueba, do Chile, com o seu patriarca angustiado e suas mulheres clarividentes. Trata-se de uma narrativa vertiginosa que se alimenta de si mesma e parece tender ao infinito. É no seu desfecho que se alcança o efeito trágico da obra cujo limite não é o esgotamento das narrativas, mas um golpe de Estado que metamorfoseia as narrativas em sangue nas sarjetas e as palavras em silêncio. Num panorama da história chilena que vai de 1905 a 1975, desfilam personagens como Esteban Trueba, latifundiário e senador; Clara, sua mulher clarividente e Alba, sua neta, jovem, socialista e, portanto adversária do patriarca e de seus cúmplices.

Antes de começar a resenha queria declarar que talvez esta seja a melhor leitura do segundo semestre de 2018, mesmo que ele tenha acabado de começar. A Casa dos Espíritos é o primeiro romance de Isabel Allende e já teve mais de 40 edições só no Brasil. Recentemente suas obras estão sendo relançadas com um novo projeto gráfico digno de nota. Eu sempre tive vontade de ler este romance, contudo, escutei ao longo dos anos várias resenhas que apontavam para a proximidade da obra com Cem Anos de Solidão, o romance mais importante Gabriel Garcia Marquez e um dos meus livros favoritos.

Acabei com medo do que encontraria e posterguei a leitura por mais tempo do que deveria. Acho que esse foi o meu maior erro. A Casa dos Espíritos é um romance magnífico, a semelhança com Cem Anos de Solidão talvez esteja no fato de ambos os livros, mesmo centrados em uma pequena família, refletirem a história da América latina.O romance é narrado por Esteban Trueba e sua neta Alba. O fato de ambos alternarem a narrativa mostra o quanto um ponto de vista é crucial em uma obra. Se no início senti pena de Esteban, descobri ao longo das páginas o retrato fiel do conhecido burguês mau caráter.

“Clara passou a infância e entrou na juventude sem ultrapassar os muros de sua casa, num mundo de histórias de encantamento, de silêncios tranqüilos, em que o tempo não se marcava pelos relógios nem pelos calendários, e os objetos tinham vida própria, as aparições se sentavam à mesa e falavam com os humanos, o passado e o futuro faziam parte da mesma coisa, e a realidade do presente era um caleidoscópio de espelhos desordenados em que tudo podia acontecer.”

Esteban representa para nós todos aqueles ricos que acreditam ser mais europeus do que latinos, se deslumbram com o poder e o dinheiro, fazendo de tudo para aumentarem exponencialmente. Esteban não escuta a rádio porque é popular, para ele só é digno dos seus ouvidos a música clássica e a orquestra espanhola, que visita o país todo ano. Esteban despreza a igualdade social, mulheres são apenas parideiras, os pobres, burros demais para terem voz ou algum direito.

 

Esteban é liberal e o que mais odeia nesse mundo são os socialistas. O retrato político de uma América Latina devastada por regimes militares, governos oligárquicos e a perseguição, é visto ao longo das 400 páginas. Nívea é sufragista e dedica seu tempo a lutar pelo direito das mulheres ao voto. Pedro terceiro cresce com ódio do patrão e se apaixona pelo socialismo, virando um militante que viaja pelas fazendas pregando sobre sindicatos, igualdade e o poder das galinhas. Clara, Blanca e Alba também acreditam em um mundo menos cruel com os mais pobres. Muito do que Isabel Allende narra se correlaciona com a história do Chile no século XX, principalmente se levarmos em conta o fato de seu pai ser primo-irmão de Salvador Allende, fundador do Partido Socialista e ex-presidente do Chile, deposto na década de 70 pelo golpe militar de Augusto Pinochet.

Todo romance gira em torna dos Trueba. Esteban é noivo de Rosa e após sua morte se casa com a irmã mais nova, Clara. Ela é a alma e a principal personagem do livro. Desde criança sempre foi clarividente e suas previsões são cruciais para a história. Clara vê os mortos e conversa com eles, faz sessões espíritas, move objetos com a mente e prevê o futuro. Ela é a força motriz da família, quem une todos e mantém alguma coerência em torno de tanta gente excêntrica. Nem Esteban compreende como se casou com ela. Mas Clara é mais do que bela, ela é magnética. Sua energia passa de maneira obliqua pela sua descendência. Blanca e os gêmeos herdam cada um algo da mãe. A beleza, os dons esotéricos, a capacidade de ver os mortos, a caridade. O coração bom de Clara é o único que se mantém firme em cada geração.

“(…) As hortênsias que você plantou com a sua própria mão em Las Tres Marías estão deslumbrantes; algumas são azuis, porque pus moedas de cobre na terra adubada, para que florescessem com essa cor, é um segredo da natureza, e cada vez que as ponho nos vasos lembro-me de você, mas também me lembro de você quando não há hortênsias, lembro-me sempre, Férula, porque a verdade é que desde que você se afastou de mim, nunca mais ninguém me deu tanto amor.”

O romance circula entre várias subtramas. Blanca ama Pedro Terceiro, mas não podem ficar juntos por serem de classes sociais diferentes. Férula dedica a vida a cuidar da mãe e depois da cunhada, mas é obrigada a lutar contra a paixão reprimida que nutre por Clara. Esteban distribui maldades e bastardos por todos os lados, é justamente essa atitude que vai lhe cobrar caro no futuro. Além destes, o romance é repleto de milhares de personagens cativantes como Nana, a babá; Jean, o conde fajuto; Amanda, uma jovem livre; Marcos, o bisavó do baú de livros, cada um tem sua história e algo para contribuir com este caleidoscópio que mostra muito do que é ser latino.

Isabel Allende possui uma escrita fluida. É fácil se perder entre as páginas e se assustar com as horas que passaram sem serem notadas. Tudo é costurado primorosamente nessa colcha de retalhos. Ela é tão dona da história, que pode adiantar fatos que só serão explicados no futuro, sem se perder ou confundir-se. Posso dizer que Cem Anos de Solidão ganhou mais um companheiro na lista de livros favoritos. Isabel deu uma visão feminina a um continente extremamente machista e opressor.

As mulheres de seu livro não se calam. Elas gritam e lutam mesmo quando não há alguém que queira escutá-las. Cada uma, ao seu modo, busca um mundo melhor. A fantasia e o real se misturam em um realismo mágico exemplar. Apesar de vermos cadeiras voando e pessoas se comunicando por telepatia, o que é absurdo e assustador são as atitudes humanas. Todo esse exagero contribui para mostrar o quanto a sociedade é desconexa. O único defeito que senti foi a quantidade de páginas, por mim o romance seria muito maior. Desde Vulgo Grace eu não sentia essa vontade do livro ser infinito. Leitura muito recomendada. Estou apaixonadíssima por Isabel Allende e já reservei outro romance dela para ler logo. Viva as escritoras e viva a América latina.

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Beatriz Kollenz ver todos os artigos
Queria ser mesmo uma garota mágica, infelizmente não deu nessa vida. Amo borboletas, mangas shoujo, desenhos animados e livros. Quando não estou voando nas nuvens costumo tocar piano, assistir um dorama ou sentar ao ar livre. Apesar de ser leonina sou muito tímida, a vida é assim, repleta de contradições.

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11 Comentários

  • Ana Carolina Venceslau Dos Santos
    30 jun 2018

    Eu ainda não li esse livro da autora Mas recentemente tive a oportunidade de ler dois livros que foram muito bem elogiados pela crítica e o que eu mais gostei nos livros foi que em todos os momentos eu me sentia como um dos personagens. Eu consegui vivenciar o que a autora estava tentando passar para a gente. Foi simplesmente uma leitura muito gratificante

  • Bruna Lago
    29 jun 2018

    No meio da resenha percebi alguns pontos que eu gosto, como a narrativa com dois personagens. Acho que isso sempre enriquece a história e a gente acaba conhecendo muito mais dos personagens. Além de ser um tema extremamente diferente, parece ser bem denso, mas que prende o leitor, ao invés de ser uma história chata. Fiquei um pouco confusa com tanta coisa a ser entendida, mas acho que seria um tema que eu arriscaria uma leitura. Preciso conhecer mais resenhas desse livro 🙂

  • GISLAINE LOPES
    28 jun 2018

    Oi Beatriz,
    Não conhecia esse romance, mas a premissa intrigante que une realidade com um pouco de sobrenatural me despertou certa curiosidade para conhecer a história. O retrato de Esteban é a realidade do machismo e sexismo e só com isso já sinto raiva de tal personagem. As mulheres presentes em número nesta trama precisam de muita força para conseguir a atenção devida e merecida. Acho que a autora foi bem fiel nos relatos reais e muito ousada na parte da ficção. Trouxe temas importantes e conseguiu criar este livro com uma mensagem muito impactante e de grande importância.

  • Micheli Pegoraro
    28 jun 2018

    Oi Beatriz,
    Como assim eu não conhecia essa autora? E esse livro maravilhoso? Sou apaixonada por Cem Anos de Solidão, é um dos meus livros favoritos também, então é impossível não ficar interessada em ler essa obra da até então desconhecida Isabel Allende.
    O que mais chama a atenção nesse romance é o fato da autora trazer personagens mulheres fortes e determinadas, trazendo uma visão feminina empoderada e representativa nesse livro tão maravilhoso. Um livro escrito com maestria, trazendo a mensagem de que é a maldade humana que é inaceitável e absurdo, e não os dons espirituais que a autora abordou durante a narrativa.
    Já vou correr atrás desse livro, pois quero muito lê-lo.
    Beijos

  • Já há algum tempo eu ouço falar desse livro da autora e a vontade de lê-lo só cresce. Sou apaixonada por protagonistas fortes e empoderadas, e acho que todas as mulheres desse livro são assim, cada uma a sua maneira. Gostei do fato de que a própria narrativa do personagem é capaz de escancarar seu caráter e verdadeiras intenções, além do panorama histórico por trás da trama e da fusão entre real e espiritual (ou sobrenatural). Essa edição tá linda!

  • Pamela Liu
    28 jun 2018

    Oi Beatriz.
    Não tinha ouvido falar desse livro, mas depois de ler a sua resenha, fiquei super curiosa para conhecer essa história.
    Parece abordar temas bem importantes, e retratar um época diferente dos dias de hoje.
    A edição é bonita e confesso que ficou com um pouco de medo dessa capa rs
    Beijos

  • Theresa Cavalcanti
    27 jun 2018

    Oi Beatriz, eu já conhecia o livro, mas não tinha ficado com vontade de ler ele. Sua resenha me animou bastante e me fez ficar com muita vontade de ler. Não sabia muito sobre o que se tratava, mas você abriu minha mente. Obrigada <3

  • Atraentemente Evandro
    27 jun 2018

    Que maravilha que as obras da Isabel Allende estão sendo relançadas. Embora eu ainda não tenha lido nenhum dos seus livros, conheço o enredo através da adaptação feita para o cinema, que aliás é um filme que pra mim foi inesquecível. Diante de todas suas considerações na resenha, só me resta querer ler também esse livro e saber se houveram muitas mudanças na adaptação. Adorei saber desse relançamento.

    Evandro

  • Elizete Silva
    27 jun 2018

    Olá! Confesso que não conhecia o livro, mas gostei bastante do enredo e a forma como a autora conduziu toda a história. Muito legal quando a leitura flui tão bem que nem percebemos as páginas e a sensação que fica é de querer mais, sem dúvida vai para a listinha.

  • Lili Aragão
    27 jun 2018

    A exceção de Esteban a maioria dos personagens parece ser bem interessante e a história que mistura realidade com sobrenatural também. Já ouvi falar da autora mas ainda não li nenhum de seus livros e achei a resenha bem empolgante, é bem bacana quando terminamos um livro com a sensação de que ele poderia ser maior 😀

  • Daiane Araújo
    27 jun 2018

    Oi, Beatriz.

    Podemos considerar que, o livro vai além do inimaginável, por ter outros focos, além do dom espiritual da Clara e os espíritos. Por falar daquele período da política.

    Nota-se o quão bem construído foi o livro, dado o contexto do mesmo.

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