Resenhas 20fev • 2018

O Clube dos Jardineiros de Fumaçapor Carol Bensimon

O livro no Skoob e no Goodreads.

Gênero do Livro: Ficção, Literatura Brasileira, Romance
Editora: Companhia das Letras
Ano de Publicação: 2017
Número de Páginas: 368
Código ISBN: 9788535930122

Obs: Este livro foi cedido em parceria com a editora para resenha.

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Sinopse: Em um cenário formado por coníferas milenares, estradas sinuosas e falésias, a região californiana do Triângulo da Esmeralda concentra a maior produção de maconha dos Estados Unidos. É lá que o jovem professor brasileiro Arthur busca recomeçar a vida, depois dos acontecimentos que o levaram a deixar Porto Alegre. Aos poucos, ele se insere na dinâmica local e passa a fazer parte de uma história que começa com a contracultura dos anos 1960 e se estende até o presente. À vida de Arthur e daqueles com quem estabelece vínculos — o atormentado Dusk, a solitária Sylvia, a indecisa Tamara — mistura-se a de personagens reais que participaram do embate que levou à descriminalização do uso da maconha, fazendo deste um poderoso romance panorâmico. Cruzando história e ficção, com uma linguagem original e ousada, a meio caminho entre Brasil e Estados Unidos, Carol Bensimon compõe em O clube dos jardineiros de fumaça um brilhante retrato da geração hippie e de seu legado.

Lançamento da Companhia das letras em 2017, O Clube dos Jardineiros de Fumaça foi um livro escrito pela brasileira Carol Bensimon, o romance se passa o Triangulo da Esmeralda, região da Califórnia que concentra a maior produção de maconha dos Estados Unidos.

Carol busca remontar toda a história da maconha nos Estados Unidos através dos olhos de vários personagens, entre eles o brasileiro Arthur e alguns americanos como Tamara, Sylvia, Noah e Dusk. Arthur é um professor de história da cidade de Porto Alegre que resolve cultivar a maconha para ajudar a mãe que sofre com um câncer no útero, tudo vai mais ou menos bem até ele ser denunciado, perder seu emprego e resolver se aventurar nos Estados Unidos, no condado de Mendocino, para aprender e cultivar a cannabis. Tamara é uma mulher de quarenta anos que precisa lidar com uma separação recente, a descoberta tardia de um pai e a brusca mudança de vida, resultado de uma tentativa de entender melhor quem ela é e superar seu passado.

Sylvia é uma mulher aposentada que sofre com a solidão e os arrependimentos de toda uma vida, vítima de violência doméstica desde a infância, Sylvia descobre no uso da maconha um escape. Noah é um cultivador de maconha que leva a vida da maneira mais tranquila que pode, vive em uma van velha, anda de patins e tenta viver afastado dos padrões da sociedade, digno da contracultura. Já Dusk é um hippie que vê o legado de sua geração ser deturpado pelos que vieram depois, enquanto tenta lidar com as mudanças da sociedade, ele relembra seus tempos áureos e o início do que viria ser a maior região de produção da maconha nos EUA.

“Ele queria entender tanta coisa. Lua sangrenta. A falha de San Andreas. Aquilo que parece fumaça e que chamam de Via Láctea e você pode ver quando está longe das cidades. As moscas da beira da praia. Impostos sobre gorjeta. Certas tatuagens. Uma mulher surfista com um rabo de cavalo grisalho. Ciclistas de roupas fluorescentes viajando pela Highway1. Adesivos de para-choque dizendo ‘veterano do Vietnã’. O canabidiol e os endocanabinoides. Entender de verdade. Lugares onde de repente todas as árvores morrem. A morte de sua mãe. A garota que faz bijuteria e seu discurso urgente sobre karma. Espiritualidade.”

Esses são alguns dos vários personagens, todos construídos magistralmente por Carol Bensimon. Cada um possuiu uma visão diferente da sociedade, seja pelos olhos de um estrangeiro ou os olhos de uma mulher. O conflito geracional também é abordado de uma forma enriquecedora, ver a visão do mundo que Dusk carrega consigo, um tanto romantizada pelas memórias de sua juventude, se chocar com uma nova geração que toma conta da cidade é bastante reflexivo. O conflito entre gerações acaba virando uma realidade para todos nós, mais cedo ou mais tarde. O que para uns é uma conquista, para outros pode ser um sinal do apocalipse, fato muito bem representado pelo Airbnb e como é visto por tantas personagens, mas isso são só detalhes de um romance que busca ser algo muito maior.

Carol também nos apresenta a história da produção de maconha na América, desde o seu início com a chegada dos hippies, movimento de desobediência civil e a contracultura. O recorte mais utilizado, e o grande responsável pela liberação da droga, bastante lenta por sinal, é o seu uso medicinal. As biografias romantizadas de personagens importantes nessa história narram a batalha pelo direito de utilizar uma planta, demonizada por todos devido sua capacidade alucinógena, como medicamento.

Estudos comprovados e batalhas judiciais vitoriosas servem para mostrar o lado de milhares de pacientes que encontraram o alívio no uso da droga. A contraparte também é retratada, a disputa entre o DEA, o FDA e o Nida são apenas uma ponta de um vasto iceberg. O conservadorismo se opõe a resultados médicos comprovados, e a grande dúvida reina: porque medicamentos com efeitos colaterais tão avassaladores são permitidos, enquanto o uso medicinal de uma planta é demonizado só por conta do efeito alucinógeno?

“[…] Quando as pessoas são crianças, elas querem ser astronautas, detetives, cientistas. E depois elas olham para si mesmas e estão trabalhando em setores de contabilidade e recursos humanos e querendo se matar toda segunda-feira de manhã. O que aconteceu aí?”

Nem tudo são flores no Triângulo das Esmeraldas. A violência e a morte causada pela produção da erva também são representadas, aqui, pelo desaparecimento de uma brasileira no condado. Fato é que nem todas as fazendas são regulamentadas, muitas vendem para o tráfico e muito dos produtores tradicionais tem de receito dos jovens que buscam na produção de maconha uma aventura. A inconsequência dos mais jovens é um problema. A violência uma realidade. Arthur acha estranho tanta preocupação com uma taxa de mortes tão pequena perto da vistas nas favelas do Brasil. O que parece ser um grande comércio livre e bem-aceito, na verdade é uma produção tímida e discreta. Os xerifes e conservadores ainda tentam com todas as forças combater o comércio da maconha.

O livro é uma verdadeira aula, capaz de abrir um debate atual e expandir horizontes. Tudo isso regado com uma escrita exemplar um uma ótima caracterização de personagens. A visão do mundo feminino também é tratada com maestria, é impossível não se apaixonar pelas várias mulheres que aparecem ao longo da história, elas são um dos pontos mais altos do livro. Leitura recomendada, ainda mais para quem quer refletir ou para os jovens a beira do vestibular, ano passado o tema da minha redação foi a regulamentação do uso da maconha, um debate muito presente nos dias de hoje, ainda mais em um ano de eleição.

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Beatriz Kollenz ver todos os artigos
Queria ser mesmo uma garota mágica, infelizmente não deu nessa vida. Amo borboletas, mangas shoujo, desenhos animados e livros. Quando não estou voando nas nuvens costumo tocar piano, assistir um dorama ou sentar ao ar livre. Apesar de ser leonina sou muito tímida, a vida é assim, repleta de contradições.

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7 Comentários

  • Ana I. J. Mercury
    28 fev 2018

    Oi Beatriz,
    nossa que livro diferente e original!
    Muito controverso, mas acho que vale a pena lê-lo e compreender mais o tema, tirar suas próprias conclusões e conhecer os prós e os contras sobre o uso da maconha como remédio, etc.
    bjssss

  • Daiane Araújo
    28 fev 2018

    Oi, Beatriz.

    Bom, apesar de eu não achar o uso da maconha uma solução para diversas coisas, a autora nos mostra a abordagem do tema de forma que amplia diversas relevâncias e conta-nos um pouco mais sobre isso.

  • Catarine Heiter Moraes Boness
    27 fev 2018

    Já tinha lido a sinopse, mas não chamou minha atenção. A resenha foi bem escrita e ajudou a deixar claro que não é muito o meu estilo de leitura. Esse eu passo!

  • Alison de Jesus
    24 fev 2018

    Olá, vejo que a autora fez uma pesquisa bem completa sobre a região que se passa a trama, assim como o contexto histórico das drogas no local, fato que deixa a leitura ainda mais rica. Além disso, a caracterização dos personagens aparenta ser primorosa, comprovando definitivamente o talento da autora. Beijos.

  • Janaina Silva
    22 fev 2018

    Sou à favor do uso da maconha para fins medicinais.
    Sendo mãe de um filho com epilepsia,tenho visto várias notícias sobre o uso da mesma para aliviar o sofrimento dos portadores da doença.
    Acho que a autora aborda o uso da maconha de várias formas…
    Talvez eu leria! 😉

  • Michelli Prado
    21 fev 2018

    Realmente nunca havia visto um livro tratando sobre este tema, mas é algo sempre válido a gente ler temas diferentes e atuais. Falar sobre maconha ainda é um tabu, não uso, mas creio que seria uma leitura super diferente das que tenho hábito

  • Vitória Pantielly
    21 fev 2018

    Oi Beatriz!
    Normalmente esse seria um livro que eu não me interessaria, mas como o uso da maconha é um tema atual, e não dá para negar, de extrema importância, acredito que toda informação é bem vinda, e no caso, mostra muito do começo da droga e como seu uso voltado para a medicina é relevante… Como pouco sei sobre o tema, fiquei curiosa, acredito que antes de qualquer conclusão temos que nos informar completamente da situação, e pra mim o livro traz bastante isso!
    Bom saber que o lado feminino também tem destaque na história… Gostaria de ler.
    Beijos

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