Resenhas 08mar • 2019

O Diário de Myriampor Myriam Rawick

O livro no Skoob e no Goodreads.

Título Original: Le Journal de Myriam
Gênero do Livro: Não-Ficção
Editora: DarkSide Books
Ano de Publicação: 2018
Número de Páginas: 320
Código ISBN: 9788594541222

Obs: Este livro foi cedido pela editora em parceria para resenha.

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Sinopse: De um lado, uma menina judia que passou anos escondida no Anexo Secreto tentando sobreviver à guerra de Hitler. De outro, uma garota síria que sonha ser astrônoma e vê seu mundo girar após a eclosão de um conflito que ela nem mesmo compreende. Mesmo separadas por mais de setenta anos, Anne Frank e Myriam Rawick têm um elo comum: ambas são símbolos de esperança e resistência contra os horrores de um país em guerra e acreditam no poder das palavras. O Diário de Myriam é um registro comovente e verdadeiro sobre a Guerra Civil Síria. Escrito em colaboração com o jornalista francês Philippe Lobjois, que trabalhou ao lado de Myriam para enriquecer as memórias que ela coletou em seu diário, o livro descortina o cotidiano de uma comunidade de minoria cristã que sofre com o conflito através dos olhos de uma menina. Assim como acompanhamos a Segunda Guerra Mundial pelos olhos da pequena Ada em A Guerra que Salvou a Minha Vida e A Guerra que Me Ensinou a Viver, O Diário de Myriam apresenta a perspectiva de uma menina que teve sua infância roubada ao crescer rodeada pelo sofrimento provocado pela Guerra da Síria, iniciada em 2011. Myriam começou a registrar seu cotidiano após sugestão da mãe, que propôs que ela contasse tudo aquilo que viveu para, um dia, poder se lembrar de tudo o que aconteceu. Escrito entre novembro de 2011 a dezembro de 2016, o diário alterna entre as doces memórias do passado na cidade de Alepo e os dias carregados de incertezas e dolorido. E é com a sensibilidade de uma autêntica contadora de histórias que ela narra a preocupação crescente de seus pais com as manifestações contra a repressão, o sequestro de seu primo pelo governo, as notícias na televisão, as pinturas revolucionárias nos muros da escola e, por fim, os bombardeios que destroem tudo aquilo que ela conhecia.

A Guerra na Síria teve seu estopim em 2011, quando as manifestações contra o presidente Bashar al-Assad começaram. Nessa época Myriam tinha seis anos de idade. Em 2012 começaram os primeiros tiroteios e bombardeios. Myriam perdeu sua infância crescendo em meio ao conflito. Muito se fala da guerra, de quem está certou ou errado, os rostos dos cidadãos se perdem em meio a minúcias políticas. Por trás de cada bomba, cada bala, existe uma pessoa. Myriam foi uma das milhares de vítimas da Guerra na Síria. Ela teve sorte de não figurar entre as mais de 400 mil crianças mortas, seu diário é um retrato do que é crescer em meio a uma guerra sem fim.

Myriam cresceu em Alepo, uma das cidades mais antigas do mundo tombada como patrimônio da humanidade. Hoje em dia Alepo é feita de escombros. O bairro de Myriam, Jabal Sayid, não existe mais. No início do diário, quando o conflito se resume a alguns protestos mais exaltados, Myriam é só uma criança. Ela gosta de passear pela cidade velha, comer damasco, brincar com a irmã mais nova. O impacto do livro é justamente ver essa menina perder a inocência.

“Alepo é uma cidade fantasma. Não tem mais ninguém. Às vezes, há senhoras de preto que correm do lado de fora, ou pessoas armadas. Mas só isso. Quando a gente abre as janelas, não tem um barulho de vida sequer. Não existem flores, não existem cores e até os pássaros já nos deixara.”

Em tempos de guerra as crianças precisam crescer. No dia 17 de julho de 2012 ela começa dizendo “hoje foi um dos piores dias da minha vida”, esse foi o dia que as bombas caíram pela primeira vez. Ela, uma criança, se questiona se fez algo de errado, não entende o motivo de jogarem bombas nela e na família. Ela e sua irmã passam mal, choram, não conseguem dormir. Myriam chega a ter febre. Infelizmente cenas como essa vão se repetir em todo o livro.

A Guerra na Síria é um conflito complexo até para os adultos. Além dos rebeldes e dos apoiadores do governo de Assad, temos os Curdos, o Daesh, os milhares de países que intervém contra ou a favor do presidente, são várias figuras que se misturam, mas no dia a dia, não importa quem está do lado de quem, os tiroteios e bombardeios atingem todos os civis.

O Diário de Myriam também é um retrato de como a população procura sobreviver nessa cidade em guerra. Muito se questiona sobre os mais de 12 milhões de refugiados. Durante as várias entradas no diário, podemos perceber a rotina de Myriam e sua família. Ao longo do tempo vemos a escassez de água e comida que abate a cidade. Todos se reúnem para compartilhar o alimento. Myriam faz parte de uma comunidade cristã e recebe o apoio dos membros. Quando a família de Myriam consegue algo, sempre pensa em compartilhar.

“Tenho treze anos. Cresci rápido, rápido demais. Sei reconhecer as armas, sei reconhecer as bombas. Sei quando é preciso se esconder e como se deve esconder. Mas, principalmente, sei o que é a morte. A perda de pessoas que se ama, e o medo de morrer. Eu me vi encurralada em um conflito sem nome, sem palavra para as crianças. Não o entendi. Falava-se de guerra civil, falava-se de bombardeios russos, de coalizão internacional. Para mim, era só medo, tristeza, angústia. E as lembranças de uma vida que não recuperarei nunca mais.”

A inflação torna utensílios básicos de sobrevivência em artigo de luxo. O pai de Myriam, para conseguir dinheiro, precisa se esgueirar pelas barricadas. O mais bonito de todo o livro é ver o quanto a escola é valorizada. O tempo todo Myriam se orgulha de nunca ter perdido um dia de aula. A educação é vista como uma forma de evitar que o presente aconteça no futuro. A escola pode ser bombardeada, obrigada a se locomover, as crianças podem ser obrigadas a se esconder, mas a necessidade dela nunca é questionada.

O Diário de Myriam é um livro pesado, muito comparado ao Diário de Anne Frank, mas considero uma leitura essencial para adultos e crianças. Todo o conflito é narrado pela voz de uma menina, é de leitura fácil e com linguagem descomplicada. Perceber a realidade dos mais fracos é importante. É através da empatia que podemos evitar guerras civis. Do outro lado do gatilho não existe um inimigo, mas sim um idoso, uma mãe, um pai, uma criança. Infelizmente o conflito está longe de acabar.

A guerra na síria não tem mais nada haver com os sírios, agora tudo faz parte de um grande tabuleiro, onde figuras importantes da macropolítica decidem, à distância, sobre a vida de pessoas inocentes. Myriam e sua família vivem como refugiados dentro do próprio país. Ela continua indo a escola, escrevendo em seu diário e desejando por um mundo melhor. Espero que o futuro seja bondoso com ela e com todas as milhares de crianças que vivem essa realidade mundo afora.

Beatriz Kollenz ver todos os artigos
Queria ser mesmo uma garota mágica, infelizmente não deu nessa vida. Amo borboletas, mangas shoujo, desenhos animados e livros. Quando não estou voando nas nuvens costumo tocar piano, assistir um dorama ou sentar ao ar livre. Apesar de ser leonina sou muito tímida, a vida é assim, repleta de contradições.

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5 Comentários

  • Iêda Cavalcante
    27 mar 2019

    Olá!
    A Darkside arrasa, ela sempre faz um trabalho impecável, até mesmo nos livros de brochura, é maravilhoso o cuidado que cada um tem com cada obra.
    Eu acho esse livro um grande soco no estômago para que o mundo possa se atentar o que vem acontecendo, e como é sério o que o que está acontecendo. Amei a resenha e pretendo ler o livro com certeza.
    Bjokas!

  • Aline Bechi
    19 mar 2019

    Olá, tudo bom? Eu já conhecia a premissa do livro, mas ler ela de fato me deixou arrepiada (não no bom sentido). Imagino o quão doloroso deve ser a leitura desse diário. Ele está na minha lista, mas não sei se tenho psicológico.

    Beijos

  • Elizete Silva
    11 mar 2019

    Olá! A resenha já me deixou emocionada, imagino ao ler o livro, é tão revoltante que tenhamos que acompanhar os relatos de pavor de uma criança em pleno século XXI, quando nós como sociedade aprenderemos a respeitar nossas diferenças, a valorizar nossas vidas, nossas crianças e nosso planeta, como ouvimos por aí “Até quando?”.

  • Luana Martins
    09 mar 2019

    Oi, Beatriz
    Tive oportunidade de ganhar esse livro e li no mês passado.
    Apesar de ser uma leitura triste, comovente, mostra o dia a dia de uma menina que pensa em sua família, no próximo e procura sempre ajudar da maneira que podem aos outros.
    Tudo na leitura me emociona mas as partes que mais me fez pensar foi ela falando que a cidade ficou toda destruída, que não tinha mais os lugares lindos que ela costumava passear com a família. Mesmo passando por todo esse perigo não desistiram de estudar.
    É um livro que todos devem ler.
    A Darkside sempre capricha nos seus livros, apesar do conteúdo da trama a edição é um charme e tanto.
    Beijos

  • Angela Cunha
    09 mar 2019

    Um dos livros mais lindos que li até hoje! Sempre houve esta comparação ao Diário de Anne, mas eu acredito que as semelhanças fiquem apenas por serem duas meninas, duas crianças a detalharem os horrores de duas guerras totalmente diferentes e ao mesmo tempo, tão iguais.
    A DarkSide só pecou em não ter trazido esta obra em capa dura, sua marca registrada, apesar da capa ser sim, muito bonita.
    Mas é um livro que todos deveriam ler, pois toca a alma e nos faz olhar a vida com mais respeito pela dor e privação alheia!
    Super recomendo!
    Beijo

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