Resenhas 17out • 2018

De Espaços Abandonadospor Geisler

O livro no Skoob e no Goodreads.

Título Original: De espaços abandonados
Gênero do Livro: Ficção
Editora: Alfaguara
Ano de Publicação: 2018
Número de Páginas: 416
Código ISBN: 9788556520685

Obs: Este livro foi cedido pela editora em parceria para resenha.

Comprar: Amazon

Sinopse: De espaços abandonados é um mosaico narrativo de várias vozes, um livro sobre procurar alguém e se perder no processo. Nele, Luisa Geisler constrói com maestria uma trama complexa com personagens envolventes que desafiam os limites das páginas. Maria Alice é introspectiva e míope; muito míope. Sua mãe, que sofria de distúrbio bipolar, desapareceu sem deixar pistas, e Maria Alice está disposta a viajar o mundo para reencontrá-la. Posts em um blog sobre espaços abandonados e exploração urbana a levam a Dublin, onde passa a viver com brasileiros que decidiram ganhar a vida no exterior, mas que perderam (ou ignoraram) o rumo. Em sua incerta busca, ela acaba seguindo o próprio desejo de se perder. Ao mesclar cartas, trechos de livros, manuais de escrita, depoimentos e arquivos perdidos em computadores, Luisa Geisler costura a vida de uma série de brasileiros autoexilados na Irlanda, em busca de um futuro melhor, ainda que não saibam o que procuram. Este livro não traça apenas a jornada de uma mulher em busca da mãe. Ele refaz, também, a história de personagens perdidas, que buscaram uma vida melhor em outros países, mas acabaram reencontrando antigos problemas nelas mesmas. São pessoas que por anos ouviram histórias sobre ganhar em euro e a mítica da sorte irlandesa, mas que agora estão entre tentar achar uma forma de fugir da vida ou encará-la de frente.

O novo livro de Luisa Geisler, lançado em 2018 pela Alfaguara, conta a história de Maria Alice. Perdida entre recortes, cartas e anotações em um livro sobre a escrita, aos poucos vamos desvendando quem é essa mulher, e também aprendemos mais sobre o processo criativo que compõe um livro. Luisa é jovem, mas já conta com vários prêmios. Ganhadora do Prêmio SESC, não uma, mas duas vezes, e também finalista do Jabuti e do Machado de Assis, ela é considerada uma das maiores vozes da literatura brasileira contemporânea.

O novo livro da autora é ambicioso. Não traz uma narrativa linear, muito menos deixa respostas. A inspiração para a escrita veio através das oficinas de criação literária e diversas idéias esparsas que teve ao longo dos anos. A partir de vários insights, vão surgindo cenas e textos raros, propostos pelo “autor” do guia “Primeiro Mergulho na Ficção”, livro que Maria Alice usa para planejar seu romance e anotar seus rascunhos.

“Se você tem menos de trinta anos e está num relacionamento e não está apaixonado até o último fio de cabelo, você tem que sair. Você é jovem demais pra perder tempo com alguém que não te deixa mais feliz. Não tem nada mais triste do que crianças de vinte e três anos que se acomodaram. E antes de você notar, vão ser duas e meia da manhã, você vai ter oitenta anos e não vai se lembrar de como era pensar aos vinte ou se sentir aos dez.”

Não sabemos onde se encontra Maria Alice, sabemos que seu irmão, Caio, está a sua procura e que recebeu alguns de seus pertences por meio de um conhecido em Dublin. Temos as cartas dos conhecidos de Alice e também seus escritos. Cabe ao leitor juntar as peças do tabuleiro e entender quem era essa mulher, como o que ela fazia na Irlanda. Nenhum narrador é confiável e não dá para saber em o quem acreditar. A escolha cabe ao leitor.

Como a ideia do romance surgiu das oficinas literárias, muito do livro são retalhos do planejamento de Maria Alice. O leitor, conforme vai lendo o que Alice escreveu, vai absorvendo a criação de um livro. Primeiro Mergulho na Ficção é “bastante autoexplicativo”, o objetivo é fazer com que o leitor escreva. São seções de ficha de personagem, estruturação (muito parecida com o método snowflake) e 366 páginas com diversos desafios de escrita. Com Maria Alice vamos construindo junto um livro. O romance dentro do manual dentro do romance conta a busca da filha para encontrar a mãe, mas na prática as coisas não seguem dessa forma.

A maior parte do que vemos são histórias sobre o dia a dia dos jovens que vão buscar uma nova vida em Berlin. Pessoas com várias histórias de vida e objetivos diferentes. Alice acaba por revelar muito de quem mora com ela em Dublin, e muito pouco sobre ela, a mãe e o porquê dela acreditar que está viva e morando na Irlanda. Talvez a dispersão de Maria Alice sirva de lição para quem se propões ser um escritor. Ou não.

“Eu não faço ideia de absolutamente nada então, por favor, descreva com cuidado, obviedade e exatidão como você se sente, com riqueza de detalhes, ou estarei constantemente me preocupando a respeito de o quanto você me odeia.”

Luisa Geisler usa a voz de Maria para brincar com diversas formas de escrita, do fluxo de consciência ao diálogo, passando pela crônica e a poesia. Enquanto um autor experimenta até encontrar sua voz, vamos vendo como o ofício de escrever é um exercício de criatividade e estilística. Acabei sentindo que a autora pegou pesado na hora de misturar o inglês e o português, depois de um tempo passou a ser repetitivo e eu só conseguia me lembrar da namorada do Biel. Mea culpa. Mas várias passagens são magistrais, dignas das epifanias da juventude. Há humor sarcástico, há tristeza, toda a polifonia do millennial e do exilado.

O livro é até rápido de se ler, se você não tentar ficar encaixando as peças do quebra cabeça, caso queira encontrar o fio da meada vai acabar desprendendo um pouco de trabalho. A decisão vai do freguês. Livro recomendado para quem quer ser escritor, para quem já viveu no exterior ou para quem tem seus vinte e poucos anos e quer se identificar com um romance. Apenas saiba que o que você tem em mãos não é um livro qualquer, mas sim um exercício do ofício da escrita.

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Beatriz Kollenz ver todos os artigos
Queria ser mesmo uma garota mágica, infelizmente não deu nessa vida. Amo borboletas, mangas shoujo, desenhos animados e livros. Quando não estou voando nas nuvens costumo tocar piano, assistir um dorama ou sentar ao ar livre. Apesar de ser leonina sou muito tímida, a vida é assim, repleta de contradições.

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9 Comentários

  • Patrini Viero
    30 out 2018

    Confesso que fiquei um pouco confusa com relação ao enredo porque ele realmente me tira da zona de conforto da linearidade e regularidade que costumo acompanhar em leituras. Ainda assim, acho que esse é um processo interessante e benéfico a qualquer leitor. Além de nos fazer abrir os olhos para outros tipos de narrativas, ainda somos apresentados ao mundo da escrita através da protagonista, acho isso o máximo principalmente pra mim, que tenho interesse em ingressar nesse universo dos livros como autora.

  • Alice Pereira
    30 out 2018

    Esse livro já me ganhou pela capa há um tempo, mas não fazia ideia do conteúdo. Achei interessante, o enredo é intrigante. Já pretendia lê-lo, agora um pouco mais. Parece realmente muito bom.

  • Lily Viana
    30 out 2018

    Olá!
    Não conhecia o livro mas me deixou bem curiosa por ele e tem uma premissa ótima. Traz um enredo muito bom e uma forma de contar uma historia de uma forma diferente, como se fosse um mistério e que o leitor esta recebendo as dicas. Gostei!

    Meu blog:
    Tempos Literários

  • sarah castro
    23 out 2018

    Eu adoro descobrir livros de forma aleatória e me animo quando são de autores nacionais. A resenha deixou com bastante vontade de ler e já esta na minha lista. Dei aquela jogada básica no Google o nome da autora e já vou procurar mais sobre os demais livros e sobre ela. Tirando que adoro livros nesse hype de você ir juntando as migalhas pra descobrir algo.

  • Luana Martins
    23 out 2018

    Oi, Beatriz
    Não conhecia o livro.
    É um livro complexo, bem diferente do que costumo ler.
    Se um dia fosse ler ia ter que ler 2 vezes uma para montar o quebra-cabeça e a outra só ler sem ficar pensando muito a respeito.
    Obrigada pela dica, beijos!

  • Pamela Liu
    22 out 2018

    Oi Beatriz.
    Esse livro parece bem diferente do que estamos acostumados a ler por aí.
    Mas, não fiquei com vontade de lê-lo, pois acho que seria um pouco maçante para mim. Não tenho interesse em escrever um livro, não estou na faixa dos 20 anos e eu iria tentar desvendar o que aconteceu com a Maria rs
    Então, acho que não iria funcionar para mim rs
    Beijos

  • Kleyse Oliveira
    18 out 2018

    Olar.
    Eu não conhecia a autora nem suas obras. Fiquei surpresa com a sua nota para o livro.
    Eu sempre quis escrever mais não tenho o dom. Talvez eu adquira esse livro parece ser bom para quem ser seguir com o escritora.

  • Angela Cunha
    18 out 2018

    O livro parece trazer um mergulho incrível não somente dentro do processo de criação,mas também na vida. Acho tudo isso fabuloso!!!
    Acredito piamente que o dom de escrever esteja presente em todos nós, só muda a questão do desenvolver.
    Por isso, adorei o livro e com certeza, quero muito saber mais e me aventurar neste mergulhar na alma!
    Beijo

  • Ludyanne Carvalho
    17 out 2018

    Estou aqui pensando como eu não conhecia o trabalho de uma autora tão premiada; chocada, mas ao mesmo tempo tenho mais certeza do quanto nossa literatura é rica e pouco reconhecida.
    Não sei… Acho que essa leitura não é pra mim.
    Sinto que a escrita pode ser interessante, mas essas peças soltas me deixam um pouco confusa.
    É incrível essa brincadeira de escrever, realmente é um bom exercício para os autores.

    Beijos

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