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Categoria(s): livros

Maddadão, por Margaret Atwood

de Margaret Atwood
Título Original: MaddAddam
Gênero do Livro: Ficção científica, Distopia, Pós-Apocaliptico
Editora: Rocco
Ano de Publicação: 2019
Número de Páginas: 448
Série: Maddaddão
Código ISBN: 9788532531377
Sinopse: MaddAddão é o terceiro e último volume da série iniciada com Orix e Crake e adensada em O Ano do Dilúvio. Estruturalmente, o romance é similar aos anteriores, alternando entre um mundo pós-catástrofe e as circunstâncias que levaram as coisas àquele degringolamento. À luz de seu capítulo final, a trilogia de Margaret Atwood pode ser lida como um épico de devastação e possível reconstrução, quando, pelas vias mais tortuosas e traumáticas possíveis, os sobreviventes acabam por ensaiar uma conexão mais saudável uns com os outros e com o ambiente ao redor – ou o que restou dele.

Finalmente a ecodistopia de Margaret Atwood chega ao fim. Concluindo a trilogia que se iniciou com Oryx e Crake e seguiu com O Ano do Dilúvio, MaddAddão começa exatamente no ponto em que livro anterior termina. Temos uma ceia entre Toby, Ren, Amanda e Jimmy enquanto os fugitivos da Painball se encontram amarrados.

Infelizmente o ato de piedade de Toby termina mal. Os Crakers chegam ao local da ceia e libertam os prisioneiros, causando caos e colocando a vida de todos em risco. Enquanto os Jardineiros de Deus e os Maddamitas lutam para sobreviver, Toby se entrega a função de proteger o febril Jimmy e os frágeis Crakers.

A grande voz na conclusão da trilogia de Atwood é Toby. É a partir dela que conhecemos a história de Zeb, Adão e do grupo ecoativista MaddAddão. Ela também assume para si a função de cuidar dos filhos de Crake, são os capítulos em que ela narra a história do mundo para eles os mais divertidos.

É curioso como a autora conseguiu incluir um pouco de humor nessa história tão pessimista. Se antes tínhamos uma visão bem vexatória dos seres criados por Crake, muito por conta das narrações perpetradas por Jimmy, a partir dos olhos de Toby vemos que são criaturas cruas e doces, incapazes de entender o que é o mal. Toby tenta incutir neles alguma malícia, se sua empreitada tem êxito, só o tempo irá dizer.

Fica também nos Crakers a grande ironia de toda a saga. Se Crake queria criar seres que não fossem capazes de possuir cultura, vínculos profundos e formar uma sociedade, ele fracassou. Os Crakers constroem sua própria mitologia e são ávidos por saber, e cabe a Toby, e depois a Barba Negra, carregar para a posterioridade essa grande história.

“Faz tempo que esperava isso, e já tinha desistido de esperar. Ansiava por isso e chegou a negar que fosse possível. Mas agora é fácil. Assim como antes era fácil voltar ao lar para quem tinha lar, Cruzar a porta para um lugar familiar, um lugar que conhece você e que se abre, que permite que você entre. Um lugar que contava histórias que você precisava ouvir. Histórias das mãos e também da boca. Senti sua falta. Quem disse isso? Uma sombra na janela da noite, o brilho de um olho. Um batimento cardíaco sombrio. Sim. Enfim. É você”

Considero a trilogia de MaddAddão a distopia mais atual e próxima da realidade que já li. Originalmente publicada em 2003 e concluída em 2013, a saga de Margaret Atwood conversa com todas as questões atuais, mostrando mais uma vez a eficiência da autora na sua ficção especulativa. Margaret é capaz de ler o mundo, juntar as peças e nos entregar uma história que podia muito bem se tornar realidade.

O mundo de Atwood é incrivelmente consumista, utilitarista, a segurança é controlada pelas empresas privadas, o mundo, pelas grandes corporações. Quando olhamos o poder de empresas como Google, Facebook e Amazon não é difícil imaginar essa realidade. Com tão pouco em suas mãos, o Facebook foi capaz de interferir nas eleições de diversos países, inclusive no Brasil. A Amazon a cada dia se torna uma empresa maior, destruindo pequenos negócios e se tornando a grande revendedora do mundo. O Google possui os dados de bilhões de pessoas no planeta e não vê problema algum vendê-los para terceiros (ou utilizá-los para controlar o que você pensa).

Se a distopia de Margaret retrata esses fatos? Claro. Em MaddAddão vemos que as megacorporações controlam os governos e o que é ou não dito na mídia. E há também uma menção de hackers invadindo urnas eletrônicas pelo mundo. A sede dessa rede? O Rio de Janeiro. Podemos continuar com as questões ecológicas que levaram o mundo a essa situação distópica e posteriormente ao apocalipse.

Há a extinção em massa de animais, o aumento do nível do mar, o fim dos biomas, a poluição dos mares, e o mercúrio, a chuva ácida, a infertilidade dos solos levando ao aumento do preço dos alimentos. Eu poderia continuar a lista por mais vários parágrafos, mas não importa o que é dito no livro, a ficção se choca com o nosso mundo. Nada é mentira. Esse apocalipse ecológico está a dois passos de distância, e se os governos não tomarem medidas, cidades inteiras desaparecerão. Assim como acontece em MaddAddão.

Muito do que vimos nos livros anteriores passa a fazer mais sentido ao lermos MaddAddão. Acredito que isso ocorre porque as várias pontas soltas se escondem em Zeb, Adão e seus grupos de resistência. A oposição de ideias entre os dois irmãos também é central, sendo, mais uma vez, uma referência bíblica. Zeb e Adão são uma espécie de Caim e Abel. Mesmo que no final se amem e estejam lá um pelo outro, tem visões completamente opostas de como salvar o mundo.

“O que é uma cicatriz  é Toby? Seria a pergunta seguinte. Ela então teria que explicar o que é uma cicatriz. Uma cicatriz é como uma escrita no seu corpo. Fala de alguma coisa que já aconteceu com você, como um corte na sua pele de onde saiu sangue.”

Adão acredita na revolução pacifica e Zeb na revolução ativa. Triste ver que, no fim, quem orquestra o plano do extermínio humano, indo contra os princípios dos dois irmãos, é Crake. A vocação religiosa de Adão e a consciência ambiental de Zeb acabam surgindo pela criação dos dois irmãos. Rev, pai de Adão e Zeb, é pastor da Igreja do PetrOleum. Todas as atividades e doutrinas dessa religião são uma crítica às religiões neopentecostais, tão conservadores e escatológicas.  Mais um ponto para a autora. Margaret não perde uma.

Acredito é só com a leitura que você vá entender a magnitude e a polifonia da narrativa de Margaret Atwood. Tentei fazer uma resenha sem spoilers, ou dizendo o mínimo de forma a não atrapalhar essa experiência. Fazia muito tempo que não encontrava uma distopia que mexesse comigo da forma que 1984 mexeu.

Acho que a essa altura posso dizer com a boca cheia que essa é minha autora favorita. Agora que os livros terminaram, me resta esperar pela adaptação. Os direitos autorais foram adquiridos no início de 2018, com sorte não irá demorar para vermos essa série. Pelo menos o timing é perfeito. Espero ter conseguido instigar em você a vontade de ler esses livros, se consegui considero o meu trabalho concluído.

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Beatriz Kollenz

Queria ser mesmo uma garota mágica, infelizmente não deu nessa vida. Amo borboletas, mangas shoujo, desenhos animados e livros. Quando não estou voando nas nuvens costumo tocar piano, assistir um dorama ou sentar ao ar livre. Apesar de ser leonina sou muito tímida, a vida é assim, repleta de contradições.

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  1. Margaret é a autora não só do momento,mas jogando alto e sem vergonha alguma, a mulher é perfeita em suas letras!!!!
    Apesar de ainda não ter lido essa saga da autora, já li alguns livros anteriores e ela é maravilhosa. Conseguiu construir este cenário apocalíptico, pós destruição(tão atual né?rs)
    E mesmo assim, trouxe personagens reais, como todos nós,humanos sobreviventes!!!
    Preciso desta saga urgente!!!!
    As capas são incríveis!
    Beijo

  2. Tereza Cristina Machado comentou:

    Eu confesso que nunca li nada da autora, comprei recentemente o mais famoso que é o conto da aia (e estou ansiosa para ler), é uma autora que vejo sempre só elogios sobre seus livros, que ela aborda assuntos que são sempre atuais… eu já vi falar da série ( mas não vejo muitas resenhas sobre os outros). Eu gostei muito de sua resenha porque pelo que vi aqui é uma distopia do momento né?! Temos muitas megas empresas manipulando o mundo… quero muito os livros hahahaha.

  3. Elizete Silva comentou:

    Olá! Embora ainda não tenha lido (ainda) nada dessa autora tão aclamada, essa trilogia definitivamente me deixou bem curiosa, pois ela destaca uma situação, que não está assim tão longe da realidade do nosso dia-a-dia, descartamos móveis, equipamentos e roupas (talvez até pessoas!) sem muito bom senso, apenas porque queremos sempre o modelo mais moderno, acredito que um livro com uma escrita tão intensa, uma realidade um pouco absurda, mas com muitos pontos que poderiam se tornar reais é fundamental para que possamos refletir e também começar a agir por mudanças.