Resenhas 27dez • 2017

O Ódio Que Você Semeiapor Angie Thomas

O livro no Skoob e no Goodreads.

Título Original: The Hate U Give
Gênero do Livro: Romance, Young Adult, Ficção Juvenil, Contemporâneo
Editora: Galera Record
Ano de Publicação: 2017
Número de Páginas: 378
Código ISBN: 978-8501110817

Obs: Este livro foi cedido em parceria com a editora para resenha.

Comprar: SubmarinoLivraria CulturaLivraria SaraivaAmazonBook Depository (inglês)

Sinopse: "Uma história juvenil repleta de choques de realidade. Um livro necessário em tempos tão cruéis e extremos Starr aprendeu com os pais, ainda muito nova, como uma pessoa negra deve se comportar na frente de um policial. Não faça movimentos bruscos. Deixe sempre as mãos à mostra. Só fale quando te perguntarem algo. Seja obediente. Quando ela e seu amigo, Khalil, são parados por uma viatura, tudo o que Starr espera é que Khalil também conheça essas regras. Um movimento errado, uma suposição e os tiros disparam. De repente o amigo de infância da garota está no chão, coberto de sangue. Morto. Em luto, indignada com a injustiça tão explícita que presenciou e vivendo em duas realidades tão distintas (durante o dia, estuda numa escola cara, com colegas brancos e muito ricos - no fim da aula, volta para seu bairro, periférico e negro, um gueto dominado pelas gangues e oprimido pela polícia), Starr precisa descobrir a sua voz. Precisa decidir o que fazer com o triste poder que recebeu ao ser a única testemunha de um crime que pode ter um desfecho tão injusto como seu início. Acima de tudo Starr precisa fazer a coisa certa.

O Ódio Que Você Semeia é o livro de estreia da Angie Thomas, e foi publicado ainda no início desse ano, 2017. De lá pra cá, o livro foi parar na famosa lista do New York Times, em primeiro lugar, e de lá pra cá, ele também chamou minha atenção. Muito. Por razões mil, criei e alimentei altas expectativas pelo que encontraria no livro, graças à sinopse e à capa – passei o ano inteiro querendo lê-lo. Angie Thomas tocou em uma ferida bem feia e aberta dos Estados Unidos, e, talvez sem saber, tocou também em ferida brasileira – universal, talvez -, pois o livro aborda, dentre várias coisas, a alta taxa de mortalidade de jovens negros pela polícia em situações em que, normalmente, não fosse um negro na situação, a morte não ocorreria, e foi exatamente aí onde minhas expectativas encontraram abrigo. A Galera ainda fez uma playlist no Spotify, baseada no livro, mas eu adicionaria outras, mencionadas no livro, como fez a própria Angie Thomas, nessa playlist.

A capa do livro, com uma garota negra segurando um cartaz no qual se lê o título do livro em letras imensas, com apenas seus olhos a mostra, já me deu uma sensação de que eu sentiria um impacto, me lembrou protesto. A contracapa, com o jovem negro sem rosto, abaixo da frase “A justiça é cega?”, já me deu outra sensação, a de que eu precisaria ler com calma, sabendo que teria algum impacto, grande ou pequeno. Minhas expectativas se misturaram com o frio na barriga e eu soube que esse livro poderia ser bem significativo pra mim – não se tornaria uma bíblia ou algo do tipo, mas me tocaria de algum modo, me passaria alguma mensagem. Meu medo? A Angie Thomas ter me enganado com a sinopse e me deixar chupando dedo.

Logo nos primeiros capítulos foi possível compreender bem o contexto da Starr, a protagonista: moradora do gueto, negra, que se divide entre fragmentos de si mesma de acordo com o ambiente onde estiver: Starr de casa e dos amigos negros de Garden Heights, a Starr de Williamson, a escola privada de classe média-alta, no subúrbio, em que estuda, onde tem seus amigos brancos e seu namorado Chris. Em casa, Starr pode ser ela mesma, enquanto na escola, ela deve agir de forma neutra para não incorporar nenhum estereótipo de negra do gueto – e esses mundos não se misturam. Até aí, nada se mistura e ela consegue manter essa linha divisória perfeitamente. Em uma trágica noite, Starr testemunha o assassinado a sangue frio de seu melhor amigo, Khalil, por um policial. Ela tem dezesseis anos. Ele toma três tiros nas costas, estando desarmado.

“Já vi acontecer um monte de vezes uma pessoa negra é morta só por ser negra e o mundo vira um inferno. Já usei hashtags de luto no Twitter, reposteiro fotos no Tumblr e assinei todos os abaixo-assinado que vi por aí. Eu sempre disse que, se visse acontecer com alguém, minha voz seria a mais alta e garantiria que o mundo soubesse o que aconteceu. Agora, sou essa pessoa, e estou morrendo de medo de falar.”

Depois disso, nada se mantém da mesma forma. A linha imaginária que separava seus dois mundos foi apagada; os fragmentos de Starr que se sobressaíam de acordo com a ocasião entraram em conflito dentro dela. Starr começa a questionar coisas, a ser questionadas sobre quem ela realmente é, qual seu dever em relação aos seus semelhantes e sua comunidade – que, na minha opinião, é o que pareceu doer mais para ela.

O enredo de O Ódio Que Você Semeia, que é dividido em quatro partes, de acordo com o tempo na história, trata de temas como ativismo negro, minorias, da realidade em guetos ou, traduzindo aqui, favelas, racismo, relacionamentos interraciais, a responsabilidade do Estado de cuidar das pessoas, independente de qualquer coisa, e também da responsabilidade das pessoas de cuidarem de si, de seus ideais e dos locais onde vivem. São muitas coisas pesadas nesse livro, e o que mais me surpreendeu foi que a Angie Thomas se propôs falar de tudo isso e o fez com certa maestria. Ela merece todo o crédito por ter tocado em todos esses assuntos de forma não superficial, claro, aprofundando o que ela acreditou necessário aprofundar.

Angie poderia ter só utilizado esses temas que estão super em alta nas hashtags da vida, nos jornais, nos movimentos atividas como o Black Lives Matter para ganhar dinheiro, ou para dizer que fez algo a respeito. Mas ela realmente fez. Ela realmente cumpriu o propósito de colocar as cartas na mesa, mostrar os problemas e falar sobre eles, doa a quem doer, sem panos quentes.

Esse é o problema. Nós deixamos as pessoas dizerem coisas, e elas dizem tanto que se torna uma coisa natural para elas e normal para nós. Qual é o sentido de ter voz se você vai ficar em silêncio nos momentos que não deveria?

No livro, Angie apenas aponta fatos e “nomeia os bois”, informando ao leitor quando algum personagem está errado e, consequentemente, informando ao leitor o que não deve ser repetido na vida real. É uma leitura bem didática e, ao contrário do que algumas pessoas possam vir a pensar, o livro não é destinado apenas à pessoas negras. Por mais representativo que seja, é bem aberto e indicado para qualquer pessoa que seja um ser humano e viva em comunidade com outros seres humanos. O aprendizado de quem pega O Ódio Que Você Semeia para ler é rico, significativo, especialmente se a pessoa estiver aberta a isso.

A troca de ambientes e cenários do livro são bem feitos, não tive a sensação de estar confusa com isso, muito menos com a quantidade de personagens divididas por esses ambientes. Angie soube realmente como causar diversas sensações em mim, e soube, principalmente, equilibrar o drama todo que o enredo principal exigia com uma sutileza em outros pontos: você encontra humor em diversas páginas do livro, mas são tão bem encaixados, e tão não escrachados, que é possível você imaginar esses diálogos e situações na vida real. A respeito dos personagens, posso dizer que todos evoluíram durante a trama, não tinha um que fosse para encher linguiça.

Foi justamente isso, encontrar essa vida real dentro do livro, que mais me doeu. As mensagens passadas com a história de Starr e de sua família, com a morte de Khalil e com os outros personagens do livro – Seven, DeVante, Kenya, personagens fortes e que são os retratos escritos de tantos adolescentes que eu já vi por perto! – são poderosas. Realmente. De acordo com uma das citações na contracapa, esse livro é um tapa na cara. Pois eu diria que é um daqueles tapas que te deixam sentir o gosto de ferrugem na boca, que causam incômodo mesmo.

Dou uma risada e roubo umas balas dela. O namorado de Maya, Ryan, por acaso é o único outro menino negro do segundo ano, e todo mundo espera que a gente fique junto. Porque, aparentemente, se nós somos só dois, temos que participar de alguma p**** estilo Arca de Noé e fazer par para preservar a negritude do nosso ano.

Devorei o livro em um dia. Fiz diversas pausas, eu chorava, ficava emotiva, às vezes precisava respirar porque a sensação de falta de ar surgia a cada vez que Starr passava por um policial, ou quando seu pai foi empurrado para o chão e teve os pés de um policial nas costas, em frente aos seus três filhos, só por birra do oficial. O Ódio Que Você Semeia me deixou pensativa, um pouco mais consciente de algumas questões e, com certeza, com as minhas expectativas superadas. Sei que a resenha ficou grande mas, acreditem, o livro é inspirador, é honesto, é incrível. Agora, depois de todo esse papo, vocês já leram O Ódio Que Você Semeia? Quais sensações tiveram? O que pensaram da história?

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Rafaela Rodrigues ver todos os artigos
Estudante de Letras Port/Inglês/Literaturas, viciada em livros, textos e séries. Português ou inglês? Ah, tá muito ocupada com um desses hobbies pra poder decidir. É prima (bem) distante da Beyoncé e um dia vai ser dona de uma editora e lançar todas as continuações dos livros que gosta, mas que nem os próprios autores quiseram escrever.

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5 Comentários

  • […] representatividade e conteúdo para debate e reflexão. Para a alegria de vários leitores, o livro está sendo adaptado para o cinema e, em breve, poderemos […]

  • […] Imagem: La Oliphant […]

  • Janaina Silva
    09 jan 2018

    Olá,tudo bem?
    Não conhecia esse livro e pela sua resenha , deve ser realmente impactante viver o tempo inteiro à mercê do medo como a personagem Starr. 🙁
    Só quem passa por situações como essa ,sabe o peso do preconceito em suas vidas.
    Espero ainda poder ter a chance de conhecer esse livro e me emocionar com os personagens.

  • Danielle Gaspar
    05 jan 2018

    Ainda nao li o livro, mas acabou de entrar na minha lista prioritária. Sou casada com um homem negro, e tenho duas filhas. Antes de conhece-lo achava que racismo nao existia, sim, me envergonho de admitir, mas pensava assim. Depois que o conheci percebi como é real. Essa questão com a policia é algo que existe sim no Brasil. Quantas vezes meu marido, sozinho, já foi parado, e ele mesmo sempre me.explicou que havia toda uma forma de lidar com a policia. Meu irmão, que tem a mesma idade dele, são muito amigos, frequentam os mesmos lugares, nunca foi parado pela policia.
    E hoje, com minhas filhas, tenho essa preocupação… Percebo como as coisas são jogadas para debaixo do tapete, e esse livro deve ser “um tapa na cara” porque realmente é algo que acontece todo dia. Só nao vê quem não quer…

  • Debyh
    04 jan 2018

    Olá,
    Antes de ler este livro eu já sabia do que se tratava, não tinha recebido spoiler nem nada, mas eu tinha uma visão geral do que seria a história. E de fato algumas coisa aconteceram como eu esperava, mas me surpreendi em alguns momentos com a protagonista.
    Realmente é um livro bem emocionante!

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