livros
Categoria(s): livros

Tarde Demais, por Colleen Hoover

de Colleen Hoover
Título Original: Too Late
Gênero do Livro: New Adult, Contemporâneo, Abuso
Editora: Record
Ano de Publicação: 2018
Número de Páginas: 384
Código ISBN: 9788501115003
Sinopse: A autora best-seller do The New York Times está de volta com um romance ainda mais sombrio, intenso e assustadoramente real. Para proteger o irmão, Sloan foi ao inferno e fez dele seu lar. Ela está presa em um relacionamento com Asa Jackson, um perigoso traficante, e quanto mais os dias passam, mais parece impossível enxergar uma saída. Imersa em uma casa incontrolável que mais parece um quartel general, rodeada por homens que ela teme e sem um minuto de silêncio, também parece impossível encontrar qualquer motivo para se sentir bem. Até Carter surgir em sua vida. Sloan é a melhor coisa que já aconteceu a Asa. E se você perguntasse ao rapaz, ele diria que também é a melhor coisa que já aconteceu a Sloan. Apesar de a garota não aprovar seu arriscado estilo de vida, Asa faz o que é preciso para permanecer sempre um passo a frente em seu negócio e proteger sua garota. Até Carter surgir em sua vida. A chegada de Carter pode afetar o frágil equilíbrio que Sloan lutou tanto para conquistar, mas também pode significar sua única saída de uma situação que está ficando insustentável. Colleen Hoover não tem medo de escrever sobre assuntos delicados e Tarde demais prova isso. Perpassando as formas mais cotidianas de machismo até as formas mais intensas e cruéis de abuso, a autora mergulha na espiral atordoante que é um relacionamento abusivo.

Esta vai ser uma das resenhas mais complicadas de se fazer, então podem se preparar porque eu tenho muita coisa para falar e as chances disso aqui ser enorme são muitas, ok? Colleen Hoover é conhecida pelos seus livros que retratam relacionamentos abusivos, inclusive, são poucos os livros dela que não falam sobre esse assunto. Eu sempre fui uma grande leitora de Hoover e sempre consegui entender o que ela queria passar com seus enredos, porém, com Tarde Demais, eu acho que a autora não só perdeu a mão, como entregou um enredo perigoso aos seus leitores.

Tarde Demais é narrado por três protagonistas diferentes: Sloan, Asa e Carter. Para mim, esse foi o primeiro erro de Hoover. Com exceção do Asa, nenhum dos outros protagonistas é realmente desenvolvido no enredo, além de não serem narradores muito confiáveis. Nós começamos o livro com o ponto de vista de Sloan que, aparentemente, está num relacionamento abusivo. Eu digo “aparentemente” porque ao longo do enredo a autora deixa muitas pontas soltas e diálogos abertos que fazem com que o leitor questione a veracidade do que é dito pela protagonista e isso me incomodou muito.

“Não tenho energia suficiente para dizer a ela que é tarde demais. Fecho os olhos pela última vez. Mas tudo bem, porque ela é tudo o que vejo. Ela é a última coisa que vou ver.”

O livro é extenso. Muito extenso. O enredo inteiro gira em torno de pequenas cenas conturbadas que mostram a natureza perturbada de todos os personagens (incluindo Carter, que supostamente deveria ser o mocinho). Quando finalmente chegamos ao ápice do livro, percebemos que ainda existe mais umas duzentas páginas pela frente. Epílogos, prólogos, epílogo do prólogo, flashbacks. Uma confusão de informações que não acrescentam nada na história e não fazem com que a gente crie nenhum tipo de empatia por nenhum dos personagens.

E por falar em empatia, eis o grande problema do livro: a humanização do agressor. Hoover conseguiu a proeza de roubar o protagonismo da vítima, transformá-la em uma narradora não confiável e, ao mesmo tempo, fazer com que o leitor crie uma certa empatia com o agressor. Por mais que ela plante uma dúvida na cabeça de quem está lendo, Asa é um agressor. Ele estupra e abusa psicologicamente de Sloan desde a primeira cena do livro. Porém, quando a autora começa a mostrar a vida difícil que ele teve e os possíveis problemas psicológicos, Asa começa a deixar de ser um agressor e passa a ser alguém que precisa de ajuda – e isso me deixou muito revoltada.

Sloan é a pior protagonista que Colleen Hoover poderia ter escrito até hoje. Ela não é confiável, sua personalidade é muito manipuladora e o jeito como ela lida com a situação soa frio e calculista. Durante todo o livro a autora afirma que Sloan é inteligente e esperta e dá a entender de que ela está naquela situação por livre e espontânea vontade. Inclusive, em vários momentos, parece que ela está usando Asa por causa do seu dinheiro mais do que ele está abusando dela. Existe um momento no livro em que Sloan afirma que não pode deixar Asa por causa do irmão, mas em nenhum momento, durante o livro inteiro, Asa usa o irmão de Sloan como barganha para fazê-la ficar, o que cria no leitor uma dúvida sobre o caráter da nossa suposta vítima.

“Ninguém deveria levar uma vida sem nunca se sentir verdadeiramente cuidado – nem mesmo pelos pais que o criaram. E, no entanto, vivi isso durante vinte anos.
Até este momento.”

Carter é o pior policial disfarçado que existe na história de policiais.  Em menos de um capítulo ele conseguiu destruir o seu disfarce e colocar toda a operação em risco. Além disso, a sua relação com Sloan é vazia, sem nenhum tipo de conexão emocional real, que possa fazer com que o leitor torça por eles no final. Tudo entre eles acontece muito rápido. Em um minuto eles acabaram de se conhecer, no outro eles estão entregues a uma paixão avassaladora que nem ao menos faz sentido. E ainda existe o fato de que Sloan acredita de Carter é um traficante, o que me faz questionar porque ela quer largar um traficante para ficar com outro que pode ser tão pior quanto. Se alguém entendeu essa parte, me explica.

Asa, honestamente, é o único personagem com o mínimo de desenvolvimento no enredo inteiro. Você conhece muito mais sobre o background do agressor do que você sabe sobre a vítima. Essa humanização que a autora deu ao personagem, me fez questionar o motivo de ela ter escrito o livro, até porque, durante todo o enredo, eu percebia que Hoover tentava encontrar formas para justificar o comportamento de Asa com o seu histórico familiar a possibilidade de ele estar psicologicamente doente. Isso, querendo ou não, acaba criando uma certa empatia pelo agressor, muito maior do que a empatia pela vítima que, nesse ponto do livro, nem ao menos sabemos mais se é realmente uma vítima.

E então entramos na questão do estupro, que para mim foi a parte mais absurda do livro. Desde o primeiro capítulo você se agarra fielmente a afirmação de que Asa estupra Sloan, porém, conforme a história vai avançando você começa a questionar se Sloan não permite os abusos para usar isso como arma contra Asa quando lhe é conveniente. Isso acontece em vários pontos do livro onde em alguns momentos ela se mostra bastante consciente de sua situação, onde ela sabe que pode ir embora e largar Asa no passado, mas insiste em ficar por causa de qualquer motivo que ela julgue ser o suficiente.

Eu realmente não estou sabendo lidar com esse livro, principalmente porque não parece ser a mesma autora que escreveu “É Assim Que Acaba”. A escrita é densa, os personagens são mal desenvolvidos e a ordem dos acontecimentos é completamente confusa. Eu não consegui me conectar com o enredo, me senti enjoada na maior parte das cenas e senti raiva, como leitora e como mulher, pelo fato de ela estar humanizando um agressor e descredibilizando a vitima durante todo o livro. Gostaria muito de sabe de onde Hoover tirou a ideia de que publicar Tarde Demais iria ser uma boa ideia. Esse livro é ofensivo a toda e qualquer mulher que sofreu abuso algum dia.

Ei, não vai embora antes de participar do nosso top comentarista de setembro, tá?

Gostou? Compartilhe!pinterest twitter facebook
Débora Costa

Uma intelectual contemporânea que entende a importância da convergência de mídias, telas e narrativas. Acompanhando mais séries do que deveria e não consigo fazer uma coisa de cada vez. Ainda quero escrever um romance de época um dia.

Deixe seu comentário

  1. Ludyanne Carvalho comentou:

    Sou muito fã da CoHo, mas depois de tantas resenhas negativas sobre esse livro eu acho que preciso reler, porque li errado e dei 5 estrelas.
    Eu me deixei levar pela emoção… Não gostei do Asa, mas no decorrer da história comecei a sentir empatia por ele; logo depois eu pensei: acorda, os fins não justificam os meios. E a repulsa voltou.
    Também não senti uma conexão entre Sloan e Carter e, senti falta do irmão dela.
    Colleen criou personagens muito humanos, cheio de falhas…

    Lembro que ela publicou esse livro em uma plataforma digital e com um pseudônimo porque é bem diferente do seus outros livros, e se eu não estiver enganada, só foi publicado o físico porque os leitores pediram.

    Confesso que depois de ler as críticas sobre esse livro, comecei a me perguntar se gostei porque a história realmente me conquistou ou se é por conta desse amor que tenho pela CoHo. Vale a reflexão… Acho que a segunda alternativa é mais provável, e estou tentando aprender que nem sempre nosso autor favorito vai escrever boas histórias.

    Gostei muito da sua resenha e da maneira como abordou os pontos negativos.

    Beijos

  2. Pamela Liu comentou:

    Oi Débora.
    Eu adoro os livros da CoHo. Ainda não li Tarde de mais, mas vi muuuuitas críticas negativas sobre ele.
    Parece que a autora perdeu a mão nessa história.
    Pelo o que eu entendi essa história foi escrita aos poucos, no wattpad, e por isso não parece que a autora escreveu, pois ela foi alterando a história conforme sugestão dos leitores.
    De qualquer forma, ela podia não ter publicado pela editora ou podia ter reescrito a história.
    Não tenho nenhum vontade de ler esse livro.
    Romantizar o estupro e/ou fazer o leitor ter empatia pelo abusador é algo que não está certo e não deve ser incentivada.
    Beijos

  3. Daiane Araújo comentou:

    Oi, Débora,

    Esse foi um livro que eu não gostei nenhum pouco. Acho que em algum momento, a autora se perdeu – desenvolvendo assim o livro de forma fraca, com uma impotência grotesca e evidente.

    Ao meu ver, ela pecou no desenvolvimento e personalidades dos personagens. A Colleen novamente construiu todo um passado onde ela pôde encontrar meios justificáveis para as atitudes infindáveis do Asa. Você falou tudo, No geral, não consegui gostar de nenhum personagem.

    A autora tinha em mãos um assunto primordial, no qual tinha muito o que ser explorado, mas não soube aproveitar… O desenvolveu de forma banal. De todos os livros dela – que eu li até agora -, esse sem dúvidas, é o pior. Livro fraco, não é recomendável!

  4. Carolina Leocadio comentou:

    Olá, Débora.

    Obrigada pela resenha sincera. Livros que abordam relacionamento abusivos precisam ter muita precaução justamente para não errar a mão.

    Não aconselham, mas, sinceramente, acho que você deveria mandar um e-mail para ela e para a editora brasileira. No caso da editora, para deixar claro sobre o puta gatilho do livro. E no caso da autora, para que ela ajuste a maneira de abordar homens agressivos de modo que não agrida leitoras que já foram vítimas dessa situação.

  5. Oi Debora,
    A ideia dela de publicar veio da insistência das leitoras que estavam lendo no Wattpad, segundo ela, Tarde demais era só uma distração, uma forma de fugir dos livros que realmente tinham prazos, mas enfim. Quando tarde de mais foi anunciado, fiquei eufórica, É assim que acaba tinha sido incrível e me deixado de ressaca, mas confesso que nem consegui ler, eu tive um relacionamento abuso e a primeira cena já foi um ápice pra mim, depois vieram as desculpas e o romance miojo com Cárter, não consegui ler… Achei que tinha algo de errado porque sempre engulo os livros dela, mas depois comecei a ver resenhas negativas e descobri que eu não era a única que tinha pego aversão pelo livro, eu também não sei qual a ideia dela, mas confesso que não tenho a mínima vontade de terminar a leitura. Sua resenha representa muito bem a síncope de sentimentos que esse livro proporciona!!!

  6. Kleyse Oliveira comentou:

    Hello Débora!
    Eu estou bem dívida, pois amei a capa ela é maravilhosa, e também porque vi resenhas positivas outras negativas então estou meio a meio se compro para ler ou não.

  7. Bianca comentou:

    Olá, Débora!
    Sua resenha não é a primeira que vejo que aponta aspectos negativos desse livro. Antes dele ser publicado aqui no Brasil, eu já tinha visto alguns comentários sobre ele e percebi que não possuía interesse nessa leitura pelas situações que são abordadas.
    Minha relação com a Colleen Hoover é de altos e baixos, há livros dela que amei ler como Métrica e outros como Novembro, 9 que não gostei. Este último me senti muito incomodada com os pensamentos, falas e atitudes do protagonista masculino. Acabei com isso percebendo que nem todos as histórias da Colleen são para mim.
    Não lerei Tarde Demais, contudo tenho vontade de ler Without Merit pois sua sinopse e as resenhas que vi chamaram minha atenção. Por sinal descobrir hoje que ele será o próximo livro da autora publicado pela galera record, o título será As Mil Partes do Meu Coração. Espero desse gostar como gostei de Métrica!

  8. Este é um livro que já esta na minha lista de desejados. Eu adoro a escrita da autora, mas foi uma grande surpresa a quantidade de resenhas negativas que li sobre ele, e creio que so lendo mesmo para ter noção do quanto a historia se tornou pesada ao abordar a temática de abuso.

  9. Luana Martins comentou:

    Olá, Débora
    Li várias resenhas desse livro, mas ainda não tive a oportunidade de ler.
    Conheço a escrita de Collen Hoover através do livro É Assim Que Acaba e como você disse não parece a mesma autora que escreveu Tarde Demais.
    Ainda estou me decidindo que quero ler esse livro.
    Beijos!