Resenhas 14jun • 2018

A Tenda Vermelhapor Anita Diamant

O livro no Skoob e no Goodreads.

Título Original: The Red Tend
Gênero do Livro: Romance de Época, Ficção, Cristianismo,
Editora: Verus Editora
Ano de Publicação: 2018
Número de Páginas: 294
Código ISBN: ISBN-13:

Obs: Este livro foi cedido em parceria com a editora para resenha.

Comprar: Amazon

Sinopse: Uma história extraordinária sobre a condição ancestral da mulher. Um livro emocionante que traz poderosas lições de amor, perdão e sororidade. O livro que deu origem à série da Netflix Seu nome é Dinah. Na Bíblia, sua vida é mencionada em um breve episódio no livro do Gênesis, nos capítulos sobre seu pai, Jacó. Narrado na voz de Dinah, este romance revela as tradições e as turbulências de ser mulher na antiguidade. A tenda vermelha era o lugar em que as mulheres se reuniam durante seus ciclos de nascimento e menstruação ou quando estavam doentes.

A Tenda Vermelha é um romance escrito por Anita Diamant e lançado pela editora Verus em 2018. A história é uma versão feminina da vida de Dinah, filha de Jacó, por conta deste recorte há uma grande distinção entre o que ocorre no livro e o que é narrado na Bíblia.

O romance se inicia com Dinah nos contando como sua mãe conheceu Jacó. Após fugir de seu irmão Esaú, Jacó parte para as terras de Labão onde primeiramente conhece Raquel. Depois de algum tempo trabalhando nas terras de Labão ele se casa com Lia, a mãe de Dinah, e com Raquel, e leva como parte do dote as outras duas irmãs, Zilpah e Bilah. Jacó tem com Lia oito filhos, sendo Dinah a última a nascer e a única filha que Jacó viria a ter.

A descendência de Dinah é famosa, seu pai é o último patriarca do povo judeu, seu irmão José é conhecido por ser vendido aos egípcios pelos irmãos, José, pai de Jesus, descende da família de Judá, contudo não existem muitas citações sobre Dinah e suas mães na Bíblia. Talvez a mais famosa delas seja Raquel, ela é inclusive uma das fontes de inspiração para Margaret Atwood em O Conto da Aia. Raquel não consegue ter filhos, então oferece Bilah a Jacó buscando tê-los por meio dela. O esquecimento feminino é uma das temáticas do livro, mas o grande foco é a tenda vermelha.

Todo mês durante a menstruação as mulheres se retiram para tenda vermelha e ficam reclusas durante três dias. O descanso delas é respeitado e é proibida a entrada de homens na tenda. É também lá que ocorrem os partos, o puerpério e os rituais de fertilidade. O corpo feminino é celebrado e adorado, a menstruação é uma dádiva sagrada. As mulheres encontram na tenda os costumes antigos e valor que não encontram em um mundo extremamente patriarcal. No livro, elas são devotas de várias divindades sumérias, como a Innana e Ishtar, deusas cultuadas pela fertilidade, amor e sexo. Os segredos do corpo feminino, da fertilidade e do sexo não são uma vergonha ou um problema, as mulheres honram e sentem orgulho da sua condição. O sangue menstrual é sagrado, recolhido e devolvido a terra.

“Transmiti as histórias de minhas mães para a geração seguinte, mas as histórias da minha vida me foram proibidas, e aquele silêncio quase destruiu a minha alma, quase me matou. Não morri, porém, e vivi o suficiente para que outras histórias enchessem meus dias e minhas noites. Vi recém-nascidos abrirem os olhos para um mundo novo. Descobri motivos para rir e para sentir gratidão. Fui amada. (…) Sinto-me imensamente grata por vocês terem vindo. Vou deixar fluir tudo o que guardei em minha memória para que todas se levantem desta mesa satisfeitas e revigoradas.”

As mulheres mantêm seus costumes e compartilham conhecimento, principalmente no que diz respeito a ervas e ao trabalho de parto. As parteiras são muito respeitadas e amadas, elas sabem como trazer uma vida ao mundo. O parto é quase ritualístico, feito junto de cantos e orações, em uma época sem muitos recursos é normal essa devoção. No livro temos descrição de alguns partos difíceis onde crianças nascem invertidas ou com o cordão umbilical enrolado no pescoço, a morte sempre está à espreita durante o nascimento, mulheres e crianças morriam a esmo. Raquel, por exemplo, aborta várias vezes, essa é inclusive uma das razões da discórdia entre ela e as irmãs.

Dinah nos conta sobre suas mães, sobre a violência que as mulheres sofrem, sobre os costumes de seu povo. Muito da narrativa de A Tenda Vermelha me fez lembrar As Brumas de Avalon. Rebecca é quase uma sacerdotisa, as mães de Dinah cultuam deusas e as tradições do sagrado feminino. Uma parte bem marcante do livro ocorre entre Rebecca e uma das filhas de Esaú, nela podemos ver o desespero da matriarca ao ver os costumes antigos esvaindo-se. Com o tempo as mulheres são vistas com maus olhos, seus rituais são desprezados e sua virgindade passa a ser um troféu. Se antes elas comiam e bebiam enquanto repousavam na tenda vermelha, agora são obrigadas a ficarem trancadas, presas na companhia da vergonha durante seus dias de lua.

“Acha que nem o mais esperto dos homens percebe quanto sabemos e o que fazemos entre nós”

Dinah despreza seu pai e seus irmãos, eles não são diferentes dos outros homens: cruéis, brutos, sem o menor respeito pelas deusas e por suas esposas. Na Bíblia, a única coisa que sabemos de Dinah é que ela foi estuprada. Esse fato não escapa das mãos de Anita, a autora nos dá uma bela visão do ocorrido. Tudo que diz respeito às mulheres é contado de uma maneira empoderadora, bem diferente da visão bíblica a qual estamos acostumados.

A escrita da Anita é muito envolvente, o livro é gostoso de ler e fica ainda melhor se você parar para fazer pesquisas. Aprendi muito sobre as histórias bíblicas, sobre o folclore da região, sobre os costumes do povo judeu, para mim as melhores leituras são aquelas que vão além do enredo. Livros que trazem mais para nossa vida são enriquecedores. Leitura mais do que recomendada, só vale lembrar que o livro não se propõe a ser fiel aos relatos bíblicos, assim ninguém se incomoda na leitura.

Ficou interessado? Então aproveite as ofertas da Amazon e coloque A Tenda Vermelha na estante!

Beatriz Kollenz ver todos os artigos
Queria ser mesmo uma garota mágica, infelizmente não deu nessa vida. Amo borboletas, mangas shoujo, desenhos animados e livros. Quando não estou voando nas nuvens costumo tocar piano, assistir um dorama ou sentar ao ar livre. Apesar de ser leonina sou muito tímida, a vida é assim, repleta de contradições.

Posts relacionados

Comente com o Facebook

Comente pelo WordPress

14 Comentários

  • suzana cariri
    30 jun 2018

    Oi!
    Já tinha visto falar desse livro e ficado interessada na historia, achei diferente a ideia da autora e fiquei curiosa para ver como ela conduz a historia, parece que ela consegue levantar varias questões e gostei muito como o livro acaba nos intensivando a pesquisar, busca mais informações, se tiver oportunidade quero ler !!

  • Ana Carolina Venceslau Dos Santos
    30 jun 2018

    O que mais me chamou atenção a releitura do conto bíblico foi realmente conhecer novas civilizações que não são tão abordadas no campo da literatura e sinceramente foi impossível não morrer de amores pela adaptação que teve Infelizmente ainda não pude ler o livro

  • Eu acho sempre muito interessante acompanhar narrativas que envolvem outras civilizações e seus próprios costumes, ainda mais quando elas são contadas através de uma voz feminina. O que mais me chamou atenção nesse livro em particular foi a inversão que temos da história bíblica, que privilegia, querendo ou não, a perspectiva masculina da história e muitas vezes até mesmo oculta as vozes e personagens femininas. A sacada da autora em trocar os papéis não só permite uma ampliação da história, mas também uma maior compreensão do papel da mulher nessa cultura, dos rituais e das crenças desse povo, o que definitivamente nos agrega muito como leitores e humanos. Acho que é um livro que vale super a pena.

  • Camila Rezende
    27 jun 2018

    Olá Beatriz,
    Não conhecia o livro e achei a estória interessante.
    Não tenho muito conhecimento da Bíblia então fiquei curiosa pra ler um romance que foi baseado em uma pessoa de lá.
    Se eu tiver a oportunidade de ler esse livro, vou tentar ler mais sobre a personagem pra conhecer melhor a estória dela.

  • Elizete Silva
    25 jun 2018

    Olá! Confesso que não conhecia o livro, mas a história parece ser bem interessante, gosto de livros que remetem a fatos bíblicos e a forma como tudo foi retratado. Bacana conhecer um pouco dos costumes antigos.

  • Atraentemente Evandro
    19 jun 2018

    Eu não conhecia o livro e nem tinha ideia do que realmente tratava seu enredo. A capa tá linda. Acho que a Bíblia tem muitas histórias incríveis e nem todas são aprofundadas, por isso gosto quando alguém se inspira nelas para nos trazer um enredo interessante e forte. Todos esses costumes e tradições só aumentam minha curiosidade com a obra. Quero muito ler. Eu ainda não li nada da autora, mas já ouvi falar diversas vezes em O conto da Aia.

  • Vitória Pantielly
    16 jun 2018

    Oi Beatriz,
    Interessante essa “passagem” da visão na mulher não é? Tudo remete ao machismo, enquanto antes eram respeitadas em seus momentos, depois se via uma completa falta de respeito, e é algo que permanece até hoje, pode não ser da forma mostrada no livro, mas nas entrelinhas podemos dizer que fazer parte da nossa realidade!
    Não é um livro que me interessaria logo de cara, não sou fã de histórias que remetem a bíblia, mas por mostrar um pouco da força feminina eu gostei, e pelos personagens que já temos um pré conhecimento sobre eles.
    Bom saber que a autora trabalhou bem a história, gostei do enredo apresentado.
    Beijos

  • Micheli Pegoraro
    15 jun 2018

    Oi Beatriz,
    Estava aguardando uma resenha desse livro, pois desde que vi a divulgação do lançamento fiquei interessada em saber mais do que o enredo aborda. É uma leitura enriquecedora mesmo, com foco na visão feminina de uma época em que apenas conhecemos através das histórias bíblicas. A Dinah pelo jeito é uma mulher forte mas que sofre com a convivência de seus familiares masculinos. Uma leitura que revela os costumes femininos, onde acompanhamos as tradições sendo deixadas de lado aos poucos.
    Por coincidência a minha leitura atual é O Conto da Aia, a autora Margaret Atwood teve uma inspiração e tanto para escrever o livro.
    Beijos

  • Bruna Lago
    15 jun 2018

    Imagino que há mesmo uma grande diferença da história contada, já que essa narra a versão de Dinah. Como a vida era tão diferente nessa época, não é? Analisar como Jacó teve várias mulheres e tantos filhos assim, com certeza é uma viagem histórica, ainda mais que as mulheres eram tão submissas.
    Parece ser mesmo uma leitura e tanto, já conhecia a versão bíblica, então fiquei curiosa quando a esse livro. Muito interessante ver esses costumes da época retratados no livro.

  • Gislaine Lopes
    15 jun 2018

    Oi Beatriz,
    Não conheço muito a história da Bíblia (exceto pelo básico), mas tenho uma grande curiosidade em conhecer mais. Tenda Vermelha pode ser um bom incentivo a isso. Quando se retrata mulheres em livro há diferentes caminhos que podem ser usados, aqui a autora nos trás algo mais sagrado. O companheirismo, as confidências e a dedicação que demostram umas pelas outras é admirável. Mas há também uma realidade que hoje se faz mais presente na nossa cultura que é o desrespeito e a crueldade com a mulher. Não sei nada sobre a história de Dinah, mas fiquei bem interessada neste livro.

  • Theresa Cavalcanti
    14 jun 2018

    Oi Beatriz,
    Eu já conhecia esse livro, mas não tinha ficado muito empolgada para ler. Sua resenha fez com que eu visse o livro com outros olhos, com isso de empoderamento feminino. Então fiquei com muita vontade de ler!

  • Pamela Liu
    14 jun 2018

    Oi Beatriz.
    Gostei bastante da premissa do livro.
    Eu e a minha família não temos religião, então não tenho muito conhecimento sobre as histórias bíblicas.
    Achei interessante a história não ser fiel à bíblia, mas ter algumas partes baseadas nela. Para mim vai ser novo saber um pouco sobre como devia ser os costumes da época.
    Achei a capa lindíssima.
    Beijos

  • Lili Aragão
    14 jun 2018

    Livros que nos levam a adquirir mais conhecimento são mesmo muito bons e pela resenha já deu pra começar a entrar no mundo do livro que como você diz não se propõe a ser fiel aos escritos da Bíblia. Imagino que essa seja uma história triste em certos momentos, de ter seus dias respeitados e serem considerados uma vergonha deve ser bem ruim. Tô curiosa com a série da Netflix e gostei da resenha.

  • Daiane Araújo
    14 jun 2018

    Oi, Beatriz.

    Uma característica marcante do livro, sem dúvidas é a feminilidade em destaque, que não fôra posta de lado.

    A autora merece destaque, por ter dado voz e altivez às mulheres daquela época. Enfim, me parece ser um livro completo.

  • Siga o @laoliphantblogInstagram