Resenhas 08jan • 2018

Vulgo Gracepor Margaret Atwood

O livro no Skoob e no Goodreads.

Título Original: Alias Grace
Gênero do Livro: Ficção histórica, mistério
Editora: Rocco
Ano de Publicação: 2017
Número de Páginas: 496
Código ISBN: 9788532523532

Obs: Este livro foi cedido em parceria com a editora para resenha.

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Sinopse: Depois de O conto da aia, que deu origem à prestigiada série The handmaid’s tale e alcançou o status de bestseller mais de 30 anos após a publicação original, outro romance de Margaret Atwood vai ganhar as telas, desta vez pela Netflix, e volta às prateleiras com nova capa pela Rocco. Inspirado num caso real, Vulgo Grace conta a trajetória de Grace Marks, uma criada condenada à prisão perpétua por ter ajudado a assassinar o patrão e a governanta da casa onde trabalhava, na Toronto do século XIX. Com uma narrativa repleta de sutilezas que revelam um pouco da personalidade e do passado da personagem, estimulando o leitor a formar sua própria opinião sobre ela, Atwood guarda as respostas definitivas para o fim. Afinal, o que teria levado Grace Marks a cometer o crime? Ou será que ela estaria sendo vitima de uma injustiça?

Relançado em 2017 com um novo projeto gráfico, Vulgo Grace é um romance histórico escrito com maestria por Margaret Atwood. A escritora, conhecida principalmente pelo Conto da Aia, ganhou o mundo em 2017, não era de se esperar menos. Nascida no Canadá e vencedora de diversos prêmios, Margaret Atwood chegou a inclusive entrar na lista dos possíveis ganhadores do Nobel de Literatura do ano passado.

“Na palma da minha mão há uma desgraça. Devo ter nascido com ela. Carrego-a comigo onde quer que eu vá. Quando ele me tocou, a má sorte transferiu-se para ele.”

Vulgo Grace é baseado na história real de Grace Marks, uma empregada acusada de assassinato no século XIX. Toda a história envolta da morte de Thomas Kinnear e de Nancy Montgomery é obscura. Os motivos que levaram Grace a participar do assassinato, ao lado do outro empregado, James McDermott, nunca ficaram claros. Existiam especulações maliciosas, criadas por jornais sensacionalistas e fomentadas pelos depoimentos contraditórios que ela deu. No final, James foi condenado à forca e Grace a prisão perpétua.

Grace era uma jovem de 16 anos quando foi colocada atrás das grades. Imigrante Irlandesa, o fato de ser protestante foi uma das coisas que a salvou da forca. Ser jovem e bela também contribuiu. A sociedade extremamente patriarcal via como uma obrigação a proteção das mulheres, a igreja dizia que todas elas eram puras por natureza, o fato de uma mulher participar de um assassinato era um escândalo. Grace teve sorte e um bom advogado. Apelando para a inocência, loucura e o que mais pudesse, ele conseguiu livrar Grace da pena capital. Apesar de escapar da forca, ela passou grande parte da vida atrás das grades. Infelizmente, Grace não pode ser deixada em paz.

Vários médicos, pastores, jornalistas, escritores, vinham de todos os lados querendo conhecê-la. É a partir dessa brecha histórica que Margaret inicia a história. Um médico interessado pelos mistérios da mente, estudante da amnésia e da psiquiatria, é contratado pelos clérigos protestantes interessados pela soltura de Grace Marks. O Dr. Simon Jordan interroga Grace e partir dessas interações ficamos conhecendo sua história.

“É de manhã, é hora de levantar e hoje devo continuar com a história. Ou a história deve continuar comigo, carregando-me dentro dela, pelo caminho que deve percorrer, diretamente para o fim, chorando como um trem, surda, com apenas um olho e hermeticamente trancada; embora eu me jogue contra suas paredes, grite e chore, e suplique a Deus para me deixar sair.”

Margaret Atwood nos mostra em Vulgo Grace o outro lado do que é ser uma mulher. Se em O Conto da Aia nós víamos uma sociedade distópica onde as mulheres eram quase escravas, em Vulgo Grace somos colocados no seio do século XIX, um época onde direito e mulher eram palavras que não andavam juntas. Nos capítulos narrados em primeira pessoa, Margaret questiona o assédio, a lei do aborto, a violência contra a mulher, a desigualdade dos sexos e das classes. Em uma cena narrada em terceira pessoa, vemos o médico contemplando a bela cena de Grace sendo levada de volta a prisão por dois carcereiros, só para depois a autora nos colocar na pele de Grace, assediada e quase abusada no pequeno trajeto.

Não é só de feminismo que Margaret Atwood fala. Em Vulgo Grace também vemos muito do que era o Canadá na década de 1840. Temos a imigração e o preconceito sofrido pelos trabalhadores que fugiam de Europa, temos o conflito entre católicos e protestantes, as revoluções que estouravam na época, a democracia americana influenciando os trabalhadores canadenses a se rebelar. A rebelião liderada por William Lyon Mackenzie é muito interessante no contexto do livro. Nos capítulos narrados por Grace, vemos o lado da classe pobre e trabalhadora que sonha com um mundo mais igual, a principal representante desse estado de espírito é Mary Whitney.

Mary tem uma língua afiada e não se cansa de falar entre os iguais o quanto apóia o movimento, o quanto a democracia é importante, o quanto o colonialismo é opressor. Nessa época, o Canadá ainda pertencia ao reino britânico e a mão de ferro pesava em muito na população, a Inglaterra já tinha perdido os Estados Unidos e não aceitava muito bem o fato. Quem era rico vivia de renda e de passeios pelo campo, quem era pobre passava fome, se prostituía e rezava para não parar na prisão. Os trabalhadores das grandes mansões ficavam lá embaixo na cadeia social, os ricos nunca deixavam isso ser esquecido.

Margaret Atwood conseguiu me cativar tanto em Vulgo Grace que virou uma de minhas escritoras favoritas, além disso, o livro entrou no meu hall da fama particular de livros favoritos. A autora deixa ao leitor julgar se o que Grace diz a verdade. No meu julgamento Grace é inocente, vítima do seu tempo. O mais incrível é que o livro mantém muito do mistério que cerca o caso real, Grace é uma narradora duvidosa de qualquer maneira, você pode muito bem julgá-la culpada, a autora dá brechas para isso.

“O que devo contar ao dr. Jordan sobre esse dia? Porque agora já estamos quase lá. Lembro-me do que disse quando fui presa e o que o Sr. MacKenzie, o advogado, disse que eu deveria dizer e o que eu não disse nem mesmo a ele e o que eu disse no julgamento e o que eu disse depois, que também foi diferente. E o que McDermott disse que eu disse e o que os outros disseram que eu devo ter dito, pois há sempre aqueles que lhe atribuem suas próprias falas e as colocam diretamente em sua boca, e esse tipo de gente é como os ventríloquos, que podem projetar a voz, nas feiras e nos espetáculos, e você não passa de seu boneco de madeira.”

O livro possui um enredo sólido e uma narrativa capaz de transportar o leitor para 1840. A autora também coloca trechos de testemunhos e de artigos da época, também temos poesias inspiradas ou não no caso no início dos capítulos. Cada um dos capítulos é nomeado por um tipo de bordado, algo ligado à trama. Leitura recomendadíssima para todo mundo, principalmente se você leu/assistiu O Conto da Aia ou então contemplou a série Alias Grace do Netflix, inspirada na obra de Margaret Atwood. Você não vai se arrepender.

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Beatriz Kollenz ver todos os artigos
Queria ser mesmo uma garota mágica, infelizmente não deu nessa vida. Amo borboletas, mangas shoujo, desenhos animados e livros. Quando não estou voando nas nuvens costumo tocar piano, assistir um dorama ou sentar ao ar livre. Apesar de ser leonina sou muito tímida, a vida é assim, repleta de contradições.

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21 Comentários

  • Ana I. J. Mercury
    31 jan 2018

    Uaaau, eu já tava querendo ler o livro, agora então!
    Que resenha maravilhosa, parabéns!
    Eu também quero muito ler O Conto da aia, que parece ser incrível também.
    E Vulgo Grace, parece ser sombrio, cativante e cheios de reviravoltas fascinantes.
    PRECISO!
    bjsss

  • Jéssica Maria
    30 jan 2018

    Adorei sua resenha ,da pra ver q gostou bastante do livro ,mas sabe q eu n curti mt a sinopse nem o enredo ,apesar disso acho q leria ,mas bem devagar só pra passar tempo msm u.u

  • Carolina Santos
    29 jan 2018

    O livro O Conto da aia Tá Na Minha estante ganhei ele através de uma troca no skoob Mas eu ainda não vi ele e nem assisti sua adaptação para TV mas eu já assisti a série aliás Grace na Netflix e fiquei super apaixonada pela história Apesar de o conto da aia e vulgo Grace serem histórias diferente prendem o leitor da mesma forma

  • Samantha Correa
    28 jan 2018

    Vi essa série na Netflix e gostei da história, não sabia que tinha um livro, e amei saber, quero muito ler, me lembrou um pouco a história da Lizzie Borden, mas muito melhor pois nos mostrar melhor como era a história da época. Amei a capa e a lombada do livro, são perfeitos. Quero muito ler e depois assistir a série.

  • Mariana Paiva
    27 jan 2018

    Não lembro o que eu vi primeiro, se foi o pôster da série na Netflix ou se foi a capa do livro. Mas o que chamou minha atenção mesmo, foi quando vi que a atriz que interpreta a Grace é a Sarah Gadon. Já assisti outra série com ela chamada 11.22.63 e gostei bastante. Depois que descobri um pouco mais da história fiquei interessada em ler e com isso acabei não vendo a série ainda. Só que eu sei que não vou ler o livro agora, tem outros que são prioridades e pra ser sincera estou com um pouco de receio de não gostar. A história parece boa e traz uns questionamentos legais, só que não sei se alguns assuntos são tratados de forma forçada e isso pode acabar me desanimando durante a leitura. Além disso o livro tem quase 500 páginas e se começar meio arrastado posso acabar abandonando. Acho que vou ver a série primeiro mesmo e se eu gostar bastante eu compro o livro.

  • Bianca Melo
    19 jan 2018

    Gente do céu! Estou muito ansiosa para ler algo de Margaret Atwood . Planejo assistir The handmaid’s tale, mas não sem antes ter contato com os livros da autora. É o tipo de história que parece te prender do início ao fim. Amo essas brechas deixadas na trama para que possamos tirar nossas próprias conclusões dos personagens – principalmente se ocupam a posição de protagonistas. Acho que a Grace vai me conquistar.
    amei a resenha ♥

  • Lily Viana
    17 jan 2018

    Olá!
    Eu fiquei intrigante com essa historia, não tinha ouvido fala dela e agora por conhecer um pouco me deixou bem curiosa por esse livro, tem uma premissa muito boa e bem reveladora. Espero ler em breve e conhecer mais!

    Tempos Literários

  • Thuanne Hannah Ramos de Souza
    17 jan 2018

    Já vi a série na Netflix, gostei muito. Os temas abordados são muito interessantes e assistir sobre como era naquela década foi muito bom. Quero ler o livro também, para ter mais detalhes da história, mas pelo que você escreveu aqui, a série está bem fiel, gosto disso.

  • Lynn Prado
    17 jan 2018

    Infelizmente ainda não li O Conto da Aia, mas quero muito.
    Já tinha ouvido falar desse livro e da série, mas nunca li nenhuma resenha, depois de ler a sua fiquei curiosa sobre o livro.
    Achei interessante o livro manter o mistério que cerca o caso, e a autora dá brecha para julga-la culpada.
    Bjs

  • Brenda Ketellyn
    17 jan 2018

    Fico muito feliz que tenha gostado e que a autora tenha se tornado uma das suas preferidas.
    Tenho ele na minha estante, ganhei de presente de uma amiga, a um tempo atras comecei a ler, mas não consegui me prender no livro, desisti, mas ele ainda esta aqui para quando eu fizer minha segunda tentativa, que sera em breve, principalmente depois que li sua resenha positiva.

  • Raquel Rodrigues
    17 jan 2018

    Eu juro que não sabia que tinha uma série na Netflix sobre esse livro, mas vou dar uma procurada lá!! O livro parece ser muito interessante, apesar de não ser acostumada com o gênero, é um livro que me deixou muito curiosa para saber o que realmente aconteceu, e saber se acho que ela é culpada ou não, gostei bastante disso, pois podemos ver e analisar se achamos que ela é culpada ou não. Nunca li O conto da Aia mas também pparece ser um livro bem interessante já que vejo muita gente falando bem dele.

  • Camila Rezende
    15 jan 2018

    Olá Beatriz,
    Eu já tinha ouvido sobre a série na Netflix e fiquei curiosa em ler o livros antes. Ainda não tive a oportunidade, mas espero ler logo.
    Fiquei curiosa em sabe como a autora trabalhou as personagens do livro e faz com que o leitor tire suas próprias conclusões do ocorrido

  • Julia campanha
    11 jan 2018

    Margaret Atwood foi minha maior descoberta literária de 2017, quero muito ler Vulgo Grace este ano, terminei a série e adorei.

  • Lana Silva
    09 jan 2018

    Quero muito ler este livro, tanto quanto o Conto de Aia. Mas, infelizmente não puder adquirir nenhum das duas obras. Comecei a assistir a adaptação para série, porém acabei não gostando, acredito que a leitura será mais agradável, e mais auto explicativa, principalmente pela questão do relacionamento feminino na época.

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  • Janaina Silva
    09 jan 2018

    Não assisti ” O Conto da Aia” ,assim como também ” Vulgo Grace”. Por esse motivo a história real de Grace é desconhecida para mim.
    A curiosidade em “descobrir” se a personagem foi realmente culpada ou não,pelo que vejo não será saciada. Mas gostei em poder ter a possibilidade de tirar minhas próprias conclusões.Gosto disso!
    Outro ponto que me deixou com vontade de ler esse livro,é exatamente à riqueza de detalhes dessa época.
    É uma forma de nos sentirmos lá,fazendo parte da trama.

    Enfim,gostei da sua dica. E pretendo sim,ler esse livro! 🙂

  • Julia campanha
    09 jan 2018

    Assisti a série da Netflix e adorei, quero muito ler este livro.

  • Lili Aragão
    08 jan 2018

    São histórias assim que nos mostram como era complicado ser mulher em tempos passados e por mais que romances de época sejam os meus favoritos, a realidade de grande parte das mulheres era bem difícil e ler que direito e mulher eram palavras que não andavam juntas é triste e verdadeiro. Ainda não tive a oportunidade de ler nada da autora, mas seus livros tem ganhado destaque e me deixado curiosa e sobre essa história especificamente se não conseguir ler o livro num futuro próximo pretendo ver a série que se baseia nele. Ótima resenha 😉

  • Pamela Liu
    08 jan 2018

    Oi Beatriz.
    Eu preciso ler os livros dessa autora. AMO livros de distopia, que retratam temas de desigualdade e opressão. É uma boa forma de refletir sobre o assunto.
    Vulgo Grace parece abordar vários temas importantes sobre como as mulheres são desrespeitadas e não tratadas como iguais. Depois de ler o livro quero conferir a série na netflix ou no hulu.
    Bjs

  • Vitória Pantielly
    08 jan 2018

    Oi Beatriz!
    O conto da Aia está na lista de próximas leituras e também pretendo ver a série. Creio que o sucesso de “Vulgo Grace” seja por mostrar aquilo que foi (ou podemos dizer, ainda é) realidade, os fatos narrados além de ser de uma história real, são colocados para mexer com o leitor, e pelo que li do livro foi exatamente isso que aconteceu. Deve ser interessante ler os capítulos narrados por Grace e tentar entender um pouco do que ela passou e o que a levou a cometer o crime.. Gostei da resenha, cita tudo o que a história contém de relevante, e nos faz desejar ler.
    Beijos

  • camila rosa
    08 jan 2018

    Ola, tudo bom?
    Eu estou super curiosa para ver a série inspirada no livro, que a Netflix lançou, eu não tinha conhecimento desse livro e estou super curiosa para ler ele, vi uns dias atras uma resenha do livro O conto da Aia e eu estou super curiosa para ler. Espero que o livro me agrade tanto quanto te agradou e eu irei iniciar a série o mais rápido possível.
    Beijos *-*

  • Ludyanne Carvalho
    08 jan 2018

    Me parece uma história muito forte, acredito não ter estrutura para ler. Gosto de histórias baseadas em fatos reais, mas que não seja muito tenso.
    Eu li alguns comentários sobre, e fico um pouco confuso em relação se ela inocente ou não, visto que na época também não era uma certeza apesar de ter sido condenada. Mas gosto de acreditar na inocência da Grace.
    E parece que ela passou por diversas situações difíceis, e imaginar isso acontecendo de fato é doloroso.
    Gostei de saber que há assuntos relevantes na história…

    Beijos

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