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27 jan, 2018

O Clube de Escrita de Jane Austen, por Rebecca Smith

O Clube de Escrita de Jane Austen é um livro escrito por Rebecca Smith e lançado em 2017 pela editora Bertrand. Mais do que um livro sobre a arte de escrever, é também uma incursão na obra de Jane Austen. Todo seu conteúdo é baseado em cartas, anotações e livros da autora mais aclamada da língua inglesa. Jane Austen viveu e escreveu seus romances no século XIX, a qualidade deles é tanta que permanecem atuais até hoje.

Rebecca Smith é sobrinha neta de quinto grau de Jane Austen, o que não é grande coisa se for levar em conta que a autora teve 33 sobrinhos ao todo, toda essa gente gerou milhares de descendentes de Austen pelo Reino Unido, mas Rebecca seguiu um caminho diferente. Graduada em Southampton e ainda residente da cidade, Rebecca cresceu rodeada de fotografias dos antepassados e pela mesma paisagem que sua tia-avó apreciou durante vários anos. Nos anos de 2009 a 2010 ela foi residente na Casa Museu de Jane Austen, lá ela trabalhou com afinco relendo as obras da autora, suas correspondências e trabalhando com voluntários e visitantes. Enquanto promovia oficinas de literatura, ela escrevia seu quinto livro. Toda essa aura inspirou a escritora a reunir muito do que aprendeu ao estudar a obra de Jane Austen em um livro regado de amor.

O Clube funciona como uma espécie de guia, Rebecca junta trechos de algumas cartas que Jane trocava com aspirantes a escritor, é inspirador ver o quanto a autora era solicita em ajudar os jovens. A maioria deles era composta por sobrinhos e parentes. Claro que Jane Austen não só elogiava. Diversas vezes a autora foi bem crua em dizer o que estava errado e o que era necessário cortar. Infelizmente, muitos dos livros citados nas cartas nunca saíram do seio familiar, mas pelos comentários das irmãs Austen pareciam ser bons livros.

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08 nov, 2017

Carbono Alterado, por Richard Morgan

O hype é uma coisa muito filha da mãe, não é? Você escuta tanto sobre um livro, lê tantas críticas falando que ele é a coisa mais maravilhosa que existe, e quando você pega pra ler… descobre que o livro é “legal” – não chega a ser ruim, mas não chega perto de toda aquela expectativa que você construiu. Foi exatamente isso que aconteceu comigo nessa leitura de Carbono Alterado. Eu vinha ouvindo falar tanto nesse livro, principalmente depois que foi anunciado que ele vai ganhar uma adaptação na Netflix, que acabei me decepcionando quando a leitura foi boa, mas não foi tudo o que me tinha sido prometido. E vamos deixar claro desde o início: Carbono Alterado é bom. Mas é só isso mesmo. E isso não seria um problema, se não fosse pelo fato de que o livro me foi vendido como um novo clássico de ficção científica.

Carbono Alterado se passa em um futuro em que os humanos descobriram um método para armazenarem suas consciências em chips de computador. Quando a pessoa morre, o chip dela é simplesmente transferido para um novo corpo. Takeshi Novacs, um ex-militar de elite, é trazido para a terra para solucionar o assassinato do milionário Laurent Bancroft. O que Kovacs não imagina é que essa investigação vai lança-lo no centro de uma conspiração perversa até para os padrões de uma sociedade que trata a existência humana como um produto a ser comercializado.

A primeira coisa me me incomodou um pouco com o livro foi a quantidade de world building. É claro que a gente já espera muita world building de um livro de ficção científica, já que ele precisa explicar exatamente como funciona o universo em que a história se passa. Mas Carbono Alterado tem tanta world building que a leitura chega a ficar maçante. Em alguns momentos do livro, eu tive a sensação de estar lendo por um bom tempo, mas quando fui ver, só tinha passado por algumas páginas. E ainda assim, eu não tenho certeza que entendi direito como o mundo de Carbono alterado funciona (Apesar de que isso pode ser porque eu não sou lá a bolacha mais inteligente do pacote, né). As partes em que o livro precisa parar para explicar os detalhes do mundo foram as partes mais chatas da história.

“Kadmin tinha se libertado das percepções convencionais do físico. Numa era anterior, ele teria sido um xamã; aqui, os séculos de tecnologia o haviam transformado em algo mais. Um demônio eletrônico, um espírito maligno que habitava o carbono alterado e emergia apenas para possuir carne e semear o caos. ”

Por outro lado, as cenas de ação foram simplesmente incríveis. Apesar de serem um pouco gráficas, o que pra mim não é um problema, as cenas de ação pareciam que tinham saído de um filme de Hollywood. Espero de verdade que a Netflix consiga adaptar essas cenas da melhor forma possível na série, porque seria uma pena perder esse aspecto da história. Kovacs é realmente um personagem badass, até mesmo quando ele não está ganhando as brigas. Acho que eu nunca li um livro que tivesse cenas de ação tão dinâmicas assim, e eu geralmente não gosto tanto de cenas de ação. Realmente maravilhosas.

Outro aspecto no qual o livro perdeu alguns pontos comigo tem haver com as cenas de conteúdo sexual. Eu não tenho nenhum problema com livros que contem cenas mais quentes, elas podem ser bastante bem feitas, mas Carbono Alterado foi um pouco além do que eu considero necessário. Talvez seja porque eu estou mais acostumado com livros YA que tratam o sexo de uma forma mais sútil, mas realmente achei que as cenas de sexo desse livro foram um pouco demais para o meu gosto.

“A vida humana não tem valor. Você ainda não aprendeu isso, Takeshi, depois de tudo que já viu? Ela não tem valor intrínseco nenhum. Maquinas custam dinheiro para construir. Matérias-primas custam dinheiro para extrair. Mas gente? -Ela fez um barulhinho de cuspe.- Sempre dá pra arranjar mais gente. Pessoas se reproduzem como células cancerosas,quer você as queira ou não. São abundantes, Takeshi. Por que deveriam ser valiosas?”

Os personagens do livro são todos bem interessantes, principalmente o protagonista Kovacs. Mas os outros personagens como Kristin Ortega, Laurent Bancroft, Miriam Bancroft, entre outros que eu não posso citar porque seriam spoilers são todos muito bem construídos e eu fiquei querendo saber mais sobre cada um deles. O aspecto de filme noir de Carbono Alterado é tão interessante porque você realmente fica intrigado sobre cada um dos personagens, então fica louco pra saber a resolução da história. Eu acabei curtindo o lado de mistério do livro bem mais que o lado ficção científica.

No geral, Carbono Alterado foi realmente uma vítima da hype. Se eu não tivesse esperando um novo clássico cyberp punk, eu provavelmente teria curtido essa leitura muito mais. Mas da forma em que eu experienciei o livro, Carbono Alterado é uma história de mistério intrigante que acaba se perdendo em elementos de ficção científica e cenas de sexo grosseiras. E só pra constar, eu mal posso esperar pela série do Netflix.

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21 set, 2017

O Segredo de Heap House, por Edward Carey

O Segredo de Heap House foi uma leitura, digamos assim, peculiar. Eu venho remoendo essa leitura em alguns dias e ainda não sei dizer se gostei ou não desse livro. Quer dizer, eu gostei, mas não sei dizer o quanto. A capa descreve o livro como sendo uma mistura de Charles Dickens com Lemony Snicket e isso é uma descrição bastante precisa, mas não sei se Heap House é um livro que eu recomendaria pra qualquer pessoa.

O Segredo de Heap House conta a história da misteriosa família Iremonger, a família mais rica de Londres que reside em Heap House, uma mansão gigantesca localizada no meio dos Cúmulos, um oceano de objetos perdidos e descartados. A família Iremonger tem diversas tradições excêntricas, por exemplo a tradição que todo Iremonger recebe um objeto de nascença, ou a de que um Iremonger só tem o direito de usar calças compridas depois de se casar. O protagonista do livro, Clod, é um Iremonger ainda mais estranho que os outros, pois possui uma habilidade incomum: Consegue ouvir os objetos falarem. A vida de Clod dentro de Heap House se torna ainda mais confusa com a chegada de Lucy, uma jovem criada rebelde que se recusa a se encaixar dentro das regras dos Iremonger.

Vamos começar pela narração. O estilo narrativo de O Segredo de Heap House é bem diferente, bem estilizado. É o tipo de narração que, se você gosta, vai amar. Se não, a leitura pode acabar ficando bem cansativo. Eu acabei me encaixando no meio termo, hora eu estava gostando bastante, outra eu estava ficando sem paciência pra continuar lendo. Mas apesar de algumas partes serem um pouco chatinhas, o livro em geral é bem divertido, e a escrita passa muito bem a atmosfera esquisita de Heap House. Me lembrou muito a sensação dos cenários dos filmes do Tim Burton.

O plot do livro é bem interessante, e o mistério do que está acontecendo dentro de Heap House é muito bem desenvolvido. Eu realmente me envolvi na história, e foi por isso que eu acabei me irritando um pouco com a escrita em certos pontos. O livro caminhando pra uma direção super legal e a narração parando para esticar as frases, para manter aquele estilo de narrativa. O flow do livro teria sido melhor se essas partes mais chatinhas fossem retrabalhadas, mas acho que talvez assim a história perderia um pouco do seu toque característico. Questão complicada, essa.

Clod e Lucy dividem a narração e o papel de protagonista, e eles foram as minhas partes favoritas do livro. Tanto Clod quanto Lucy foram protagonistas muito divertidos de acompanhar. Foi muito divertido conhecer as entranhas de Heap House através dos olhos de Lucy, e também conhecer os membros estranhos da família Iremonger com quem Clod interage. E apesar de eles terem poucas cenas juntos, os diálogos dos dois realmente me passaram a química que eles tem. Eu teria gostado de ver mais interação entre eles, mas o pouco que o livro mostra já me vendeu completamente a amizade deles.

O final do livro foi o que mais me impressionou. Como eu já falei, o livro tem suas partes mais chatas, e o meio do livro chegou a ser um pouco tedioso. Mas chegando mais perto do final, a história realmente entrou em um ritmo muito legal. O livro conseguiu construir um final que me deixou muito curioso para ler a continuação, e fez isso sem parecer aqueles livros que simplesmente enfiam qualquer detalhe no final do livro para levar a uma sequencia. Se o meio do livro fosse mais como o final, ele teria sido bem mais fácil de ler.

Mas no geral, O Segredo de Heap House foi uma leitura bem legal. Um enredo divertido, personagens bem construídos, e um final que me deixou louco pra ler o próximo livro, mas que infelizmente perde alguns pontos pela narrativa um pouco cansativa, que apesar de carregar aquele estilo característico do livro muito bem, também torna a leitura mais tediosa do que poderia ser. Não sei se é um livro que eu recomendaria para todo mundo porque nem todo mundo vai ter a paciência de aguentar a narração, mas se você for paciente, vai encontrar uma história muito legal.

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22 jul, 2017

Belas Maldições, por Terry Pratchett e Neil Gaiman

Eu realmente não sei porque eu demorei tanto tempo para ler alguma coisa do Neil Gaiman. Talvez porque de tanto ouvir falar que os livros deles são incríveis, eu estava com medo de que todo esse hype acabasse levantando demais as minhas expectativas e eu acabaria me decepcionando com o livro. Mas com Deuses Americanos vindo pra TV, eu sabia que era só uma questão de tempo até eu pegar um livro dele. Então eu fico muito feliz de poder dizer que eu amei Belas Maldições demais.

Belas Maldições é uma colaboração do Neil Gaiman com Terry Pratchett, autor da série Discworld. No livro, o fim do mundo finalmente vai chegar. E isso é um problema para o anjo Aziraphale e o demônio Crowley, que simplesmente se acostumaram a viver entre os humanos, e não querem se desfazer dos confortos da vida na Terra. Portanto, os dois partem em uma missão para impedir o apocalipse, o que significa encontrar o Anticristo, a mais poderosa criatura da Terra. O problema é que o Anticristo é uma criança de 11 anos.

Belas Maldições é completamente, sem sombra de dúvidas, uma comédia. O livro tem uma das narrações mais divertidas que eu já li, e não faltaram momentos que me fizeram rir. Não só na própria narração, como também nos diálogos e até mesmo nas notas de rodapé, toda página tem pelo menos um detalhe que não deixa o humor do livro cair. Tudo isso tornou Belas Maldições uma leitura muito divertida, do tipo que você lê 100 páginas sem nem perceber.

Apesar de ser focado principalmente na comédia, o livro não sacrifica o desenvolvimento dos personagens pelo humor. Aziraphale e Crowley fazem uma dupla de “protagonistas” muito interessante porque apesar de estarem literalmente em lados opostos de uma guerra, eles tem coisas em comum o suficiente para formarem uma aliança, que em certos ponto se torna uma amizade, apesar de nenhum dos dois querer admitir. A química e os diálogos dos dois são responsáveis por alguns dos momentos mais legais do livro.

Os outros personagens do livro são todos incrivelmente bem construídos, e acrescentam muita coisa pro enredo. Adam, o tal Anticristo, é um personagem que parece simples, mas vai ficando mais complexo a medida que o plot se avança. Além disso, ele e a gangue de amigos dele são alguns dos personagens infantis mais realistas que eu já vi em um livro. E outros coadjuvantes como a bruxa Anathema Device, e os caçadores de bruxas e os caçadores de bruxas, Shadwell e Newton Pulsifer são muito divertidos também.

Mas o que mais me agarrou em Belas Maldições não foram os diálogos engraçados ou os personagens divertidos, mas sim a mensagem que o livro meio que esconde por entre os acontecimentos do fim do mundo. Enquanto Aziraphale e Crowley estão correndo tentando encontrar o Anticristo, o livro tem momentos mais calmos em que os personagens discutem sobre a natureza do ser humano, e se nós somos inerentemente bons ou ruins. E apesar de não parecer, um livro sobre o julgamento final consegue ser bastante otimista em relação a moralidade dos seres humanos.

Belas Maldições é um daqueles casos raros em que a hype é, pelo menos na minha opinião, completamente merecida. Um enredo animado, com personagens muito bem explorados, que consegue levantar questões complexas sobre a moralidade das pessoas sem se tornar uma leitura pesada e enfadonha. Um ótimo começo pra minha jornada nos livros do Neil Gaiman (e talvez do Terry Pratchett também) e o melhor livro que eu li até agora em 2017.

P.S.: De acordo com os boatos da internet, Belas Maldições vai virar uma mini-série da BBC, com o próprio Neil Gaiman como showrunner, e eu não poderia estar mais animado.

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