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Lista 04ago • 2017

5 motivos para ler Só os Animais Salvam

Como uma resenha não é bastante pra honrar um livro bom, resolvi listar cinco motivos para você ler Só os Animais Salvam. Respire fundo e prepara-se porque vou fazer de tudo para te levar nessa viagem!

Você vai conhecer outros escritores

Em Só os Animais Salvam temos uma montanha de escritores famosos figurando entre os personagens ou servindo de espelho para a narrativa. Alguns dos meus autores favoritos aparecem nesse livro, veja só a lista: Tolstói, Kafka, Virgínia Woolf, Sylvia Plath, Jack Kerouac. O capítulo mais eficiente em instigar uma leitura, em minha opinião, é o do mexilhão. A Ceridwen simula muito bem a narrativa de On The Road, nesse caso Jack Kerouac não aparece na história, mas serve de inspiração na hora de contar sobre o mexilhão que representa muito bem os ideais Beatniks. O mesmo se repete na fábula do chimpanzé, o ar kafkiano permeia toda a história que é uma das minhas favoritas!

Você pode aprender mais sobre história

Apesar de não se aprofundar muito, alguns momentos importantes da história servem de pano de fundo para a narrativa. Partindo da colonização da Austrália até a guerra do Iraque, não há um momento de paz durante a leitura. Temos as duas grandes guerras mundiais presentes em várias fábulas. Vemos o terror que sofrem não só os combatentes, mas também as pessoas comuns afetadas pela violência e a fome. O mesmo se estende pela guerra da Bósnia, de Moçambique, do Iraque que são alguns dos conflitos presentes no livro. Durante a Guerra Fria, vemos o uso dos animais na batalha espacial travada entre os EUA e a União Soviética. Golfinhos vão lutar no Vietnã, um mundo de horrores criado pelos humanos e visto sobre a ótica dos animais nos leva a questionar a razão de tanta violência. Fiquei curiosa em várias fábulas e fui correndo entrar na internet para pesquisar sobre vários assuntos. O livro me deixou cheia de curiosidade, terminei uma leitura incrível e de quebra aprendi mais sobre a história do mundo.

Cada fábula é livre

Uma das coisas mais divertidas em se ler contos é que cada narrativa é independente. Você pode ler fora da ordem, pular algum que não goste, ler intercalando com outras leituras. Sempre tenho um livro de contos na minha cabeceira para ler antes de dormir. Só os Animais Salvam não é diferente, apesar de nessa vez engolir o livro numa tacada só. Se você não tem muito tempo para ler, essa é uma boa pedida. Você pode ler um conto sempre que estiver à toa, não vai ter que se lembrar de onde parou nem do que aconteceu antes de partir para outra história, você pode ler na fila do banco, no ônibus, no intervalo da escola, toda hora é hora.

Você vai fazer muitas marcações

Se você é fã de post-its como eu sou vai gastar um bloquinho inteiro lendo esse livro. Deparei-me com parágrafos inteiros tão espetaculares que tinha vontade de emoldurar e colocar na parede do quarto. Não vivi só de citações, marquei o nome de alguns escritores que não conhecia, alguns dados que resolvi checar, fiz anotações de história, meu livro ficou colorido de tanto post-it. Se você gosta de fazer anotações e marcações nas suas leituras, vai precisar de um bom material e de tempo livre pra aproveitar o livro. Para mim nada é mais bonito que um livro repleto de conteúdo!

As edições da Darkside são lindas

Quem é fã de livros e não conhece essa editora vai se apaixonar pela edição caprichada que a Darkside preparou. A capa e as folhas de guarda são belíssimas, o livro tem ilustrações antes de cada fábula também lindas. A diagramação e o cuidado na hora de criar esse livro mostram muito bem o esmero que a editora tem. Depois de ler Só os Animais Salvam você pode ir correndo atrás de outros livros da editora, o livro faz parte do selo Darklove dedicado a publicar autoras, mais um motivo para conhecer essa empresa que valoriza as mulheres.

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Regulamento do Sorteio

– A promoção é válida até 14/08/2017, tendo seus ganhadores anunciados na fanpage dos blogs;
– Este sorteio é realizado através da plataforma Rafflecopter;
– Para validar o prêmio o ganhador deverá cumprir com todas as solicitações do Rafflecopter;
– Ao fim da promoção será sorteado apenas 01 ganhador para todos os prêmios cedidos neste sorteio;
– A promoção é válida somente para quem tem endereço de entrega no Brasil;
– O ganhador terá o prazo de 03 dias para responder ao e-mail que lhe será enviado. Caso não o faça, um novo ganhador será definido;
– O envio do livro será feito pela Editora Darkside no prazo de até 90 dias após o ganhador informar seu endereço;
– O blog e a editora não se responsabilizam por extravio ou atraso na entrega dos Correios. Assim como não se responsabilizam por entrega não efetuada por motivos de endereço incorreto, fornecido pelo próprio ganhador;

Gostou de Só Os Animais Salvam? Você também pode conferir a resenha do livro clicando aqui.

Promoções Resenhas 28jul • 2017

Só os Animais Salvam, por Ceridwen Dovey

Só os Animais Salvam é um lançamento da Darkside, escrito pela Ceridwen Dovey e parte do selo Darklove. O livro é uma coletânea de dez fábulas modernas contadas por animais que conviveram com escritores famosos, viveram os horrores da guerra e sofreram com o egoísmo humano. Tentei ao máximo conter minha euforia com esse livro, não quis criar muita expectativa em cima da obra, mas creio que isso vai ser difícil.

“Mas para quê? Carreguei aquela coisa de beleza todo o caminho em meu dorso, com as cordas cortando até os ossos, para que alguém fizesse tinir as notas no bar da Alice, para bêbados no meio do dia. Era aquilo que partia o coração de Zeriph. Que a música do piano não significasse nada sem o falso profeta da bebida.”

Cada fábula possui seu estilo, seja emulando algum escritor, como é o caso do Mexilhão que evoca Jack Kerouac em seu excelente On The Road, seja pelo momento. Temos animais narrando sua história da África, da Polônia, da França e até do espaço. Cada um tem a sua voz na hora de contar sobre a vida e a sua visão do mundo.

Confira: “Empatia e Imaginação: O que os animais podem nos ensinar”

Não sei para vocês, mas para mim é muito difícil falar de um livro quando eu gosto muito da história, provavelmente a dificuldade vem do fato de eu ficar tão animada que passo o tempo todo pulando e abraçando o livro ao invés de expressar o meu amor de uma maneira mais clara. Quem gosta de literatura, quem ama ler, não tem como não gostar desse livro. A felicidade que temos quando entendemos quem a autora está tentando emular, quando compreendemos as referências ou deparamos com algum escritor favorito figurando de coadjuvante é indescritível. Claro que se você não entender de onde vem a referência pode consultar no final as fontes utilizadas pela a autora.

“Virgínia acompanhava nos jornais a perversão que era o comércio de tartarugas: milhões de nós importadas a cada ano do norte da África, chegando com patas e cascos fraturados por terem sido encaixotadas umas em cima das outras; mil tartarugas gregas descobertas mortas na praia de Barking. Dificilmente alguma sobrevivente da jornada conseguiu resistir ao primeiro inverno inglês.”

Outro ponto muito positivo é como a autora usa os animais para criticar a nossa hipocrisia e mesquinhez humana. Isso fica mais forte nos cenários de guerra. Era comum durante a primeira guerra animais habitarem as trincheiras, eles caçavam os ratos e serviam de companhia aos soldados. Os animais sofriam ainda mais fora dos campos de batalha. Cidades sitiadas pereciam com a falta de alimento e a população chegava ao ponto de caçar ratos, gatos e pombos em busca de comida.

Os ricos eram um caso a parte, graças ao seu poder aquisitivo e influências chegavam ao ponto de comer carnes dos animais ‘exóticos’ do zoológico quando todos os pombos já tinham se extinguido. O preço era caro, mas isso não era um problema. Humanos não hesitaram em abandonar seus animais de estimação na hora de escapar, muito menos se preocuparam com a destruição as florestas e com as famílias dos animais. Há uma fábula em que essa questão se inverte, temos humanos incrivelmente preocupados com a situação dos bichos, o que seria excelente se as pessoas em questão não fossem nazistas e tivessem convertido a energia em exterminar membros da própria espécie.

“Encarcere-se outra vez, negue-se qualquer coisa que deseje, até que o prazer venha da negação mesma, não da consumação do desejo. Apenas assim será verdadeiramente livre, e próxima do humano.”

No meio de tantas fábulas fica difícil encontrar a minha favorita. Talvez as que mais fizeram meus olhinhos brilharem foram as vozes da Gata, do Chimpanzé e da Tartaruga. Eu chorei como se não houvesse amanhã lendo esse livro. Me via profundamente tocada pelo amor inocente e pelo coração dessas criaturas ao ponto de precisar parar a leitura e refletir sobre o que tinha acontecido. Todos nós somos culpados de alguma forma. Fazemos parte deste planeta, contribuímos com a poluição, com o desmatamento e com tantas outras coisas egoístas. A fauna e a flora perecem a cada dia, deixamos que governos e empresas se afastem da sua responsabilidade em troca de lucro.

Recentemente tivemos todo o problema com o Acordo de Paris e a recusa de alguns governos em cumprir as metas estabelecidas, a justificativa é o progresso, mas até que ponto podemos permitir isso? O aquecimento global não afeta só os animais, nós sofremos com as conseqüências e como seres pensantes nos dedicamos a outras tarefas ao invés de proteger nosso planeta. Todo mundo já deve ter visto imagens das calotas polares derretendo e os ursos polares sofrendo com a escassez de alimento. Por que isso não causa empatia nos que estão no poder?

“Amor tem cheiro de morte, era nisso que eu pensava estando enterrada nas ruínas.”

É claro que o livro caminha muito longe da militância, tudo isso são pensamentos que desenvolvi percorrendo as páginas. Você não vai se sentir atacado em nenhum momento, os animais são melhores do que nós até nisso. Talvez suas conclusões ao final da leitura sejam diferentes, quem sabe? A narrativa da Ceridwen é gostosa e ela é muito talentosa, espero que a Darkside traga outros livros da autora porque eu quero ler muito mais. Se você ainda não se sentiu motivado a embarcar nessa leitura eu não sei mais o que fazer, só posso te pedir que leia o livro. Deixo aqui também um protesto para meu labrador, Luke, por não querer posar em nenhuma foto e por tentar comer o livro.

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Literaría 24jul • 2017

Empatia e Imaginação: O que os animais podem nos ensinar

Só os Animais Salvam, de Ceridwen Dovey, é uma desconcertante e lindamente trabalhada coleção de histórias contadas pelas almas de animais mortos. Um gato é morto por um atirador no Fronte Ocidental; um mexilhão azul se afoga em Pearl Harbor; uma corajosa tartaruga é lançada ao espaço na era Soviética; e um papagaio que se automutila é abandonado em Beirute no meio dos ataques aéreos de Israel em 2006. No entanto, Dovey ilumina e acrescenta camadas a esses contos com humor, imaginação e uma construção literária engenhosa. A maioria dos animais são conectados a escritores – Colette, Jack Kerouac e Gustave Flaubert, entre outros – que deram destaque para animais em suas próprias ficções, e conseguem emular suas vozes literárias. (o mexilhão Kerouaciano dizendo adeus para um amigo:

“Nós não entendemos, mas deixamos ele ir, doendo, como as chamas de uma manhã vermelha quente brincando com as varas de pescar e dançamos na marola azul sob o ancoradouro”). Assim, o que Dovey diz ter começado como “um experimento” em recontar incidentes históricos de sofrimento em massa através de seres vulneráveis sem vozes “para chocar leitores para empatia radical” se tornou “essa mistura estranha de contos, biografia literária e ensaio – com muitos detalhes realistas – e também uma espécie de tributo amoroso para esses autores que me fascinam”.

Publicado ano passado na Austrália (Dovey vive em Sydney), Só os Animais Salvam evocou uma sinopse prestativa de J. M. Coetzee, além de diversos prêmios; teve seu lançamento previsto no Reino Unido em agosto e Farrar, Straus and Giroux vão lançar a edição americana no dia 15 de setembro.

Alguns dos temas do livro – conflito, abuso de poder e as origens amorfas da crueldade, inspiração e empatia – também vêm à tona no livro de estreia bem diferente de Dovey, Blood Kin (2007). Ambientado em um país sem nome durante um golpe militar, o livro curto e ousado explora as complexidades da conspiração, com um pano de fundo de perigo e erotismo, através dos relatos em primeira pessoa do barbeiro do ex-presidente, o cozinheiro e o retratista, todos aprisionados em uma propriedade rural remota.

Sem dúvida, Dovey se inspira em sua infância na África do Sul na época do apartheid. Havia, ela diz, “um senso de ser cúmplice [do sistema] em algum nível porque o seu privilégio é concedido através da dor que outras pessoas estão vivendo. Mas você era muito jovem para ser totalmente responsável.” Os pais dela, Teresa Dovey, uma pioneira estudiosa dos trabalhos de Coetzee, e Kenneth Dovey, um psicólogo educador, eram politicamente ativos. Razões pessoais e políticas levaram a família a transitar entre a África do Sul e a Austrália cinco vezes entre os anos de 1982 e 1987. Em 1995, o apartheid tinha acabado, e os Doveys tiraram um ano sabático em Sydney. Quando o tempo acabou, no entanto, Dovey e sua irmã – Lindiwe Dovey, agora uma estudiosa do cinema e da cultura africana, professora, e cineasta em Londres – estavam tão felizes com a escola que escolheram ficar, sozinhas. “Foi uma decisão muito corajosa para os meus pais tomarem,” ela diz. “Eles vinham visitar quando podiam. Nós não fomos abandonadas de jeito nenhum.”

Em Harvard, ela se focou em estudos visuais e ambientais e antropologia, e, para o seu projeto final, fez o documentário Aftertaste, sobre as mudanças nas relações trabalhistas e culturais nas “vinícolas” sul-africanas. Depois da formatura ela se mudou para a Cidade do Cabo, onde escreveu Blood Kin, que foi publicado inicialmente pela Penguin South Africa. Ela retornou aos Estados Unidos para fazer pós-graduação em antropologia social na New York University, ganhou um mestrado, mas partiu sem um doutorado, então se casou com o atual marido, Blake Munting, e voltou para Sydney, onde seu filho, Gethin, nasceu em 2012. (Eles estão esperando mais um filho até o final do ano)

Escrever sempre foi um de seus “canais criativos”. Ela já finalizou oito livros (seis que, na mente dela, não merecem ser publicados), mas, apesar das críticas positivas para Blood Kin, continuou seu trabalho como pesquisadora ambiental e em projetos de filmes etnográficos até que Só os Animais Salvam, que ela se refere prontamente como “um livro estranho”, foi publicado. “Eu não esperava aquilo. Eu estava escrevendo personagens que eram animais mortos,” ela explica, “e não fazia ideia se eu tinha ficado completamente louca.” Um aumento de confiança, juntamente com uma preferência crescente pela solidão e a autonomia que a arte literária proporciona, a levou a se comprometer a escrever em tempo integral no ano passado, incluindo não-ficção freelance para o blog do The New Yorker.

A maternidade também teve o seu papel: “Me tornou mais grata pelo tempo que eu tenho para escrever,” ela acrescenta – e por fim mais criativa, especialmente enquanto terminava Só os Animais Salvam, em 2013. A natureza da gravidez, amamentar e cuidar de um recém-nascido, intensificou sua afinidade com “toda a família dos mamíferos.”

O título original do livro vem dos trabalhos de Boria Sax: “O que significa ser humano? Talvez só os animais saibam.” Assim como Coetzee, Sax, um autor e acadêmico conhecido por seus textos sobre a relação entre humanos e animais, influenciou Dovey, que também admite sentir-se “perplexa ao ponto de inação nos termos das responsabilidades éticas que temos em relação aos animais e as obrigações que devemos a eles como a espécie dominante na Terra. Nós tratamos os animais das maneiras mais terríveis atualmente.”

Ainda assim, Só os Animais Salvam é apolítico. O livro gera empatia, vergonha e tristeza, mas também admiração para com essas criaturas espirituosas. Eles enfrentam o que a vida e a morte trazem com uma presença de espírito invejável, como seres viscerais. “Que escolha ela tinha”, pergunta o papagaio em Beirute, “senão pendurar minha gaiola na tenda acima e sair tão silenciosamente quanto pudesse, antes que eu percebesse que estava sozinha?”.

“Eu tenho muita noção de que nós somos todos criaturas que sofrem juntos, e que a existência é difícil para todos nós”, Dovey reflete. “Tem alguma coisa também sobre o elo que nós temos com os animais, o cuidado e a conexão que não apreciamos, ou que não vemos a mágica tanto quanto deveríamos”. As lições dos animais, ela destaca, agraciaram a literatura infantil ao redor do mundo. “Eles são como oráculos, lá nas nossas primeiras tentativas de construir empatia e imaginação”. E isso dá trabalho, ela diz: essas capacidades “não vêm automaticamente, no sentido de que a crueldade é uma falha da imaginação. Algo acontece na leitura através dessas lições dos animais que é bastante ligado ao que significa ser um bom ser humano”.

Este texto foi originalmente publicado no site da Harvard Magazine. O La Oliphant é responsável apenas pela tradução do conteúdo.

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