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23 jan, 2017

Quase Tudo Que Pensamos Saber Sobre Jane Austen Está Errado

Quase tudo que pensamos saber sobre Jane Austen está errado”. É isso o que afirma Helena Kelly, autora de Jane Austen, The Secret Radical (ainda sem título em português), um estudo brilhante, encorpado e bem acessível, sobre os seis maiores romances de Austen, publicado antes do lançamento da nova cédula de £10 com o rosto de Jane Austen, e antes do aniversário dos 200 anos da morte da escritora, em julho de 2017.

Em sua estreia, Kelly, que já lecionou para centenas de alunos na Universidade de Oxford e que, ao longo da última década, ensina sobre os romances de Austen, afirma que nos acostumamos com uma falsa Jane. Após 200 anos de biografias, estudos literários, filmes e adaptações de TV, canecas e xícaras de chá, Austen está tão incorporada em nossa consciência cultural que acabamos nos dispersando dos romances em si. A própria Kelly foi uma vítima disso: “Quando eu lecionava sobre Austen, eu geralmente tinha que voltar ao texto para verificar se aquilo de que me lembrava estava de fato nele. E sempre apareciam alunos escrevendo ensaios sobre cenas que não aconteceram de verdade nos romances, mas das quais eles se lembravam de ter visto em algum outro lugar”.

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Se realmente quisermos entender Austen do jeito que ela queria ser entendida, afirma Kelly, precisamos eliminar esse pretenso conhecimento do seu trabalho e as nossas noções de “dramas recatados em salas de estar”, e, ao invés disso, reler os romances, munidos do contexto em que eles foram criados: um tempo turbulento de guerra, revolução, império, censura e vigilância estatal. Afinal de contas, Austen escrevia não para um público de TV, fã de Colin Firth, de 200 anos depois, mas sim para leitores atentos de sua época – “Eu não escrevo para elfos estúpidos que não têm muita criatividade”, como ela mesma escreveu.

Austen poderia presumir que tais leitores captassem as referências contemporâneas sobre política, acontecimentos do mundo e religião, assim como Zadie Smith prevê que voltaremos à sua obra com algum conhecimento e sensibilidade sobre a Grã-Bretanha multicultural. Revisitar os romances de Austen dessa forma irá, de acordo com Kelly, revelar uma escritora que, longe de se preocupar apenas com parceiros de dança e sorrisos tímidos na sala de estar, era radical, espirituosa, teimosa e extremamente preocupada com as questões políticas e sociais da época em que vivia. Uma escritora que acharia que Orgulho e Preconceito e Zumbis não é revolucionário o bastante.

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Versões adolescentes

Quando adolescente, Kelly confessa que ficava impressionada (como muitas de nós ficamos) com os encantos do herói bonitão, que nadava no lago, com o peitoral de fora, representado pelo Mr. Darcy da adaptação televisiva de Orgulho e Preconceito de 1995. “Minha irmã e eu ganhamos a fita cassete dupla dessa adaptação e assistimos diversas vezes até as fitas ficarem deformadas. Mas eu acredito que o que me atraia de fato era a forma com que as adaptações destacavam a experiência das mulheres, e especialmente uma família de irmãs adolescentes, com uma combinação de afeto e vontade de estrangular umas às outras. Não se vê isso com muita frequência”.

Por outro lado, Mansfield Park, que Kelly estudou durante sua qualificação para o A-Level, foi uma frustração. “Eu achei ele muito difícil e cansativo. Eu me lembro de pensar: consigo perceber que há todo um trabalho artístico, mas não consigo entender o porquê. Onde está a essência, o eixo de tudo?” Kelly não estudou Austen novamente até o seu mestrado no King’s College, em Londres, e seu doutorado na sequência, em Oxford. Antes disso, uma curta experiência na faculdade de direito a convenceu que uma desejada carreira de advogada não era para ela, mas algo na experiência de se estudar direito deu a ela uma abordagem mais investigativa quanto aos romances de Austen. “Eu os abordei de forma bem diferente de antes e comecei a notar coisas diferentes”, diz Kelly.

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Kelly escreveu sua tese sobre as petições da Lei de Cercamentos existentes na bibliografia sobre as Guerras Napoleônicas, e fez um estudo detalhado de Emma durante esse processo. “Cerca de 30% de todos os cercamentos legais aconteceram entre 1789 e 1815. É a época central de Austen, a época da sua vida adulta enquanto escritora. Quase todos os proprietários de terra da Inglaterra e do País de Gales estavam lidando com a questão dos cercamentos nessa época, e isso tomou um enorme tempo dos parlamentares. Portanto, é claro que Austen escreveu sobre isso”.

E, de fato, conforme Kelly nos mostra, Emma é permeado de referências a cercas e barreiras. Lembram-se daquelas crianças ciganas desagradáveis que tentaram roubar Harriet Smith? Elas estão pedindo esmola na estrada porque ficaram para fora da cerca feita em seu acampamento. O entusiasmo da nova interpretação feita sobre Emma libertou Kelly para voltar a estudar outros romances de Austen de novo. “É uma questão de confiar no autor. Se você olhar os textos com seriedade, então você precisa confiar que o autor quer realmente escrever aquilo que eles escrevem. Austen não faz comentários inúteis. Se há algo ali é porque é para que você o capte”.

Em Jane Austen, The Secret Radical, Kelly afirma que Razão e Sensibilidade revela a indignação de Austen quanto à primogenitura, e que a situação lamentável das mulheres existia, geralmente, devido à incompetência financeira de seus parentes homens. Mansfield Park é um “romance passional”, pesado e profundamente preocupado com a abolição da escravidão, claramente marcado pelo seu título (Lord Mansfield era um dos abolicionistas mais importantes do fim do século 18). Northanger Abbey, no qual Austen chega mais perto de temas sexuais, trata dos perigos do parto, bem como das consequências de não se ler livros com a atenção necessária. Persuasão, o último romance completo de Austen, é uma meditação agridoce do caos inerente de nossas vidas em um mundo marcado pela instabilidade e mudança constantes.

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O orgulho antes da queda

E quanto a Orgulho e Preconceito? O mais amado romance de Austen é agora, Kelly afirma, o mais difícil que ela tentou ler. “Pensamos em Elizabeth e Darcy tendo um caso de amor clássico, mas, naquela época, era completamente o oposto. Retratar a abordagem sobre o amor como sendo algo gradativo e atencioso não era o que os romances faziam na época. O romance clássico da época é de Jane e Bingley. Eles se encontram e se apaixonam instantaneamente, seguindo o roteiro”.

Kelly classifica Orgulho e Preconceito como “um conto de fadas revolucionário”, e demonstra que o caso de amor sincero e intenso que acontece entre Elizabeth e Darcy é muito radical: uma união, em um período de guerra e revolução, de duas pessoas que, embora sejam de classes sociais diferentes, são iguais em muitos outros aspectos. “É sobre um casamento incomum, mas não pelas razões que imaginamos”, afirma Kelly. Não é mera coincidência que o romance também apresente Lady Catherine de Bourgh, a personagem aristocrática mais desagradável de Austen, a que tem um nome francês ainda por cima.  “De relance, podemos ver a sombra da guilhotina”, escreve Kelly.

A ideia de Kelly de escrever um livro para o público em geral, explicando sua compreensão particular do trabalho de Austen tomou forma nos árduos primeiros meses após ela ganhar o seu primeiro filho, Rory, que agora tem 3 anos e meio. “Tanto meu marido quanto nós sofríamos com a privação do sono. Eu tinha alucinações com bebês engatinhando no teto, era tudo muito difícil. Acredito que há uma característica um pouco delirante na forma que o livro tomou também, sobre a qual eu comecei a pensar: como Austen se parece se tirarmos tudo, tudo aquilo que pensamos saber, e simplesmente voltar aos textos? Como ela se parece então, e o que ela está realmente tentando dizer às pessoas para as quais ela realmente escrevia? ”

Essa é a descoberta que Kelly nos convida a fazer na época do bicentenário de Austen. Parece uma forma apropriada para homenagear uma das nossas grandes romancistas, uma que pode ser, de fato, maior do que jamais imaginamos.

A tradução deste artigo foi publicada originalmente no blog Escritoras Inglesas.
Publicado em 07 de novembro de 2016. Por Caroline Sanderson para The Bookseller.
Esse artigo foi publicado originalmente na revista The Bookseller em 9 de setembro de 2016.

11 fev, 2016

Conheça algumas adaptações das obras de Jane Austen

Fazer um especial sobre romances de época e não falar pelo menos um pouco sobre Jane Austen é quase um crime. Autora de um dos romances mais conhecidos do mundo, os personagens de Jane Austen encantam pessoas de todas as idades e, por isso, eu não poderia deixar de fazer uma publicação especial para essa mulher que, além de me fazer ficar completamente apaixonada pela literatura, criou o meu maior amor literário de todos os tempos: Mr. Darcy.

Apesar de eu recomendar a leitura dos livros, muitas pessoas sentem dificuldade em fazer a leitura, já que a linguagem utilizada é muito diferente das de hoje em dia. Pensando nisso, eu resolvi que esse post seria dedicado as minhas adaptações favoritas das obras de Jane Austen, sejam elas série ou filme, afinal, se tem uma coisa que temos em abundância são adaptações dos romances da Jane, não é mesmo? Então vamos começar!

Orgulho e Preconceito, filme 2005
Jane Austen

As cinco irmãs Bennet foram criadas por uma mãe que tinha fixação em lhes encontrar maridos que garantissem seu futuro. Porém Elizabeth deseja ter uma vida mais ampla do que apenas se dedicar ao marido, sendo apoiada pelo pai. Quando o sr. Bingley, um solteiro rico, passa a morar em uma mansão vizinha, as irmãs logo ficam agitadas. Jane logo parece que conquistará o coração do novo vizinho, enquanto que Elizabeth conhece o bonito e esnobe sr. Darcy. Os encontros entre Elizabeth e Darcy passam a ser cada vez mais constantes, apesar deles sempre discutirem.

Confesso que eu ainda prefiro a adaptação com o Colin Firth, mas Keira Knightley e Matthew MacFadyen fizeram muito bem o seu papel de Elizabeth Bennet e Mr. Darcy, e eu não posso tirar os créditos deles por isso. Particularmente, eu gosto muito da fotografia desta adaptação, mas eu também sinto falta de um pouco de profundidade dos personagens e acho que até mesmo no enredo. O elenco em si, é maravilhoso. Eu acho que a Lydia ficou a melhor de todas, e passou muito bem a personalidade da personagem. Parabéns pra Jena Malone, por isso! Acho que essa é uma adaptação que, pelo menos para mim, é mais voltada para aqueles que não leram o livro, como os personagens não são apresentados em sua essência, o roteiro fica mais focado no desenvolvimento do romance entre os personagens principais, mas isso não tira, de forma nenhuma, a beleza do filme.

Emma, minissérie 2009
Jane Austen

Emma conta a história de Emma Woodhouse que, aos 20 anos, é uma bela e privilegiada mulher inglesa, que vive na propriedade fictícia de Hartfield, em Surrey, na vila de Highbury, com seu pai, um hipocondríaco. O amigo e único critico de Emma, o gentil George Knightley, é seu vizinho no condado de Donwell, e irmão do marido de sua irmã mais velha, Isabella. A despeito das advertências de Mr. Knightley, Emma exerce indiscriminadamente sua função de “casamenteira”, e tenta aproximar sua nova amiga Harriet Smith, uma doce, mas não muito brilhante adolescente de 17 anos, de Mr. Elton, o pároco local.

Originalmente, Emma era para ser uma personagem odiada por todos, mas a jovem tem uma personalidade exótica que faz com que você se apaixone por ela sem pensar duas vezes. Assim, em um tom muito mais divertido que o dos outros romances, acompanhamos uma personagem casamenteira, que acredita fielmente saber o que é melhor para todo mundo, e de todas as adaptações desse romance, a minissérie de 2004, com Romola Garai no papel da heroína sempre foi, e sempre vai ser a minha versão favorita desse clássico. A vantagem da minissérie é que ela permite que a gente conheça melhor os personagens. Os diálogos são bem construídos e o enredo se desenvolve de uma forma muito divertida, passando muito bem a essência do livro, e ainda tem o Jonny Lee Miller (Elementary) no papel do lindo e maravilho Mr. Knightley.

Persuasão, filme 2007
Jane Austen

O enredo gira em torno de Anne Elliot, filha de Walter Elliot, baronete de Kellynch Hall, a qual sete anos antes dos eventos narrados no romance, apaixona-se por Frederick Wentworth, inteligente, ambicioso, mas pobre, e é impedida pela família de contrair matrimônio com o mesmo. Aos vinte e sete anos, Anne reencontra o ex-noivo, agora um oficial da marinha, interessado em sua vizinha, Louisa Musgrove, que é também concunhada de Anne, pois é irmã de Charles, casado com Mary. Anne percebe que ainda ama Wentworth e tem de lidar com a convivência num ambiente em que ele se torna frequente e com a possibilidade de ser deixada de lado em favor de Louisa. É apenas quando Anne reconhece seus sentimentos íntimos como verdadeiros, que a persuasão se completa.

Atualmente a minha adaptação favorita de todas as adaptações já feita das obras de Jane Austen. Eu sou apaixonada por Orgulho e Preconceito, mas Persuasão é um livro que fala sobre perdão e essa adaptação em particular consegue passar exatamente o que eu senti quando estava lendo o livro. Anne Elliot é interpretada por Sally Hawkins e eu não poderia concordar com atriz melhor para esse papel. Sally consegue passar muito bem os conflitos da personagem, assim como Rupert Penry-Jones consegue dar vida ao capitão Wentworth como nenhum outro ator. Claro, eu acho que a fotografia do filme poderia ser um pouco melhor do que foi, mas todo o resto se encaixa tão bem que é muito fácil de se ignorar isso.

Eu posso numerar para vocês diversas outras adaptações dos livros de Jane Austen que conquistaram fãs por todo mundo, mas isso faria esse post ficar muito maior que o esperado, por isso citei apenas as três que eu mais gosto, além da série de Orgulho e Preconceito (1995). Cada um desses livros tem uma história encantadora, e personagens que vão fazer você se apaixonar. É muito difícil assistir qualquer uma destas adaptações e depois não sentir vontade de conhecer mais sobre Jane Austen ou ler os seus livros.

Agora eu quero saber de vocês. Conhecem algumas dessas adaptações? Tem alguma favorita que eu deveria ter mencionado no post? Deixe aqui nos comentários que eu quero saber o que vocês amam sobre essa autora maravilhosa!

romances de época