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Literaría 22dez • 2016

Como a leitura me ajudou a lidar com a ansiedade

Eu sempre tive ansiedade. Fui diagnosticada por volta dos 12 anos e fiz um longo e interminável acompanhamento médico desde então. Enquanto os meus colegas de colégio faziam trabalhos em grupo e se divertiam, eu passava minhas tardes numa saleta com a minha terapeuta tentando encontrar a melhor forma de viver meus anos escolares. Não foi nada fácil, principalmente durante os meus 15 anos, quando as crises se tornaram mais fortes e eu desenvolvi gastrite nervosa. Constantes dores no estômago e idas diárias ao hospital, mesmo sabendo que eles não poderiam resolver o meu problema.

Foi aos 19 anos, em meio a uma crise no corredor da faculdade que eu encontrei um bote salva-vidas. Não lembro qual foi o gatilho da ansiedade naquele dia, mas me lembro perfeitamente de deixar o campus e ir em direção a livraria que ficava ali perto. Não fui com a intenção se comprar nenhum livro, eu só sentia a necessidade enorme de caminhar, de sair daquele prédio e respirar um pouco.

Saí de lá acompanhada de dois livros do Gabito Nunes. Não me lembro bem porque os escolhi, mas me lembro perfeitamente de sentar na escada do campus e passar as duas últimas aulas entre um conto e outro. Embora eu achasse Gabito um tanto dramático quando se tratava de amor, suas crônicas me ajudaram a sobreviver as crises de ansiedade que se seguiram, se tornando um verdadeiro alívio para mim nos dias mais difíceis. Depois deste dia, livros se tornaram meu remédio favorito para a ansiedade.

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Quando estou lendo, minha cabeça se desliga completamente do mundo real.

Eu não tenho um livro específico que me faça respirar melhor ou que tire a sensação de peso sob os meus ombros, mas sempre que escolho uma obra para ler, eu consigo deixar os problemas do mundo real de lado e mergulhar na fantasia proposta pelo autor. Isso me ajudou bastante no período da faculdade que, foi o período mais estressante da minha vida até agora.

Ler me ajuda a produzir melhor os trabalhos da faculdade, a me concentrar mais nas matérias e a bloquear os gatilhos externos. Sempre que alguma coisa me incomodava, eu tirava um livro de dentro da mochila e criava um escudo a minha volta. Eu não acho que teria sobrevivido quatro anos de faculdade sem meus livros.

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Amizades verdadeiras surgiram do hábito.

Eu costumava ler em qualquer lugar. Na escada da faculdade ou até mesmo na sala de aula. Com o tempo, algumas pessoas foram reparando no meu vício pelos livros e eu fui ganhando a oportunidade de fazer novos amigos – o que nunca fui muito a minha maior habilidade. Era muito raro alguém não sentar ao meu lado na escada para discutir alguma coisa que eu estava lendo. Colecionei dicas de leituras maravilhosas, me reuni com muitos apaixonados por Jane Austen e comecei a me aventurar em leituras que eu achava que não iria gostar tanto.

Foi por causa da leitura que a minha habilidade social melhorou muito. Quando se é muito ansioso, é praticamente impossível se relacionar com outras pessoas sem pensar que está incomodando de alguma forma, ou ter um ataque de pânico. Mas por causa do meu relacionamento com os livros, isso se tornou um pouco mais fácil e bem mais suportável para mim.

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A representatividade na literatura me deixava aliviada.

Will Grayson Will Grayson foi o livro que despertou um alívio dentro do meu peito. Estava lendo dentro do ônibus quando ia para a faculdade quando a frase “Às vezes não sei se me mato ou se mato as pessoas a minha volta” me atingiu. Eu conhecia muito bem esse sentimento, a dificuldade de sair da cama em determinados dias, de ter que ir trabalhar quando a vontade era ficar em casa dormindo para sempre.

Eu me sentia menos estranha quando encontrava um personagem na mesma situação que eu. Um personagem que entendia meus conflitos internos e a minha dificuldade de encarar o mundo lá fora. Era um alívio muito grande ter consciência de que alguém, em algum lugar no mundo entendia, melhor do que eu mesma, como eu me sentia e isso me dava forças para continuar.

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Uma válvula de escape melhor que qualquer remédio.

Lidar com ansiedade não é nada fácil. É uma luta travada todos os dias, do momento em que eu acordo a hora que eu vou dormir. Neste ponto, os livros foram o melhor remédio que eu poderia ter encontrado nessa vida. Os enredos e seus personagens me ajudam a lidar melhor com os desafios do meu dia a dia, se tornando meu conforto e meu escape quando não consigo respirar.

Não estou dizendo que para todo mundo terá o mesmo efeito, mas eu consegui encontrar nos romances, nas fantasias e nas distopias uma forma de lidar com as minhas próprias barreiras. Melhor do que os remédios, os livros me ajudam a ter mais confiança para viver mais um dia, aliviando o peso que eu carrego nas costas e se tornando uma distração agradável para os dias mais difíceis.

Imagens: 1, 2

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