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SOSELIT 16mar • 2018

SOSELIT #3 – Eu quero reclamar sobre romantização do relacionamento abusivo

O tema do #SOSELIT este mês propõe um tema que já é muito discutido aqui no blog, e uma tecla na qual eu vou bater enquanto eu achar que isso é um problema: romantização de relacionamento abusivo na literatura. E isso não poderia ter vindo em um momento melhor porque, justamente esse mês, eu terminei de ler mais um “romance”, onde a personagem principal sofre diversos abusos durante os capítulos, mas a história é vendida como um romance e aplaudida pelos leitores. Vocês conseguem enxergar onde está o erro nessa situação toda?!

Eu sempre fui uma grande apaixonada por uma boa história de amor,, não importando o gênero. Mas a minha visão sobre o que se caracteriza um bom romance veio mudando muito de uns anos para cá, principalmente depois que eu comecei a ter um contato maior com o movimento feminista e a me conscientizar de que certos comportamentos não são muito normais. Com isso, meu gosto literário foi mudando bastante e, alguns livros que antes eram um dos meus favoritos, hoje me deixam enjoada apenas de lembrar que um dia eu achei aquilo a oitava maravilha do mundo.

Mas hoje eu não estou aqui para fazer outra crítica a Princesa de Papel e nem para lembrar a vocês que o relacionamento da Abby e do Travis, de Belo Desastre, é abusivo. Na verdade, eu queria conversar com vocês sobre consciência literária e porque eu simplesmente não consigo me calar quando eu me deparo com um enredo que é completamente fora daquilo que eu considero um romance saudável dentro da literatura. Até onde vai a nossa responsabilidade quando damos cinco estrelas para um livro que, claramente, romantiza um relacionamento abusivo? Leia mais

Literaría 16abr • 2017

New Adult e a exploração do relacionamento abusivo.

Eu poderia fazer uma lista interminável de New Adults que eu li, ou pelo menos sei da existência, onde o personagem principal – também conhecido como o herói da história – além de ter um corpo musculoso, às vezes tatuado, outras vezes não, também é um homem extremamente ciumento, preocupado com o bem-estar da sua amada e, muitas das vezes extremamente controlador. Tenho certeza que algumas dessas características irá fazer você se lembrar de alguma história que leu, talvez até recentemente e, por algum motivo, achou que era exatamente o que você desejaria num relacionamento. Bem, esta publicação veio justamente para desconstruir esse pensamento.

Vou começar citando a minha leitura mais recente, Princesa de Papel, onde o nosso herói Reed, agride a personagem principal e também o seu par romântico na história de todas as formas possíveis. Por algum motivo, em determinado ponto do livro, as agressões se tornam palavras de carinho, e a nossa heroína Ella Harper é promovida de “piranha” para “amor”. Isso também acontece em outros livros, talvez não com a mesma intensidade, mas se pararmos para pensar, em Belo Desastre, o nosso querido Travis Maddox perdia o controle do seu temperamento com muita facilidade se qualquer outro homem se aproximasse de Abby, seu par romântico no livro.

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Faz tempo que eu venho observando em como os new Adults começaram a absorver a ideia de “homem-dominador” que normalmente encontramos nos livros eróticos. Os personagens masculinos são destemperados, entram em brigas pelos menores motivos e tem uma mania insuportável de querer controlar o que, quando e como a suposta heroína do livro vive a sua vida. Você pode observar que a maioria dos enredos possui uma situação em que a “mocinha” do livro precisa ser resgatada e o diálogo sempre caminha para o herói em um monólogo de repreensão sobre a heroína não ter “obedecido” quando ele disse para ela não fazer isso ou aquilo.

Eu sei que muitas pessoas ainda não tomaram consciência disso, mas esse tipo de relacionamento não é saudável.

Quantas de vocês aguentariam estar em um relacionamento com um homem completamente problemático, cheio de demônios para enfrentar e sem nenhum tipo de autocontrole? É exatamente isso que estes enredos nos passam. Personagens masculinos completamente perturbados que encontram na heroína uma paixão avassaladora e a sua forma de redenção.  O problema é que nós sabemos que na vida real, essas características não são tão fáceis de lidar e que um relacionamento com um cara “emocionalmente perturbado” pode resultado em um relacionamento muito tóxico.

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Ultimamente eu tenho me preocupado demais com a publicação de livros que tratam esses relacionamentos abusivos como algo positivo, algo que a longo prazo vai te fazer feliz. Esses enredos fortalecem uma ideia muito errada de que se a mulher persistir naquele relacionamento agressivo, tóxico, tudo vai acabar bem no final, porque só ela é capaz de proporcionar a redenção que seu amado precisa. Vocês conseguem imaginar a quantidade de mulheres que persistem em um relacionamento ruim por causa dessa ilusão? Muitas.

A literatura influencia muito no que buscamos na nossa vida. Quantas vezes vocês já não compartilharam que o Mr. Darcy, de Jane Austen, não aumentou suas expectativas sobre os homens? O mesmo acontece quando você entrega na mão de adolescentes e até mesmo jovens adultos, um livro que retrata um relacionamento obviamente tóxico que teve um final feliz. As pessoas absorvem aquilo e criam dentro de si o desejo de viver exatamente aquilo. E nós sabemos como relacionamentos desse tipo não acabam bem, não é mesmo?

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Eu fico muito preocupada em saber que livros como Princesa de Papel, Belo Desastre, 50 Tons de Cinza, Adorável Cretino,  entre outros, estão por aí romantizando esse tipo de comportamento masculino e fazendo parecer que é certo um cara querer controlar a sua vida com a desculpa de estar te protegendo, ou te chamar de “piranha” e “vadia”, mas tudo isso porque ele está secretamente apaixonado por você. Eu acho que o mercado literário precisa passar por uma avaliação muito série sobre o que é ou não coerente publicar, principalmente porque eles não conseguem medir o impacto que essas histórias podem ter nos seus leitores.

Por fim, eu quero deixar aberta essa discussão sobre essa romantização de personagens masculinos “dominadores”.  O que vocês acham desse tipo de enredo e como você veem esses personagens quando se deparam com esse tipo de literatura?

Créditos: Imagem, Imagem, Imagem

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