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Literaría 29jul • 2017

Porque precisamos de mais livros com personagens trans

Apenas Uma Garota, de Meredith Russo, era o livro que o mercado brasileiro mais estava precisando no momento, principalmente agora que o diálogo sobre diversidade e identidade de gênero estão cada vez mais fortes. O livro foi lançado pela editora Intríseca em Junho deste ano e conta a história de Amanda Hardy, a nossa primeira protagonista trans.

Foi pensando na importância desse livro que eu resolvi me aprofundar mais no assunto e acabei me deparando com esse texto escrito pela própria Meredith Russo, sobre a necessidade que nós temos de expandir o diálogo sobre transgêneros e eu não poderia fazer outra coisa se não trazer esse texto para o blog e abrir esse diálogo com vocês.

Confira abaixo o texto escrito por Meredith Russo:

O ar noturno em Orlando estava cheio de umidade e luto quando Alex Gino e eu deixamos o centro de convenções e pedimos um táxi. Todos na conferência estavam perfeitamente cientes do que aconteceu apenas alguns dias antes, e a atmosfera era uma mistura bizarra de celebração e ressentimento. Todos estavam presentes, bibliotecários e autores,  havia bandeiras de arco íris em todos os lugares, os nomes dos mortos estavam nos lábios de todos, e certamente era um sopro de ar fresco como uma pessoa que cresceu no Sul, mas foi difícil não notar que essas afirmações só pareciam seguir a morte. Difícil não se perguntar como seria o mundo se conversássemos sobre vidas estranhas, vidas negras, vidas precárias, vidas de imigrantes, enquanto ainda estão vivos. Pensar nessas coisas me fez sentir amarga e ingrata, mas quando você é trans e o único dia dedicado a você é um funeral em massa, é difícil às vezes não ser cínico.

Nós não discutimos o assunto enquanto pegávamos um táxi e pedíamos ao motorista recomendações de restaurantes – não havia necessidade. Ser trans é viver na companhia de fantasmas, um constante equilíbrio de respeito aos mortos e se recusar a deixá-los arrastá-lo para o mundo deles. Em vez disso, discutimos projetos futuros, os rigores das empresas de viagens e convenções, a política da indústria editorial, os aspectos mais bizarros da vida como autor, a surrealidade de perceber de repente que você é uma figura pública. Discutimos filmes favoritos e namoro e RVs. Nós adoramos experimentar as margaritas, tiramos selfies. Nós lamentamos a política de urinar.

Mas você não pode manter os fantasmas distantes para sempre, e eventualmente as margaritas conseguiram o melhor de mim. Quando nos sentamos em um banco lá fora, fumando e digerindo chouriço e açúcar, puxei meus joelhos para o meu peito e sussurrei: “Alex, somos só nós. Somos só nós “.

Ele assentiu, não precisando de mais explicações, embora talvez você precise. Meu livro, If I Was Your Girl, foi publicado pela Flatiron, uma marca de Macmillan, enquanto o livro de Alex, George, foi publicado pela Scholastic. Nós fomos, pelo menos na época, os únicos dois autores trans que escreveram histórias trans para grandes editores. Não sei se mudou desde então. Espero que tenha. Esta não era uma declaração de orgulho ou de superioridade, no entanto, não era nada: era um tanto pavoroso.

Não posso falar por Alex, mas nunca quis representar minha comunidade. Eu só queria escrever uma boa história de amor sobre uma menina trans, no Sul, encontrando a si mesma, na esperança de que isso ajude alguns jovens trans ao longo do caminho. Não sou um material de porta-voz. Eu sou um naufrágio nervoso e impulsivo nos meus melhores dias. E então há o medo de que eu já tenha saturado o mercado, que pessoas bonitas e liberais de cis em todo o mundo lerão meu livro, se parabenizarão por fazerem sua parte e abrirem suas mentes e seguiram em frente. Esse medo não é infundado. A resposta da maioria das redes à ideia de uma série de televisão If I Was Your Girl foi encolher de ombros, seguida de “Nós já estamos trabalhando em nossa história trans”.

Porque você só precisa de uma, certo? Porque, em certo nível, é impossível não pensar que somos uma moda passageira, uma fantasia passageira e, em um ano ou dois, desapareceremos na obscuridade da vestimenta e da mentoria trágica. E às vezes eu não posso evitar me sentir como se eu tivesse contribuído para isso, e é quando a síndrome do impostor aparece como uma neblina nauseante. E se este for realmente o caso? E se o meu livro for uma das poucas chances que as pessoas trans terão para contar suas próprias histórias? Não acho que eu possa deixar de lado a sensação de que alguém conseguiria fazer algo muito melhor. O que Casey Plett ou Imogen Binnie fizeram com a minha plataforma? Ryka Aoki? Sybil Lamb? O que poderia fazer Rae Spoon ou Everett Maroon com acesso aos meus recursos e ao meu público? Há tantos escritores trans no mundo, na minha opinião, com muito mais habilidade e muito mais para dizer do que eu, e ainda assim, aqui estou. Como você lida com isso?

Foi assim que eu escolhi lidar com isso: não basta ler meu livro ou apenas ler o do Alex. Não leia um livro e se sinta satisfeito porque agora você entende as pessoas trans. As pessoas trans são pessoas em primeiro lugar, e nenhuma história pode conter a multiplicidade de nossas vidas. Dada a escolha entre uma história trans escrita por uma pessoa cis ou uma história trans escrita por uma pessoa trans, escolha sempre a última. Não nos deixe ser uma moda passageira. Não espere para nos discutir até que estivéssemos mortos e depois se sentir satisfeito por ter feito a sua parte. Não deixe que seja só nós, porque Deus sabe que eu tenho o suficiente em minha mente sem esse albatroz. Faça-me esse favor e prometo que não vai se arrepender.

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Prestes a entrar na vida adulta, Amanda Hardy acabou de mudar de cidade, mas a verdadeira mudança de sua vida vai ser encarar algo muito mais importante: a afirmação de sua identidade. Tudo que ela mais quer é viver como qualquer outra garota. E, embora acredite firmemente que toda mudança traz a promessa de um recomeço, ainda não se sente livre para criar laços afetivos. Até que ela conhece Grant, um garoto diferente de todos os outros. Ela não consegue evitar: aos poucos, vai permitindo que Grant entre em sua vida. Quanto mais eles convivem, mais ela se sente impelida a se abrir e revelar seu passado, mas ao mesmo tempo tem muito medo do que pode acontecer se ele souber toda a verdade. Porque o segredo que Amanda esconde é que ela era um menino.

Esta publicação foi  escrita por Meredith Russo e publicada no site Book Riot. O La Oliphant é responsável apenas pela tradução do texto.

Literaría 02jul • 2017

A representatividade negra na literatura e como ela apareceu para mim

Minha mãe diz que eu aprendi a ler bem cedo, e que minha primeira Bienal do Livro foi lá pelos meus dois, três anos de idade. Dali em diante eu nunca mais abri mão da presença de livros na minha vida. Cresci como leitora voraz, e me lembro que desaparecia por horas durante uma leitura e outra, tudo porque escolhia lugares como o cantinho do sofá na sala, na certeza de que, se eu ficasse ali quietinha, poderia ler sem ser incomodada. Hoje, aos 23 anos, a única diferença é que eu preciso me planejar bem se quiser ler algo tranquilamente, já que tem as leituras da faculdade (onde eu preciso ler mais e mais livros, já que, para a surpresa de absolutamente ninguém, eu fui parar em Letras!) e os horários apertados entre aulas e deslocamento.

Eu realmente sempre fui apaixonada por livros e sei bem que vocês me entendem quando digo que, normalmente, a primeira coisa que notamos numa leitura é como os personagens nos agradam ou se parecem com a gente, e como algumas de suas ações ou características criam aquela sensação de identificação. Essa ligação com personagens é ótima, mas quando se é uma criança negra – que foi o meu caso – e percebe que todas as princesas tem o cabelo liso e brilhante e peles alvas como a neve e bochechas rosadinhas, isso pode ser um pouco incômodo: um gênero literário como o infantil, que é tão cheio de princesas, mas que não possui uma sequer com o cabelo enroladinho e a pele preta.

A sementinha da falta de representatividade, que é o nome disso, já foi plantada, e os frutos dela são bem amargos. Na adolescência é um tanto quanto devastador quando você se dá conta de que só meninas belíssimas, mas que não são negras, ficam com os carinhas das bandas ou com os personagens principais.

Você nota que as meninas estão sempre ajeitando seus cabelos lisos antes de sair com o senhor príncipe encantado, ou que nunca tem uma personagem negra e forte, não secundária, para servir de espelho. Daí você desiste de buscar representatividade nos livros e tenta se convencer de que eles são um péssimo lugar para buscar isso. Ah, isso se você chegou a se perguntar o motivo. Do contrário, a questão só vai ficar ali, calada e fazendo um barulhinho durante as suas leituras, mas nunca respondida, nunca solucionada. Confesso que eu demorei a escutar e responder essa pergunta interna, mas, desde então, venho tentando recuperar o tempo perdido.

A primeira autora que me fez ver que, sim, eu poderia me sentir representada – e muito bem, obrigada – em meio às páginas dos livros foi a Chimamanda Ngozi Adichie. Descobri a Chimamanda em um post citando Americanah, no Goodreads, ou em alguma resenha do Youtube e, muito curiosa e empolgada, decidi ler sem tradução mesmo, porque eu nasci de 7 meses e sou desesperada. A autora é nigeriana e publicou títulos como Americanah, Meio Sol Amarelo, Hibisco Roxo, Sejamos todos feministas, dentre outros. Já faz um tempo que seus livros, não vou negar, serviram como porta de entrada para que eu começasse a reclamar bastante pela falta acesso e divulgação de autoras negras, personagens negras e fortes, onde a história não se desenrolasse de modo pejorativo por conta de sua raça.

A Octavia E. Butler é também foi uma autora que conheci muito por acaso, muito recentemente e que, inclusive, estou terminando de ler um de seus livros. Ela é afro-americana e escreveu vários livros de ficção científica feminista, tendo como tema, geralmente, racismo e preconceito. Informação importante que eu não fazia ideia até pesquisar para esse post, é que ela foi a primeira autora negra de ficção científica a ser reconhecida internacionalmente por seu trabalho que, por sinal, eu descobri acidentalmente enquanto comprava livros na Amazon usando um cupom de desconto.

O escolhido foi Kindred – cujo tema é escravidão e, com a sorte de estar estudando literatura norte-americana nesse momento, pude ver o quão bem embasado é – e realmente me senti impactada durante a leitura dele, que me serviu de convite para as próximas obras dela. Tem uma citação deste mesmo livro que talvez mostre o quanto a escrita de Butler seja forte, e eu vou coloca-la traduzida logo abaixo.

Sociedades repressivas sempre pareceram compreender o perigo das ideias “erradas” –  Octavia E. Butler, Kindred

Uma outra mulher incrível que também me prende a atenção demais, apesar de não ser por meio de seus livros – já que ainda não os li-, mas por seus roteiros, é a Shonda Rhimes, autora do livro O Ano em que disse Sim, recém publicado no Brasil, e roteirista de séries consagradas como Grey’s Anatomy, Scandal, How to Get Away with Murder e outras. Nas séries, ao menos nas três citadas e que são as que assisto, o que não falta é mulher negra empoderada, de todo o tipo, de diferentes realidades.

Descobrir que existiam essas possibilidades de me enxergar em uma personagem tão parecida comigo, principalmente fisicamente, de dividir os mesmos dilemas na hora de pentear o cabelo ou de ver que existem heroínas disponíveis para que eu me sinta representada foi muito importante para mim e para minha formação, ainda que seja algo recente – o ser humano está em constante formação e evolução, afinal.

Minha vida acadêmica e cultural se modificou bastante, visto que eu resolvi que pesquisaria e me esforçaria para ter contato com mais desse conteúdo, dar mais visibilidade às autoras negras e poder passar isso para minhas priminhas que estão crescendo e correm o risco de passar pelo mesmo que eu passei, ou até para meus filhos, minhas filhas, no futuro. Eu demorei a questionar e procurar solucionar minha dúvida. Eu demorei a descobrir que tinha sim uma variedade de autoras negras para mim e, infelizmente, demorei a ter contato com as autoras negras brasileiras, mas esse já é assunto para um outro post!

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