26 out, 2020

bookstagram: o que eu aprendi falando de livros no instagram

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isso vai parecer muito esnobe, mas eu venho de uma época onde falar de livros era, literalmente, sobre os livros.

quando eu comecei no mundo literário, as resenhas eram sobre o livro, sobre o plot, os personagens e a narrativa. não tinha muita preocupação com fotos e hashtags, o foco estava única e exclusivamente no livro.

quando o instagram começou a ser a rede social favorita de quase todo mundo, as mudanças na forma como uma resenha era consumida foram ficando mais evidentes.

nós já tínhamos o youtube, mas ainda naquela época – 2015, por aí – existia uma preocupação em passar o máximo da ideia do livro possível. quando o instagram se tornou uma febre nos anos que se seguiram, as discussões literárias ficaram mais superficiais e plataformas como blogs começaram a ser esquecidas – eu inclusive tenho uma amiga que trocou o blog por um canal no youtube e está indo super bem.

e acho que foi assim que nasceu o bookstagram – confesso que não estava prestando muita atenção até uns 2 anos atrás.

os conteúdo que antes eram enormes e mega detalhados passaram a ser resumidos em um parágrafo depois de uma sinopse enorme. o foco não era mais a resenha, mas a foto conceitual do livro. leitores que antes passavam horas debatendo um livro nos comentários de um blog, agora comentavam “ótima resenha” em um post que não dizia absolutamente nada de relevante sobre o livro.

eu tentei me aventurar no bookstagram por um tempo. gravei uns stories, vídeos para o igtv e até fiz algumas resenhas na legenda das minhas fotos quase bem editadas.

depois de quase um ano e meio “tentando” desvendar o mistério do bookstagram, aqui estão algumas coisas que aprendi:

não é sobre o livro, é sobre outra coisa

eu acompanhei perfis famosos e, acompanhei perfis que estavam começando. sabe o que eles tem em comum?

nenhum deles realmente falavam sobre os livros que liam.

resenhas vazias, com opiniões genéricas – às vezes contraditórias também, mas com fotos extremamente bem produzidas e as hashtags certas para garantir um bom alcance. você tem mais sobre a sinopse do livro, do que sobre o livro em si.

eu não preciso realmente ler o livro, eu só preciso dizer em poucas palavras se ele é bom ou ruim. o mais legal? quando o perfil tem parceria com alguma editora, o livro nunca é ruim. (acho que é uma regra não fazer resenha negativa de livros que ninguém se deu o trabalho de me contar)

a maior parte dos perfis que eu acompanhei eram mais sobre exibir a sua estante, mostrar os recebidos, ter um feed harmonioso e muitos, muitos seguidores.

e não se enganem, é muito fácil você se perder nisso.

essa coisa de comentários e likes é realmente intoxicante. eu demorei para perceber que eram poucas as pessoas que realmente engajavam com a minha opinião, na verdade, a maior parte só elogiava a foto ou comentava que queria muito o livro.

e não era um problema de conteúdo, mas de perfil. o leitor do bookstagram não quer saber a minha opinião real do livro, muito menos entrar na minha viagem literária: ele quer saber se compra ou não, só isso.

você pode escrever qualquer coisa na legenda

outro dia eu fiz um desabafo no instagram sobre, porque persuasão é o meu livro favorito e eu perdi a conta de quantos comentários e mensagens eu recebi dizendo: “adorei a sua resenha”.

só que não era uma resenha.

o leitor do bookstagram não liga muito para o que você vai colocar na legenda, acho que por isso a maioria delas seja sempre a sinopse do livro e um breve comentário sobre a experiência de leitura.

você pode sinalizar o quanto quiser a temática do post, o bookstagram só vai pegar a informação que importa: devo comprar ou não esse livro?

isso meio que tira um pouco do tesão da coisa, sabe?

eu, por exemplo, me expresso demais nas minhas legendas. gosto de falar o máximo que posso da narrativa e da minha experiência. me deixa feliz compartilhar os detalhes interessantes, a dinâmica que o autor criou etc e me frustra quando eu percebo que, para a maior parte daquele público, isso é irrelevante.

ouviram meu coração se partir?

a foto é mais importante que tudo

e existe um motivo pra isso.

o bookstagram é a mesma coisa que um instagram de moda, só que com livros. tem mais seguidores e mais engajamento quem consegue fazer as fotos mais interessantes, com as melhores edições.

importa se o conteúdo é vazio? não importa. eu acompanhei os perfis mais conhecidos por semanas e qualquer um que discordar disso estará sendo hipócrita. eu vi perfis com fotos lindas e resenhas tão aleatórias que eu acabei dando unfollow na pessoa.

mas o engajamento do perfil era maravilhoso, então meio que não importa né?

não é atoa que as minhas fotos com melhor engajamento são:

  • as com melhor edição;
  • as que mostram a minha estante;

o instagram é uma rede social visual, então porque seria diferente com os livros? a gente se engana quando coloca o bookstagram como um nicho diferente, na verdade, é tudo a mesma coisa: eu quero ver o que você tem na estante e não saber da sua experiência com o livro – que é a mesma versão de “eu quero saber quanto custou essa roupa e onde você comprou”.

quando eu posto foto da minha estante, é certo que eu vou ter pelo menos 1k de curtidas e mais de 100 comentários. não importa muito o que eu colocar na legenda. ninguém está realmente interessado na minha organização, ou qualquer que seja o motivo da foto – eles só querem ver a minha estante, é isso.

eu sinto que é uma vitrini para ver quem tem a decor mais bonita, mais livros na estante etc. não é sobre o livro, sobre as nossas experiências literárias e nem sobre o impacto que ler tem na nossa vida.

talvez o bookstagram não seja pra mim

eu decidi isso quando percebi que vídeos são bons até 3 minutos, legendas são boas até 300 caracteres e fotos tem engajamento quando são muito bem editadas.

tudo no qual eu falho miseravelmente.

considerando que esse post já tem mais de mil palavras – e só por isso não caberia no instagram – percebemos que eu sou uma pessoa que gosta de se aprofundar nas próprias divagações, opiniões e, consequentemente, nas resenhas.

eu gosto de falar sobre, não importa o que seja.

minhas resenhas precisam falar muito (sem dar spoiler) porque eu quero que vocês sintam a minha empolgação e entendam, com uma riqueza absoluta de detalhes, o que me empolgou – ou me deixou puta e frustrada, porque acontece também.

minhas fotos não são ruins, mas eu ainda estou tentando me encontrar ali – e confesso que a comunidade do bookstagram não dá muito espaço para a gente ousar e tentar coisas novas. existe um padrão, mesmo que discretamente ignorado.

e os vídeos.

ninguém sofre mais do que eu tentando transformar um vídeo de 20 min em algo de 3 min, no máximo 5 min. acho que depois que você se estabelece na comunidade, meio que ganha o “aval” para vídeos mais longos. porém, eu não sou famosa pela minha paciência, né?

há alguns meses, conversando com uma amiga sobre como me adaptar ao bookstagram, percebi que eu teria que me cortar pela metade para conseguir caber. resenhas mais objetivas, vídeos curtos, fotos mais editadas e uma porção de outros hábitos que eu não tinha e que precisaria ter.

e não é que eu odeie o bookstagram, eu só não tenho o perfil – e confesso que perceber isso me libertou das obrigações que, para começo de conversa, eu nem queria ter.

esse tempo no bookstagram me fez perceber onde eu me sinto mais a vontade. me libertou da briga com os algoritmos e me trouxe de volta ara o blog, onde eu me sinto mais a vontade e com mais espaço para me expressar.

no fim, não foi um expriência ruim, mas uma jornadade de autoconhecimento sobre mim e sobre a maneira que eu quero falar de livros – ou de qualquer outra coisa que eu esteja com vontade.

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2 Comentários

  • Lorenna
    novembro 11, 2020

    Nossa, nem sei como cheguei aqui, mas “do nada” li algo que traduziu o que penso.
    Andei pensando em criar um Instagram literário e acho que o que mais me deixa com o pé atrás é isso: eu penso muito na legenda, em como transmitir em palavras o que eu sinto, quando na verdade só querem ver a foto. Eu acabo achando muito cansativo tirar a foto perfeita, editar, postar e no fim não gostarem e nem perceberem que o que mais importa é a legenda.
    Vídeos mostrando cada livro da estante? Detesto
    “capa mais bonita?” também detesto
    As vezes tudo que eu quero é o conteúdo “limpo”, objetivo, sem ter que assistir mil stories de alguém falando sobre nada, dando voltas e voltas e não ter nenhuma conclusão
    Mas eu também entendo que o instagram é como uma vitrine pra dar visibilidade e por isso aceitei que se eu quiser me “encaixar” vou ter que criar dois conteúdos diferentes sobre o mesmo livro, um “genérico” pro Instagram e um do meu jeito pro blog, que no final das contas é onde eu gosto de estar
    É tudo questão de escolha, né…
    Mas bom saber que não estou sozinha!
    Vou passear mais por aqui por hoje, estou adorando o blog. Beijos!

  • Rafael
    novembro 05, 2020

    Querida, você não está sozinha! É o blog é para isso mesmo, para escrever muito mais, queríamos nós que o mundo voltasse a ser como antes.
    Entretanto, a vantagem de ter uma conclusão sobre como cada rede social funciona é que temos o melhor dos vários mundos! Um conteúdo do Instagram dá um baita trabalho para ser criado, mas fazer vídeo também, e escrever um texto como o seu, também! Vejamos, para ter essa conclusão e compartilhar essa experiência foram, no mínimo, 5 anos de vivência.
    Então, agradeço por compartilhar esse texto, me deu um alivio pensar que mais gente reflete como eu.
    Na esperança de você ler esse comentário calmo, reflexivo e distante das outras redes sociais, mando um abraço e beijão! Continue a fazer o que você mais gosta.