18 jun, 2018

Até onde o contexto histórico é relevante em um romance?

Julia Quinn foi a minha primeira autora de romance de época. Comprei o livro dela na Bienal e devorei os três primeiros volumes de Os Bridgertons em um final de semana. Foi uma das melhores leituras da minha vida porque, além de ter uma escrita muito gostosa, os personagens de Quinn são sempre bem-humorados e deixam a gente com aquela sensação boa de terminar uma leitura que realmente valeu a pena em cada capítulo. Depois de Quinn, eu resolvi me arriscar em outras autoras de romance de época, mas infelizmente nem todas me deram a mesma boa experiência.

Quem acompanha o blog sabe que, recentemente, eu andei lendo a trilogia Irmãos McCabe da Maya Banks e não poupei esforços para repudiar o conteúdo de ambos os livros da série. Para quem não está familiarizado com a minha opinião sobre essas leituras, eu achei que Maya Banks perdeu um pouco a “mão” na construção dos seus personagens, criando heroínas submissas e relacionamentos carregados de abusos psicológicos e violência sexual. E, por ver que muitas pessoas acreditam que eu esteja exagerando um pouco nessa conclusão, eu resolvi ir um pouco a fundo nessa questão.

*Este post pode conter spoilers dos três livros que compõe a trilogia Irmãos McCabe.

Os Irmãos McCabe é uma trilogia que se passa na Escócia, na época em que os Clãs ainda tinham uma grande influência política e social no país. Não é novidade para nenhum leitor de romances de época que as mulheres eram subjugadas a vontade de seus pais e maridos, não exercendo nenhuma influencia nas decisões tomadas, tendo como suas únicas funções a administração da casa e a criação dos herdeiros gerados através do casamento. E, por mim, até esse ponto está tudo bem. O que começa a me preocupar é quando Banks pega esse ponto do enredo e tenta transformar em um romance.

No primeiro livro da trilogia, Atraída por um Highlander, Mairin se casa com Ewan McCabe para escapar das garras de Duncan Cameron, mas acaba sendo estuprada na sua noite de núpcias por seu marido. Nesta cena específica, Banks tenta justificar a atitude de Ewan com a ameaça de invasão de Cameron, mas ao meu ver já é tarde demais, pois temos uma Mairin completamente apavorada com a ideia de ser tocada por seu marido, buscando todas as formas de escapar dele até que, obviamente, a autora tenta construir a imagem de herói protetor para Ewan.

Não bastava uma cena de estupro totalmente desnecessária no romance, Banks escolheu não parar por aí. Ao longo de todos os três livros da série, nossas heroínas sofrem humilhações e abusos psicológicos, sendo tratadas por seus maridos e supostos heróis da pior maneira possível, e isso tudo é feito de uma forma romântica, como se fosse a coisa mais normal do mundo. E agora eu pergunto a vocês, até onde vale a pena, para uma autora de romances de época, seguir o contexto histórico em prol de um enredo historicamente acurado?

O que fez com que eu me apaixonasse por romances de época foi o fato de que autoras como Julia Quinn, Sarah MacLean e Tessa Dare conseguem respeitar os contextos históricos da época, mas não precisam romantizar relacionamentos abusivos e nem cenas de estupro para que tenhamos heróis de tirar o fôlego. Todos os personagens dessas autoras seguem os contextos sociais da época, mas ao mesmo tempo buscam um evolução, respeitando suas parceiras e entendendo que elas são muito mais do que jovens damas desesperadas por um marido, o que não acontece em nenhum dos três enredos de Banks.

Rionna, a personagem do terceiro livro, era a minha esperança, mas todas as minhas expectativas foram destruídas quando ela também começou a ceder as humilhações de seu mais novo marido. Ele não só disse que ela fedia na frente de todo mundo, como também a humilhava constantemente na frente do seu próprio clã e, ainda assim, Maya Banks deu um jeito de extrair um suposto romance dessa relação. Eu não sei vocês, mas não importa em qual época se passe o livro, eu jamais conseguiria me apaixonar por um herói que só faz humilhar e desrespeitar a pessoa que deveria ser o amor da vida dele.

E então chegamos no ponto em que vocês me dizem que está dentro do contexto histórico da época e, eu aproveito para lembrar que Outlander também está dentro desses mesmos contextos históricos e, apensar de Claire e Jamie terem uma relação um pouco conturbada por causa da diferença de séculos em que nasceram, Diana Gabaldon conseguiu criar um romance minimamente aceitável, tendo licença poética para que seus personagens principais estivessem sempre muito bem nivelados dentro do enredo.

Se você não está satisfeito com essa justificativa, então podemos usar Julia Quinn, Mary Balogh e Lisa Kleypas como exemplo de autoras que conseguiram respeitar a sociedade histórica sobre a qual estavam escrevendo e ainda assim desenvolver romances saudáveis e personagens empoderados a sua maneira. O que, para mim, já é prova mais do que suficiente de que romances de época não exigem do autor que seus heróis sejam brutamontes abusivos e que suas heroínas tenham que passar por constantes humilhações.

Eu consigo entender que, em 1800, as mulheres não eram nada além do que uma mercadoria de troca, mas a vantagem de se tratar de uma ficção histórica é que a autora tem certas liberdades na criação do seu enredo, por isso não existe a necessidade de escrever uma cena de estupro, ou criar um herói que constantemente humilha sua parceira para, assim como em todo o relacionamento abusivo, dizer que aquilo nunca mais vai acontecer e fazer a mesma coisa no capítulo seguinte. Existe um limite, e ele precisa ser respeitado.

Eu amo romances de época justamente porque eles conseguem criar heroínas maravilhosas e a frente do seu tempo, dentro de uma época extremamente machista. E tudo isso acompanhado de uma escrita descontraída e diálogos que te fazem rir e ao mesmo tempo se apaixonar por aqueles personagens. Eu consigo entender que na realidade as coisas não aconteceram bem daquela forma, mas se eu quisesse uma história real, eu não procuraria um romance de época, mas um livro de história, não é mesmo?!

As autoras têm a famosa “licença poética” para a criação do seu enredo, o que já é o suficiente para não justificar uma cena de estupro, uma cena de abuso ou de violência. Afinal, se fosse assim, não teríamos enredos maravilhosos como Os Hathaways de Lisa Kleypas, ou O Clube dos Canalhas de Sarah MacLean. E eu realmente espero que com esse post vocês possam perceber que livros como os da Maya Banks não fazem nenhum bem para os leitores, pois nos incentivam a acreditar que quanto mais um cara nos maltrata, mais ele gosta de nós, o que na prática eu posso te garantir que não é bem assim que funciona.

Agora eu quero saber a opinião de vocês sobre esse assunto. Até onde é saudável para um romance, respeitar o contexto histórico da época?

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15 Comentários

  • […] bate papos nas comunidades de autores, descobri que eu não sou a única com essa dificuldade e resolvi fazer uma pesquisa profunda sobre o processo criativo de outros autores do gênero visando encontrar a melhor forma de trabalhar na minha própria […]

  • […] os romances de época, Um Reino de Sonhos tem os seus problemas. A idade da protagonista, Jenny, foi uma das coisas que me incomodaram bastante. Normalmente, nos romances que eu leio, as jovens têm em torno de 20 anos, mais ou menos, e no […]

  • Jade Sibalde
    junho 30, 2018

    Olá! Na minha opinião o autor pode mesmo escolher falar de um tempo histórico sem ficar preso aos aspectos mais negativos. Sim, sabemos que eram tempos difíceis mas não são livros de história, podem tomar certas liberdades artísticas em prol dos nossos valores atuais. Humilhações e violências não devem ser romantizadas, não devem ser um caminho natural para uma história, existem outros aspectos em que se pode ficar. Um exemplo pra mim é a Jane Austen, escreveu lindos romances em um contexto ainda pior, do século XVIII, e conseguiu nos encantar sem valorizar o que havia de pior na sociedade

  • suzana cariri
    junho 30, 2018

    Oi!
    Gostei muito do seu post, adoro os romances de época, acho que assim como grande parte dos leitores comecei por Julia Quinn e quando a serie dela que acompanhava acabou também fiquei meio órfã, minha sorte foi que encontrei a Sarah MacLean, mas acho que assim como o livro da Maya Banks, infelizmente temos vários livros que tratam sobre esse tema da agressão sexual, psicológica ou física de forma errada, no qual acaba romantizando o tema e trazendo um posicionalmente de aceitação nada legal, pois esse é um tema atemporal que com o sem licença poética ainda é uma forma de agressão, já vi alguns cometários sobre alguns livros e também li alguns livros que trazem humilhação, relações abusivas em pequenas atitudes de personagens e que quando começamos nesse mundo literários acabamos não percebendo, mas a partir do momento que vamos desenvolvendo uma leitura mais critica, acaba se tornando visível incomodando muito e é inaceitável algumas atitudes !!

  • Ana Carolina Venceslau Dos Santos
    junho 30, 2018

    Concordo com você em todos os aspectos vejamos é realmente ruim você se aventurar no romance cujo você só faz diminuir a imagem da Mocinha perante os outros e acabar com ela psicologicamente e emocionalmente é realmente desgastante você ver o sucesso que autores do tipo fazem com esses livros romantizando relacionamentos abusivos

  • Patrini Viero Ferreira
    junho 28, 2018

    Eu sempre acho as tuas opiniões sobre esse assunto bastante contundentes e acho que tu argumentou muito bem em defesa do teu ponto de vista. Não li nenhum dos livros que tu mencionou, mas como mulher e feminista, posso dizer que, pra mim, é impossível acreditar ou engolir realmente um romance calcado em machismo, opressão e humilhação. Além de não ser crível, é tóxico e acaba dando mais munição a algo que já vem sendo problematizado há tempos, e que já acumula várias tentativas de extinção. Acredito em romances, sim, mas romances saudáveis e respeitosos de ambas as partes, independente do ambiente, do espaço ou da época em que elas viviam. A literatura não é uma representação literal da realidade, na minha opinião: ela é mais um espaço onde convenções são reconstruídas a todo o tempo, um espaço no qual somos levados a rever vários dos conceitos que já dávamos como constitutivos da nossa sociedade. Esse tipo de literatura vai contra a verdadeira função do livro, pra mim: construir uma realidade social diferente, e auxiliar na implementação da igualdade, do respeito à diferença e, principalmente, da justiça.

  • Elizete Silva
    junho 25, 2018

    Olá! Acho importante que os fatos sejam retratados mais fielmente a sua época, li os três livros e gostei bastante da escrita da Maya, acho que ela conseguiu retratar bem o que acontecia naquela época. Acho interessante toda essa discussão sobre o tema, ao mesmo tempo em que vejo outras autoras sendo aclamadas por abordarem o mesmo tema, mas nos dias atuais, não dando nenhum exemplo e amparo para quem sofre com isso na vida real.

  • Micheli Pegoraro
    junho 21, 2018

    Amei esse post Débora, concordo plenamente com a sua opinião. Romance de época é o meu gênero literário favorito, principalmente devido às mocinhas determinadas e bem a frente de seu tempo, que fogem das regras impostas pela sociedade. Por isso sou fã da Julia Quinn, Sarah MacLean, Lisa Kleypas e, recentemente, da Tessa Dare. Essas autoras constroem personagens cativantes, tanto os mocinhos (inclusive os libertinos), como as mocinhas.
    Ainda não conheço a escrita da Maya Banks, e confesso que estou cada vez mais desanimada em ler os romances de época da autora, já vi vários comentários a respeito dos enredos que ela cria. Apesar de serem romances de época, não é necessário criar uma trama fielmente condizente com o contexto histórico da época em que se passa a história, onde as mulheres são constantemente humilhadas pelos familiares masculinos, e principalmente romantizar um relacionamento abusivo. E ainda para piorar, a autora justifica as atitudes do suposto herói, onde o mesmo se redime no final do livro. Isso é inaceitável, não sinto nenhuma vontade em ler mesmo.
    Beijos

  • Atraentemente Evandro
    junho 20, 2018

    Embora goste de romances de época, não tenho o hábito de ler com frequência para dar uma opinião mais embasada no assunto. Ainda não li Julia Quinn e nem Maya Banks, mas entendo o que você diz. Na minha opinião é complicado romantizar qualquer situação de desrespeito, a não ser que houvesse uma mudança real de comportamento e um arrependimento dos maus tratos, tanto físicos quanto psicológicos. Sabemos que isso era (ou talvez seja)muito comum, mas podia haver submissão, mas amor seria difícil.

  • Gislaine Lopes
    junho 19, 2018

    Oi Débora,
    Tive pouca experiência com romances de época e foram com duas autoras: Julia Quinn e Danielle Steel. Com essa leituras fui apresentada a dois retratos bem diferentes da época. Enquanto a primeira me apresentou romances fofos e com finais felizes, a segunda me chocou e surpreendeu ao trazer um retrato mais duro e realista para quem não encontra o amor ou o encontra, mas antes percorre um longo caminho. O que acho que acontece em alguns casos é as autoras apelarem, no começo da história, para no final termos a famosa redenção do mocinho, mas para chegar nesse pondo a protagonista sofre física e emocionalmente, para no final conceder o perdão e assim chegarmos em um “final feliz”. Os caminhos aqui percorridos sofrem muitas distorções e muitas coisas são confundidas com o amor. Usar o famoso “era assim na época” não é desculpa e se for para retratar a realidade de nós mulheres em um período onde não tínhamos direitos, não romantizem. inda quero ter muitas experiências no gênero, pois tem muitas autoras que tenho curiosidade de conhecer a escrita e as histórias, só espero que as surpresas sejam maiores que as decepções.

  • Lili Aragão
    junho 19, 2018

    Entendo seu posicionamento sobre os livros Maya mesmo não concordando. Sobre as outras autoras já li todas e amo suas histórias, assim como gosto dos livros históricos da Maya 😉

  • Theresa Cavalcanti
    junho 19, 2018

    Oi Débora,
    Eu não li nenhum livro dessa autora que você falou, por isso não posso opinar mais, só que eu entendo seu ponto. Qualquer livro que coloque duas pessoas em um relacionamento claramente abusivo, e ainda quer passar uma imagem de amor das duas partes, me irrita profundamente.

  • Bruna Lago
    junho 18, 2018

    A Julia é minha autora favorita! Também comecei com Os Bridgertons e como sinto saudades dessa família linda, até hoje não quis ler o último pra ter a sensação que ainda não acabou, hahaha.. e logo vieram todas as séries lançadas, porque tudo que vem dela é maravilhoso!! Adoro outras autoras também, como a Lisa, a Tessa, Sarah e Eloisa 🙂
    Reconheço que a Maya possui mesmo esse problema, aliás, muitos livros que envolvem clãs escoceses são assim, fico muito chateada! Até desisti de ler todos os livros dessa trilogia. As autoras usam muito do contexto em que a mulher era muito humilhada e pior quando acontece na frente de tantas pessoas, como é o que acontece nos livros.
    Como você falou, os romances de época nos encantam pelos personagens serem decididos e fortes, além de respeitar bastante a independência feminina. Gosto quando vejo uma mulher a frente do seu tempo e que busca sua felicidade. Adorei a crítica negativa aos livros da Maya!

  • Pamela Liu
    junho 18, 2018

    Oi Débora.
    Eu li apenas dois livros da Maya Banks, mas de outra trilogia: Montgomery e Armstrong – e gostei bastante. Ao contrário da trilogia McCabe (que ainda não li, nem pretendo ler), os protagonistas masculinos não são brutos nem humilham as mulheres na história. E, apesar das mulheres terem sofrido algum abuso por outras pessoas da história, elas são fortes e empoderadas. Se você for ler algo novamente da autora, acho que essa trilogia vale a pena.
    Adoro a escrita da Lisa Kleypas. Já li alguns livros da Julia Quinn, mas não gostei tanto assim.
    Já li duas séries da Saram McLean e gosto bastante da sua escrita também.
    Gosto muito de romances de época por causa da leitura rápida, envolvente e divertida Não acho que tenha que ter um teor tão pesado e os autores podem ajustar alguns pontos na história sem perder a essência do gênero.
    Beijos

  • Daiane Araújo
    junho 18, 2018

    Oi, Débora.

    Você falou uma grande verdade. As autoras não precisam usar da visão daquela épocas para criar um bom romance. É possível incrementar um bom romance usando outros elementos e artifícios.