21 nov, 2020

rádio silêncio e a pressão de tomar uma decisão definitiva sobre o seu futuro

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rádio silêncio tem várias facetas: você pode ler  a amizade da frances e do aled, você pode ler os relacionamentos secundários ou, no meu caso, você pode ser a pressão pela qual os dois personagens passam para tomar uma decisão definitiva sobre o seu futuro.

frances é a melhor aluna do seu colégio. tem as melhores notas, é representante de classe e leu todos os livros clássicos possíveis. tudo isso com o único objetivo de impressionar as universidades e conseguir entrar a tão sonhada vaga nas mais disputadas.

as universidades querem os melhores alunos, então ela tinha que ser a melhor.

esse trecho livro mostra muito bem o que eu quero falar:

❝— Por que mesmo você sempre quis ser representante de turma?

Respondi:

— Porque sou ótima nisso.

Mas estava pensando: porque as universidades adoram.❞

do outro lado nós temos o aled que, apesar de ser um bom aluno, definitivamente tem outros sonhos. o problema é que a mãe do aled já tem a vida dele totalmente planejada e a pressão familiar para viver o futuro perfeito é enlouquecedor – principalmente quando as expectativas dos seus pais não estão alinhadas com as suas.

eu gosto de olhar para esses dois personagens porque a maior parte das pessoas já passou por isso em algum momento da vida. eu passei por isso – talvez esse tenha sido o motivo de eu me formar em uma faculdade que eu definitivamente não gosto e trabalhar numa área que eu não tenho tesão nenhum. (pegou a vibe?)

no livro, a frances usa um termo para se descrever que eu gosto muito: existe a frances da escola e existe a frances. a versão da escola é dedicada, estudiosa, representante de turma e as melhores notas do colégio. a frances real é apaixonada por um podcast estranho, gosta de desenhar e tem hobbys que as pessoas que estudam com ela sequer imaginam.

alice oseman mostra muito desse processo de desconstrução da frances da escola quando ela e aled começam a passar mais tempos juntos. de repente, frances é exposta a um mundo onde ela tem a oportunidade de fazer o que realmente gosta e, sem perceber, a frances da escola vai ficando para trás e ela, pela primeira vez em anos, relaxa.

você consegue ver isso neste diálogo que ela tem com a mãe:

❝ Minha mãe assentiu lentamente e disse:

— Tá bom. Só quis ter certeza. Há algum tempo não vejo a Frances da escola.

— Frances da escola? O que quer dizer?

Ela sorriu.

— Foi algo que você mesma disse há algum tempo. Não se preocupe.❞

ao contrário da frances, aled não tem uma mãe tão compreensiva assim. pelo contrário, enquanto a frances consegue relaxar mais com a escola e toda essa pressão que ela coloca em si mesma para entrar em uma boa universidade, aled começa a se afundar nas expectativas da mãe e no seu desejo de focar apenas no seu podcast.

essa parte do livro sempre me deixa com um embrulho no estômago porque os abusos são claros. aled entra numa montanha russa emocional por causa da pressão de cumprir o planejamento de vida que a mãe criou para ele ao mesmo tempo que, luta contra si mesmo e a vontade de jogar tudo para o alto.

às vezes a gente sente que não tem escolha.

quem nunca repetiu para si mesmo que “não tinha escolha”? eu mesma me convenci, na época da faculdade, que eu precisava escolher um curso – qualquer curso – porque era esse o certo a se fazer. eu precisava sair do ensino médio direto para uma faculdade ou eu estaria condenada a uma vida horrível.

li uma reportagem no bem-estar que falava que: “segundo os especialistas, o cérebro não nasce pronto e só é “finalizado” a partir dos 20 anos, quando termina o processo que melhora seu processamento e velocidade. uma das últimas áreas a ser terminada é a frontal, que controla impulsos e molda as perspectivas de futuro. por isso, os adolescentes, por exemplo, costumam ser mais impulsivos, como explicou o psiquiatra daniel barros.”

isso quer dizer que quando somos pressionados a tomar uma decisão que vai definir os próximos 60 anos das nossas vidas, o nosso cérebro não está nem formado. ou seja, nossas decisões são tomadas com base num impulso, ao invés da razão.

fiz uma pesquisa no instagram perguntando se, caso fosse possível escolher qualquer profissão no mundo, se vocês escolheriam a sua atual ou tentariam a sorte em outra área. para a minha surpresa, 73% das pessoas que responderam a pesquisa tentariam a sorte em outra profissão.

acho que isso diz muita coisa sobre onde a minha geração está, não?

você sente se sente preenchido pelo o que você faz?

esse mês eu mergulhei em uma reflexão profunda sobre escrita afetiva, estava constantemente sendo impactada com conteúdos sobre o assunto.

uma passagem no livro da ana holanda, como se encontrar na escrita, me chamou muita atenção porque dizia o seguinte: “sempre me surpreende gente que não consegue ver cor naquilo que faz. me parece um tempo grande demais desperdiçado com algo que não lhe preenche. mas nem sempre o carrasco é o trabalho. às vezes, a gente mesmo se coloca nessa posição quando não abre nossa janela para perceber o quanto o horizonte é amplo.”

ninguém te ensina a procurar o que você ama, não realmente. eles te ensinam a amar o que vai – supostamente – te dar um futuro.

quem nunca ouviu dos pais que deveria tentar direito, medicina, engenharia ou qualquer coisa do tipo porque era a profissão do sucesso garantido? quem nunca ouviu a história do primo engenheiro que ganhava 10 mil por mês e estava planejando a sua primeira viagem pela europa?

o “é esse o caminho certo” nas entrelinhas disfarçado de “conselho”, sabe?

até que um dia você descobre que os engenheiros, advogados e médicos da família tem uma vida miserável. com dinheiro, mas sem nenhuma realização naquilo que fazem. são quase 18 horas trabalhadas toda semana, indo e voltando do escritório em horários absurdos, se arrastando dia após dia para atingir um objetivo que eles nem sabem explicar porque.

sou eu conquistando a tão sonhada promoção no trabalho e me dando conta de que aquilo não me deu o prazer ou a realização que eu supostamente deveria sentir. e dói muito perceber que aquele caminho talvez não seja pra você, que não tem pote de ouro no final do arco-íris e que a receita de bolo para o sucesso que te passaram estava faltando ingredientes.

é importante encontrar propósito naquilo que a gente faz.

uma das cenas que mais me destroem sempre que eu releio rádio silêncio é quando o aled finalmente consegue admitir, mais para si mesmo do que para a frances, que ele não quer fazer faculdade.

Perguntei bilhões de vezes, mas ele continuou balançando a cabeça e eu não sabia o que aquilo significava. Quando consegui fazer com que ele se deitasse e perguntei de novo, ele disse:

— Desculpe… Desculpe… Minutos depois, acrescentou:

— Não quero fazer faculdade. Acho que ele ainda estava chorando quando eu adormeci.❞

encontrar o nosso propósito de vida é um trabalho árduo. cada um tem a sua própria jornada – que não vem com nenhum material de instrução. alguns tem a sorte de grande de se encontrarem logo de cara, outros passam anos batendo cabeça na parede até finalmente chegar na porta certa (que é o meu caso).

para o aled, o primeiro passo foi admitir o que ele não queria – embora para o leitor fosse óbvio o caminho que ele deveria seguir. se despreender da ideia padronizada de escola → faculdade → trabalho requer muita coragem e um voto de fé muito grande em si mesmo.

porque é isso que conhecemos. a receita de bolo é a nossa zona de conforto e é muito fácil nos acostumarmos com aquilo e criarmos desculpas para continuar ali. a frances percebe isso quando vamos chegando no final do livro.

— Bom, a questão é que… acho que não gosto muito de literatura inglesa. Não quero mais estudar isso na faculdade.

Aled pareceu assustado.

— Não quer?

— Não tenho certeza do que eu quero.

— Mas… era isso.. Era o que você mais queria, mais do que qualquer coisa.

— Só porque achava que tinha que querer — falei. — E porque era boa em literatura. Pensava que só assim teria uma vida boa. Mas… estava errada.❞

de tudo, essa foi a maior lição que eu tirei de rádio silêncio.

apesar de já ter terminado uma faculdade e uma pós-graduação, 2020 tem sido o ano que eu finalmente tenho me permitido buscar o que realmente me preenche. talvez seja a escrita, talvez seja desenhar. talvez eu descubra que eu me sinto realizada falando de novela no twitter.

eu não sei, mas a jornada é maravilhosa.

é importante lembrar que nunca é tarde para correr atrás do que nós queremos de verdade. mesmo que você esteja no cargo mais alto de uma empresa, ganhando uma fortuna de salário, ainda assim, você pode jogar tudo pro alto e fazer malabarismo no sinal – se é isso que vai te deixar realizado.

o primeiro passo dessa jornada é começar a buscar propósito naquilo que você faz.

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